O valor da experiência

A experiência é o suporte do cotidiano…

Muitos filósofos, pensadores e artistas louvaram a experiência. Leonardo da Vinci dizia: “a sabedoria é filha da experiência” e o filósofo Guilherme de Ockham defendia que  “a experiência é o princípio da arte e da ciência”.

A experiência é o resultado da participação pessoal em ações que podem ser repetidas de forma cada vez mais perfeita e segura. Nos dicionários, o significado do verbete experiência é indissociável de características como: ação, perícia, correção, aperfeiçoamento, repetição, tentativa, segurança e primor. Por essa razão, podemos dizer que a palavra experiência encerra muitos atributos.

Além desses atributos que lhe são implícitos, é possível pensar em quatro pilares que dão sentido à genuína experiência: ação, tempo, atitude e valores. Essas são as bases de toda experiência da qual resulta aprendizado, crescimento e senso de realização. 

A ação, mesmo que seja a ação contemplativa é a própria essência da experiência. É preciso transformar vontade em ato para que se ganhe experiência; o tempo é que permite a repetição aperfeiçoada do que experimentamos uma primeira vez; a atitude é a têmpera, é a intensidade com que nos movemos em nossos atos e os valores é que determinam se nossa coleção de experiências ou história pessoal de realizações fará de nós um digno membro da raça humana que deixará referências edificantes à sua descendência.

Esses atributos sedimentam a capacidade humana de transmitir saberes pelo acúmulo de experiências. Acumular experiência é  repetir pelo aprendizado, de forma aperfeiçoada e atualizada, todo o saber que vai atravessando as civilizações, nos seus distintos e diversos modos de transformar e se apropriar dos recursos naturais e espirituais.

A valorização da experiência acumulada parece ser um traço comum às pessoas e sociedades sábias. Estas a vêem como o repositório de lições que a ação humana vai incorporando como referências e ensinamentos em contínua  conexão entre as gerações. A cena inicial do filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço é uma ilustração poderosa de como estamos visceralmente unidos, pelos fios dos saberes obtidos na experiência, aos nossos mais primevos antepassados.

Cada indivíduo vai tecendo o fio da trama inarredável da sua vida. Bordando pontos de conexão da própria existência com a contemporaneidade, com a própria ascendência e, talvez, sobretudo, com a sua descendência. Para o bem e para o mal, nossos atos vão bordando a travessia que leva nossa contribuição ao projeto humano.

Não somos videntes. É impossível olhar agora e enxergar as marcas deixadas por nós no futuro. Foram edificantes? Foram dignas? Sobretudo, foram humanas? Inútil querer fixar uma resposta. Mas podemos ficar atentos às pegadas que  nossa passagem vai deixando e aumentar a probabilidade de construir um legado singular e edificante.

Lao-Tsé, o sábio da China antiga, dizia que “somos a soma de nossas experiências”. Essa frase do milenar pensador é um convite a que façamos do dia-a-dia, uma celebração da própria experiência. Mas como agir nessa direção?

O proprio pensador chinês escreve no  grande livro do Taoísmo, o Tao Te Ching, que o começo de tudo é viver o presente da forma mais congruente e inteira: respirar em plenitude; olhar as pessoas, a natureza e os objetos com olhos de apreciação; integrar as emoções para assimilá-las de forma harmoniosa às próprias ações. Lao-Tsé ainda faz um chamamento para que escutemos com os ouvidos sábios de quem é capaz de ouvir sons diferentes das próprias opiniões.

Talvez, o que os pensadores e sábios religiosos refletiram sobre o sentido da experiência humana possa ser resumido em um convite ou interrogação: por que não saborear o futuro disfarçado de presente que chega a cada minuto em nossas mãos ? E por que não fazê-lo em profunda conexão com o que somos e  com o que queremos nos tornar?

Tecer a própria história em cada pequeno ato, com devoção e….

 

 

 

 

 

6 comentários sobre “O valor da experiência

  1. Maravilhoso texto, e especialmente a parte: Não somos videntes. É impossível olhar agora e enxergar as marcas deixadas por nós no futuro. Foram edificantes? Foram dignas? Sobretudo, foram humanas? Inútil querer fixar uma resposta. Mas podemos ficar atentos às pegadas que nossa passagem vai deixando e aumentar a probabilidade de construir um legado singular e edificante. Brilhante, como sempre. bjks

  2. Jovina Gomes Benigno disse:

    Lidu, que serviço você nos presta com seus ensaios! È maravilhoso como encontramos respostas a perguntas fundamentais de nossa vida. O texto é magnífico , e gostaria de destacar:

    ” Cada indivíduo vai tecendo o fio da trama inarredável da sua vida. Bordando pontos de conexão da própria existência com a contemporaneidade, com a própria ascendência e, talvez, sobretudo, com a sua descendência”

    Um beijo!
    Parabens, obrigada!
    Jovina

  3. Pedro Henriques/ph disse:

    Lidu,

    Esse seu texto diz muito para mim e deveria ser “pensado”.

    Parabéns e grato por mais uma belíssima e educativa escritura.

    ph

  4. Rannieri Lima disse:

    Lidú,

    Sua busca pela essência do ser pensante nos contagia!!!! Foi um prazer tê-la conhecido! Parabéns não só pelo texto, grande abraço.

    Rannieri Lima

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