Alegria: Lavoura e Fruto

Ousadia, respeito e fé na vida

Ansiar por felicidade é próprio do humano.

 A alegria é o destino mais buscado. Todos, na maior parte do tempo, desejam alcançá-la. Mas os trajetos ou veículos escolhidos nem sempre são eficazes. E, mais dramático, alguns a encontram, mas não conseguem reconhecê-la.

Não há existência imune ao sofrimento. Isto é certo, mas estar alegre é o estado de espírito que impulsiona o ânimo. Instaura a necessária capacidade realizadora, sem a qual nos sentimos desmobilizados. Inseguros quanto à própria potência para enfrentar desafios: dos mais básicos aos mais surpreendentes ou adversos.

Na história das religiões, é fácil perceber como a maioria das divindades são alegres ou suscitam sentimentos de regozijo. Talvez esse fenômeno possa ser creditado ao poder liberatório da alegria. A própria etimologia da palavra, significando ânimo e ritmo une esse sentimento ao poder criador.

Os grandes artistas ficam mais inspirados nas horas tristes?  O senso comum diz que sim. Mas a Psicologia da Criatividade parece mostrar que o impulso ao exercício criativo, nessas horas, é uma resposta na busca de superação. Ou seja, não é a tristeza, mas a vontade de triunfar sobre obstáculos que ativa o impulso criador.

Há momentos de tristeza advindos das adversidades, das fatalidades. Neles, o desânimo é inapelável. Mas podemos vivenciar a tristeza como um espelho que ajude a enxergar a existência com lente mais aguda e a colocar sentimentos em nova perspectiva.

Alguns cultivam postura negativa, apesar de sermos seres ávidos por felicidade, alguns de nós estão sempre cabisbaixos, mesmo nos pequenos percalços.O filósofo Pompônio dizia: ‘existem pessoas tão habituadas ao desânimo e à tristeza que enxergam noite, mesmo no que se passa em plena luz do dia.’ Por isso há que se entrar em contato com o próprio jeito de surfar nas ondas da existência, para modificá-lo, se necessário. Isso geralmente é benéfico e transformador.

Não podemos negar o poder inibidor que a frustração tem sobre a disposição de ânimo, mas é possível cultivar hábitos mais construtivos, mudar o circúito energético para imprimir vigor às ações. Na teoria musical, o allegro é o andamento rápido, corresponde ao compasso vital da música. Pensando nisso, talvez a alegria seja o que mantém a imanência do ritmo da vida com o ardor da ação.

Há os que atribuem tudo o que lhes acontece à sorte ou à falta dela. Assim, permanecem passivos e quando sobrevém o resultado dessa postura, lamentam-se e reforçam a atitude vitimizada. Mas Sêneca,o filósofo que ensinava à alma, aconselhava: ‘ages, não segundo a tua sorte, mas segundo o teu desejo e a tua vontade e te alças aos maiores níveis’. Creditar tudo à sorte produz inércia e desilusão.

Perceber a felicidade. Muitos conquistam suas metas, mas não percebem e então, em vez de alegres, sentem-se insatisfeitos. Outros, ao conquistar o território que eles mesmos demarcaram, o consideram insuficiente e então, ficam descontentes e infelizes.

A felicidade exige satisfação e contentamento. Não podemos esquecer que a felicidade vem, também, da forma como a percebemos e dos sentimentos que nutrimos na sua busca. Alegria é lavoura e fruto. É essencial perceber que houve plantio e que é chegada a hora de saborear o fruto. Valorizar o que foi conseguido, sob pena de esvaziarmos novas vontades. Carlos Drummond alerta para esse risco quando diz: ‘pior que a falta de água é a falta de sede’.

Consistência e durabilidade. Não existe felicidade eterna, mas os momentos felizes são mais duradouros quando são consistentes. E isso só é possível sobre conquistas cujos pilares são os valores e a aderência aos nossos propósitos. Se escolhemos metas autênticas, imantadas à nossa identidade e coerentes com os próprios valores, o sentimento de satisfação tende a emergir.

É ainda o sábio Sêneca que ensina sobre a consistência necessária às ações de quem busca a felicidade, quando diz: ‘alegra-se com consistência quem tem caráter reto, alma sensata e despreza os caprichos da ambição tola”.

É preciso empunhar a lança do entusiasmo de forma realística. Sem descuidar que toda conquista é a projeção de um sonho no solo concreto da existência. Talvez Dom Quixote consiga traduzir, com exageros, mas traduz, os temperos da determinação que colhe frutos maduros: ousadia, disposição, rumo, coragem, sonhos.

Para nós, mortais, está posto o desafio da temperança. Miguel de Cervantes, o criador de Dom Quixote, herói ridículo e personagem perfeito, escreveu na folha de rosto de seu livro, a segunte frase: post tenebras, sepro lucem (depois das trevas, espero luz). Essa frase encerra uma visão otimista diante de grandes empreitadas. Funciona como perfeita exortação aos que costumam esgueirar-se pelas sombras da tristeza.

Dante Alighieri, na Divina Comédia, reafirma a necessidade da consistência e da autenticidade para uma existência coerente e alegre e é com esses versos inpiradores que essa reflexão termina:

Quem firmeza não tem nos pensamentos,
no fim, se aparta do que sua alma se destina e
assim,
malogra, instável,
seus instintos.


A alegria imprime ânimo, instila ritmo.
A alegria imprime ânimo, instila ritmo.


 

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9 Comments

  1. Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente, ao deleite desse artigo Lidú, nossas vidas foram edificadas pois percebemos que você erradia essa luz..

  2. Moderação é a palavra adequada, acho que a felicidade não está fora da gente, em alguma coisa ou em alguém, mas é interno,está no nosso íntimo, na nossa maneira de olhar o mundo. Lindo texto Liduina. Bjs.

  3. Lindo texto, Lidu! Com certeza “estar alegre é o estado de espírito que impulsiona o ânimo, instaura a necessária capacidade realizadora, sem a qual nos sentimos desmobilizados e inseguros quanto à própria potência para enfrentar desafios…”. Levar a vida com alegria é o grande diferencial! Beijos.

  4. Lidu,
    teu texto é mais um presente; quando você escreve:

    ” alegra-se com consistência quem tem caráter reto, alma sensata e despreza os caprichos da ambição tola” e ainda: ” toda conquista é a projeção de um sonho no solo concreto da existência”,

    você explicita como os valores que nos movem são determinantes na tarefa de construção de toda nossa existência e de como a acolhemos; e da compatibilidade que precisa existir entre nossos sonhos e nossa capacidade de realizá-los, realça nosso poder de transformar e criar;

    Lembrei de uma frase que diz: ” a infelicidade não existe, o que existe são momentos infelizes”.´
    Parabens e muito obrigada por mais esta reflexão.
    Obrigada!
    Beijo!
    Jovina

  5. Amiga Lidu,
    Mais um belo presente! Gostei muito do texto, em especial do trecho que fala do poder criativo do artista…” não é a tristeza, mas a vontade de triunfar sobre obstáculos que ativa o impulso criador”…Nunca havia pensado sob essa ótica e também não sei se existe algum trabalho a respeito, mas gostei da explicação.
    Beijo grande,
    Conceição

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