Os sentidos da leitura

 

A leitura cria possibilidades..

A leitura cria possibilidades..

Leitura. Eis um assunto cuja anunciação pode produzir atração ou repulsa.

Aos leitores devotados, tudo o que se refere a livros, leitores e escritores é valioso e digno de atenção. Às vezes, até de adoração. Já para os que não percebem o sentido do ato de ler, a leitura é vista quase como sacrifício.

E que motivos nos dividem, de forma tão marcante, quanto ao gosto pela leitura, entre leitores e não-leitores?

Se enxergarmos a leitura apenas como um ato mecânico de decifrar sinais, a fuga da leitura pode estar ligada ao ato de ler em si. Ler exige esforço e concentração e nos faz permanecer em posição corporal fixa. Além disso, a leitura força-nos a pensar de forma mais ordenada e elaborada. E pensar é trabalho árduo.

Além dos desafios clássicos, a formação de leitores sofre os efeitos da cibercultura: o livro é um suporte sem os apelos de sonoridade e movimento, mas disputa espaço com textos de suportes eletrônicos capazes de proporcionar múltiplos estímulos ao leitor.

Mas, para além das contingências externas, somente ampliando o olhar é possível perceber a leitura como trabalho de apropriação do mundo, seja cultural, estética ou espiritual e compreender que a leitura é ato com infinitas possibilidades de criar e recriar sentidos.

É bom lembrar, também, que a leitura é um ato relacional. Um mesmo texto não produz a mesma reação. Os hábitos e o nível de compreensão produzem expectativas e julgamentos diferentes nos leitores. E até um mesmo livro provoca, em um mesmo leitor, sensações distintas em momentos diferentes.

A formação de leitores regulares implica uma reflexão sobre o próprio sentido atribuído à leitura que foi sedimentado na educação da pessoa. Esse sentido precisa ser ressignificado? Ou apenas reavivado?

Todo grande escritor é um grande leitor. Por essa razão, vasculhar o que levou essas pessoas a estabelecer uma relação tão rica com os livros auxilia na compreensão dos sentidos que a leitura pode ter.

A sabedoria popular também aponta sentidos fundamentais à leitura. Há um provérbio chinês que diz: ‘Um livro é como um jardim no bolso‘. Ele enfatiza a beleza e a utilidade que brotam da leitura.

Alguns escritores atribuem à leitura papel decisivo para o autoconhecimento; outros preferem a utilidade que a leitura possa ter; tantos outros buscam encantamento ou enlevo. Há quem queira entretenimento e evasão da realidade. Mas, para cada um a leitura é prática criativa e distinta.

Cliftoon Fadiman, grande intelectual, defendia que ‘Quando lemos um bom livro vemos mais em nós mesmos do que havia antes.‘. Ralph Waldo Emerson, o brilhante ensaísta, dizia: ‘O bom livro é o que me faz ser útil.’ Robert Louis Stevenson, o genial autor de A Ilha do Tesouro,  propalava: ‘Os livros são bons por si sós, mas são um grande substituto para a vida.

Ler é recomeçar. Clarice Lispector dizia que a leitura tem sentido inaugural. Ela tinha razão. No ato de ler há sempre um  descerrar de véus para o que antes parecia destituído de significados. O erudito  francês  Michel de Certeau afirmava que “O leitor é um caçador que percorre terras alheias”. E a leitura é realmente desbravamento. Seja ela de natureza técnica ou ficcional.

Toda leitura encerra um quê de invasão e mistério. O que se esconde ao final da página? E do capítulo? E o mais incrível é que quando desvelamos a informação que estava lá, esperando para ser lida, descobrimos, também, que o mundo já não é mais o mesmo. A realidade surge com traços que antes não eram percebidos.

Ler é uma das formas mais rápidas e eficazes de mudarmos a nós e à realidade. Cada vez que fechamos um livro pela última vez, nos despedimos de quem éramos quando o abrimos. A cada livro lido somos alguém com mais filtros para pensar a realidade e mais perspectivas para colorir o mundo.

Há sempre um sentido de desbravamento no ato de ler...

Há sempre um sentido de desbravamento no ato de ler…

 

7 comentários sobre “Os sentidos da leitura

  1. Edson Luiz disse:

    Querida,

    Depois de ler você, é sempre assim,
    o mundo já não é mais o mesmo.

    Que bom que você existe.

    Abraço grande!!!

  2. Para mim, ler é como viajar sem cansar o corpo; é desbravar horizontes, aprender, mergulhar. Adoro ler e, desde pequenininha sonhava com os livros de histórias…e sonhava com o dia em que poderia comprar muitos livros.

    • Edson Luiz disse:

      Quando eu era pequeno, e não tinha livros nem podia comprá-los, eu os catava na rua, às vezes no lixo. Não sobrava pedaço de livro, revista, gibi, nada. Chegava em casa, refazia as capas porventura estragadas (colava um papelão, fazia um desenho), lia e guardava. Era a minha Biblioteca dos Desvalidos!
      Lembro de um, dentre os que eu achei, que só estava a metade. Eu li e, valha-me Deus, que vontade de saber do resto da história! Se eu lembrasse do nome/título, procurá-lo-ia no mundo, pra matar aquela curiosidade ainda hoje guardada.
      Poder comprar livros hoje, é o maior presente que a vida me dá. Leio-os, com fome. Fome de viver. Bjinho, Ana Cecília!

  3. JOVINA disse:

    “A realidade surge com traços que antes não eram percebidos”.

    Liidu,
    A beleza e propriedade dos seus ensaios são a síntese, a consagração que o ato de ler nos pode proporcionar; em cada texto seu você consegue dar poesia à realidade e realidade à poesia, numa integração que nos acolhe, conscientiza e gratifica;
    como sempre, nos instrumentaliza e nos dá confiança.
    Um beijo!
    Obrigada. Parabéns pela fluência, preparo e sensibilidade.
    Beijo bem gradão!
    Jovina

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