A História das Mulheres como um Colar

Obra de Augustin Kassi,da Costa do Marfim.
Mulher é ancestralidade

Pensando na história das mulheres, lembrei-me da poesia magistral de Florbela Espanca. E acho que descobri a razão de tal lembrança.

A poeta produziu versos que ultrapassaram sua história pessoal, expressando o que é ser mulher num mundo opressor. Viveu tragicamente. Vida marcada por desencontros afetivos e profunda angústia.

Angústia de quem se sentia tolhida no anseio de amar em plenitude. Amargor expresso em poesia aguda e sensível. Um de seus versos mais pessimistas é um desabafo da desesperança:‘quem noites só conheceu,não pode cantar auroras’.

Pela biografia da poeta portuguesa, não é difícil adivinhar inquietações que coincidem com perguntas que inquietam a nós, mulheres.

E foi inspirada nessas inquietações que imaginei a história das mulheres como se fosse uma coleção de experiências enfileiradas como contas de um colar.

Um colar a exibir o fio da história feminina. História composta por dias de memoráveis lutas, mas também, de biografias transformadas em tenebrosas noites.

Para examinar esse colar é preciso revirar o baú da existência feminina e achar as experiências entranhadas na vida de cada mulher. E quando o encontramos, percebemos que há contas opacas – contas manchadas pelas cores da agressão. Contas que gritam o lamento de dor da alma de mulheres brutalizadas por machos cegos pela ânsia de exercer supremacia.

Contas que escancaram o verbo sangrento formando o rosário de aflições de mulheres mortas por homens de almas impotentes. Homens incapazes de ver que a violência os condena à brutalidade e diminui sua masculinidade.

Contas horrendas que teimam em se repetir.

A esperança e a garra para a luta, entretanto, também são contas desse colar e precisam brilhar para ofuscar até apagar as contas vermelhas do sangue das mulheres mortas pelas garras do machismo.

Para tanto, é vital, não perder de vista, as contas que trazem a esperança. Verdes e brilhantes. Esperança realística que dá ânimo para nos contrapormos à fome de poder dos que nos oprimem sob inúmeros pretextos.

Felizmente, no colar, há também as contas da empatia. Sentimento que permite vivenciar a sororidade – capacidade de ultrapassar disputas e acolher e empoderar as outras mulheres. Sororidade que traz às relações e trocas, a experiência do cuidado e respeito recíprocos para o efetivo empoderamento feminino.

A sororidade, inclusive, é a liga a nos unir de forma coesa; na resistência à opressão imposta pelos que se acham nossos donos, para que um dia possamos exibir a história humana como um colar repleto das contas da dignidade das mulheres e suas conquistas.

Mulher lembra intimidade - lamento e laço.
Mulher é laço.

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15 Comments

  1. Lidu,
    Como sempre nos presenteando com os seus belos textos que nos fazem pensar, sentir, crescer…Dentre tantas outras, pensei em algumas “contas” que de imediato me remetem a você (ou seria você a elas?).São a generosidade e o talento. A primeira pelo compartilhamento constante da sua sabedoria,da sua percepção do mundo; a segunda… dispensa comentários! Obrigada e parabéns pela grande mulher que você é.
    Beijos e saudades – sempre!

  2. Nossa, encantada…. e muito feliz pelo presente para os meus olhos e consciência, Lidu…. Você certamente está nas continhas desse colar, que traduzem a sensibilidade, esperança e força da alma feminina…. Grande beijo, querida!!

  3. Salve, Liduína !!! Saúde e Paz !!!
    Mulher sertaneja,parideira,lavadeira,roceira,doceira… Mulher ferida,oprimida,reprimida, nem sempre querida… Quantas mulheres
    sofridas ? !!!!!
    Mulher da noite… Mulher do dia, não vadia.
    Mulher nas cinzas, mulher em brasas,
    Mulher na rua, sem casa

  4. Lidu… Saudades… Você sempre nos brindando com suas reflexões oportunas… Grande e linda mulher!!! Beijo enorme!!!
    Lula

  5. Lidu, que texto maravilhoso! É impressionante como continuo aprendendo com você, mesmo à distância. Você é muito gente!

    Um beijo cheio de saudade.

  6. Lidu…..Encontrei nas contas uma alma maravilhosa, amiga,fraterna,sempre
    transbordando amor ao próximo e pronta para ajudar. Essa conta se chama LIDU. Bjos nessa alma generosa.

  7. Lidu…Com você a palavra flui, serena e vigorosa trazendo imagens inquietantes, reflexões convidativas…Parabéns! Beijo grande.

  8. Liduína querida,

    Você possui uma capacidade de nos tocar com as imagens que evocas com tuas palavras. Falar da mulher, da sua importância no núcleo familiar, na sociedade, sem negligenciar o homem como companheiro, e também criticando-o como exemplar maior de uma sociedade estruturada no machismo que maltrata, espanca, fere e até mata tantas mulheres mundo afora.
    São tantas contas, não é querida, que no fim das contas fica a imagem mais arquetípica da mulher: a de MÃE – geratriz, cuidadora e nutridora de todos nós, homens e mulheres.

    Beijos no teu coração,

    Serginho

  9. Lidu,
    excelente o texto, muito apropriada a metáfora usada para falar de mulheres: um colar de palavras! Um colar de palavras expressa uma síntese da condição feminina. Sendo uma síntese, certamente não é capaz de compreender todo o significado da mulher no exercício de seu papel social em suas multifacetadas condições de existência.
    Parabéns, um grande abraço!

  10. Querida Lidu,
    Uma joia de texto. Joia rara.
    Obrigada, mais uma vez pelo presente dos seus escritos.

    Emília

  11. Querida Lidu,
    hoje reli este texto, que me trouxe a reflexão do ser mulher, muito bem retratado nesta metáfora . Você sempre compartilhando conosco de sua riqueza de conhecimento e sensibilidade.
    grande abraço,
    dirleg

  12. Prezada Lidu, a vida é um processo- e nós homens somos seres sempre inacabados – aprendemos com a vida e com o tempo. Mas só nos completamos pela delicadeza singular do encanto pulsante da mulher na vida de cada um de nós.

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