Páscoa, tempo de jogar fora o pão amargo do rancor…

Que a vontade de perdoar tenha sempre o frescor de crianças..

É Páscoa. Tempo de renascimento. Calendário propício à renovação.

Então, por que não aproveitar o momento para fazer uma apreciação renovada dos nossos sentimentos?

Quando falamos em renovação de sentimentos é inevitável mencionar o rancor.

Ervas daninhas da vida emocional, a mágoa, o rancor e o isolamento amargo costumam deflagrar atitudes hostis e produzir relacionamentos empobrecidos; causar solidão e dores que nos distanciam dos nossos semelhantes, muitas vezes, frustrando o que seriam boas relações.

Os sentimentos hostis podem ser projetados contra nós mesmos. Somatizamos hostilidades arraigadas e não expressas. Não é por acaso, que inúmeras queixas de afecções de pele (pruridos, irritações, psoríase) e uma dezena de outros sintomas costumam se apresentar como escapes de raivas represadas.

No texto, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Freud diz que  “alguns afetos evocam reações tão inapropriadas que se chocam com o movimento natural do desenvolvimento humano”. Talvez possamos dizer que o ressentimento persistente que caracteriza o rancor possa ter tal efeito sobre o movimento  que desejamos imprimir à nossa própria vida.

O rancor rebaixa a capacidade de nos relacionarmos de forma franca e espontânea. Sentimentos rancorosos se originam de mágoas mal resolvidas e de incompreensões cultivadas pelo orgulho. A dificuldade para vencer o rancor está na base do comportamento ressentido, próprio de pessoas com auto-aceitação rebaixada e com sentimentos hostis em relação a si próprio e ao ambiente.

O pior é que o rancor é como uma agressão contínua e, muitas vezes, silenciosa. Mesmo quando a pessoa por quem nutriu rancor não está presente, o rancoroso continua seu investimento em raiva e ódio a ela direcionado.

O psicólogo social Leonard Berkowitz diz que as agressões mal-sucedidas intensificam a raiva, por isso pode-se afirmar que o rancor é um comportamento que se alimenta continuamente da própria frustração que lhe é própria. E por isso pode crescer com o tempo.

E como escapar desse circuíto vicioso que nos condena a relacionamentos atravessados e sofridos?

Os psicólogos apontam a compreensão dos próprios sentimentos como o primeiro passo para não alimentar relações negativas e depreciadoras da boa convivência. Recomendam, também, o reexame dos critérios de nossos julgamentos ao firmar antipatias e simpatias nas relações.

Para os estudiosos do comportamento, atentar para qual seria o peso das nossas próprias atitudes no clima relacional que costumamos estabelecer é essencial para a mudança do circuíto energético que move nossa rede de relacionamentos.

O rancor é bocado amargo, nos acorrenta ao outro que pensamos querer repulsar.

Neste tempo de Páscoa, fiquemos com a sabedoria dos versos de Fernando Pessoa, quando nos diz no seu Livro do Desassossego:

Um bocado de sossego com um pedaço de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim…’.

Quando repartirmos o pão da amizade, não esqueçamos que plantamos e colhemos o trigo...

Ao  repartir o pão da amizade, lembrar: plantamos e colhemos o trigo…

7 comentários sobre “Páscoa, tempo de jogar fora o pão amargo do rancor…

  1. Gabriela Maria Esposito disse:

    Feliz Páscoa, Lidu! Muito obrigada pelo texto. É sempre bom refletir sobre o assunto e ver se não ficou nenhum rancorzinho escondidinho em algum cantinho. Beijos!

  2. Cidinha Costa disse:

    Hummm, que delícia ler seu texto, Lidu…mesmo quando se aborda um tema não tão doce, ainda assim, vc consegue deixá-lo ameno e as reflexôes surgem sem dor…. Feliz Páscoa, querida.. pra vc e todos da sua família. Que esse tempo seja de renovação e alegria! Beijo!!

  3. bruno benigno disse:

    O rancor cala o perdão. O rancoroso não aceita o erro do outro, não procura entender, pois está muito preocupado em julgar, e acaba se tonando excessivamente exigente com os demais e consigo e por isso também tem dificuldades de se aceitar, assumir os próprios erros e falhas, e acaba se tornando uma pessoa com pouca confiança em si e nos outros, não se entrega, não vive de forma livre e plena, pois se defendo muito, acaba se preocupando muito com os defeitos e esquece as qualidades. Perdoar é um ato de libertação, de empatia. Beijo.

  4. Irani disse:

    Grata por mais este presente, Lidu! Mais uma oportunidade de refletir e poder conferir se há qualquer sentimento negativo e fazer a faxina emocional. Como bem disseo Bruno Benigno, “perdoar é um ato de libertação.”. Beijo, saudade do nosso convívio!

  5. Mauricio disse:

    Lidu,
    Ótimo texto! É como se diz: Mágoa ou rancor não são troféus para se guardar. Sofre mais quem os guarda: levam peso desnecessário. Parabéns pela reflexão!
    Um abraço.

  6. Mauricio disse:

    Lidu,
    Excelente texto. Realmente, é como se diz: mágoa ou rancor não são troféus para se guardar. É um peso desnecessário para alguém carregar. Parabéns pela reflexão!

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