Semear boas sementes ….

Semeando boas sementes...
Semeando boas sementes…

Final de ano, quem já não pediu um pouco de sorte para o ano novo? Todos querem ter sorte. E cada um tem sua própria visão do fenômeno.

Há os que atribuem o poder da sorte à Força Divina. Outros consideram que a sorte é determinada pela mão implacável do destino. Alguns tantos a enxergam como o resultado da energia cósmica movendo as rodas do universo. Há, ainda, quem veja os acontecimentos como frutos do acaso; como se tudo fosse movido pela alavanca da aleatoriedade, unindo vidas, separando histórias,  enfim,causando tudo. Outros só creem no próprio poder e seguem considerando ter o domínio dos fios que tecem a existência.

Quem sabe a sorte não seja a conjunção de tudo isso? Mas, a despeito da visão de cada um, que parte nos cabe no desenho da bem-aventurança ou do infortúnio que nos alcança?

A resposta a essa questão remete para condutas pessoais. Existem dois tipos de atitudes. Há as que facilitam a existência. São atitudes que agilizam e embelezam a vida: gestos de  simpatia, acolhimento e civilidade. Condutas pessoais  que como lírios espalham leveza e beleza e diminuem a distância entre dificuldades e soluções. Por outro lado, há atitudes que têm função oposta, próprias de quem se fecha e põe má-vontade ou indiferença como barreiras ao pleno viver.

Lodo ou lírio? Sem querer ser maniqueísta, parece que, dependendo das próprias atitudes, nos dividimos entre sedimentadores de lodo e cultivadores de lírios. Natural que sendo falíveis, vez ou outra, tenhamos experiências classificáveis no extremo lodoso. Mas, alguns, por alguma razão, acabam fixando-se nessa opção. Agem, com frequencia, como muros intransponíveis.

Em contraponto, às pessoas rígidas, existem os seres de flexibilidade, cujo convívio traz mais aspectos a desfrutar do que problemas a suportar. São  indivíduos movidos pela busca de tornar as circuntâncias mais luminosas e fluidas; são seres mais empáticos, com condutas sociais que irradiam agradabilidade.

A palavra lodo tem a mesma etimologia de luto. Vem do latim lutulentus e nomeia  terreno de difícil mobilidade pela presença de  terra, água parada  e detritos orgânicos. Talvez daí, a gênese comum das duas palavras. A dificuldade de sair do estado de pesar quando se está de luto também lembra a imobilidade. A rigidez de atitudes  de quem recusa-se sem motivo aparente a adotar um estilo de vida mais criativo e edificante também é imobilizadora. Mas o luto é um momento de crise, cuja rigidez é parte do processo de elaboração da perda. Já a rigidez de hábitos é fruto de percepções e hábitos equivocados  e pode ser alterada.

O escritor chinês, Mervyn Peake diz que não existem poções mágicas ou criaturas míticas que possam construir um mundo bom para se viver. Para ele, tudo depende de ‘vencermos a virulência do autointeresse, ultrapassarmos a insensatez da vaidade para sermos capazes de reconsiderar velhos hábitos e preconceitos arraigados’. E realmente, parece que toda mudança deve começar em quem as deseja.

Ainda há tempo. Para começar bem o ano é bom aparar as arestas do antigo. Um autoexame  e a disposição para lidar com velhos hábitos é essencial. Sair do lodo do que nos diminui ou infelicita implica  tentar perceber o mundo com lentes mais sensíveis. E  a partir da nova visão, transformar, primeiro pequenos hábitos, principalmente em relação à convivência com quem está mais próximo a nós, para em seguida, ampliar o circuito de bem-estar. E há vantagens bem concretas na mudança. Além de afetar positivamente o mundo, ser agradável beneficia a saúde. Pesquisas mostram que longevidade e empatia caminham  juntas.

Nossa vida social reproduz muitos dos valores e hábitos de casa. George Eliot dizia: ‘As pessoas glorificam todo tipo de coragem, exceto a que poderiam mostrar em prol de seus pares mais próximos’. E parece ser real a forma como relaxamos  nossa postura social em relação às pessoas com quem mais convivemos. E como estar pronto para uma vida feliz fora dos muros de casa, se no lar descuidamos da gentileza, da gratidão e da reciprocidade que são os pilares da convivência?

 É possível começar agora a semear os lírios para a  existência feliz. Depende, em muito, de nós, como versejava  Drummond: 

‘É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.’

Feliz todo dia!

Inteireza de sentimentos, integridade de valores...
Inteireza de sentimentos, integridade de valores…

Publicado por

Liduina Benigno

Psicóloga, escritora. Parte de inquietações comuns sobre formação profissional e autoaperfeiçoamento humano.

3 comentários em “Semear boas sementes ….”

  1. Como sempre vc nos surpreende com boas reflexões! Gostei muito desse comentário: “Ainda há tempo…Um autoexame e a disposição para lidar com velhos hábitos é essencial. Sair do lodo do que nos diminui ou infelicita implica tentar perceber o mundo com lentes mais sensíveis… Coragem para mudar!

    Dentro de poucos dias, muitos assistirão ao espetáculo dos fogos anunciando um novo ano e com alegria se abraçarão e dirão: FELIZ ANO NOVO, mas no dia seguinte, tudo continua igual: os mesmos problemas, as mesmas angústias, as mesmas lutas, as mesmas imperfeições porque Ano novo e Vida nova só existe quando Cristo nasce no coração do homem!

    Comecemos 2013 com a certeza de que o Deus misericordioso que nos acompanhou ao longo de 2012, estará ao nosso lado, sustentando-nos nos momentos mais difíceis que porventura tenhamos que enfrentar…

    Um 2013 cheio de paz para você e para toda a sua família!

  2. E que venha 2013 nos permitindo viver dias de lucidez, amabilidade e muita esperança e fé no porvir.

  3. Lidu, que lindeza! Que sensatez! Uma leitura deliciosa na qual nos percebemos responsáveis pelas colheitas das quais participamos.
    Espero que 2013 seja repleto de doces colheitas e que ons Anos Novos que dormitam em nós comecem a nascer.
    Bjs e Feliz 2013 !!!

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