A Coragem de seguir adiante ou …

Há algum tipo de coragem quando escolhemos prosseguir  …

O tempo recomeça a cada ano. É preciso tirar do papel as listas de desejos e os planos de ação. Colocar neles, alguma circulação sanguínea. Dar-lhes vida. Para isso é preciso coragem.

Sempre que falamos em coragem, pensamos em medidas drásticas. Lembramos de gente famosa que fez escolhas extremas ou produziu grandes feitos. Incontáveis figuras foram fonte de inspiração para os artistas, em decorrência do destemor de suas decisões.

O escritor inglês, Somerset Maugham escreveu o livro Um Gosto e Seis Vinténs sobre a vida de Paul Gauguin. E o que o fez dedicar-se a expressar, na sua obra, a vida do pintor francês foi o estilo de vida  escolhido por Gauguin. Ele largou uma vida confortável, família estruturada e foi embora para o Tahiti, perseguir a realização pessoal investindo no seu pendor artístico.

Mas, e nós, seres comuns e anônimos não somos compelidos a exercitar algum tipo de coragem na vida cotidiana?

Cor e ação. A coragem nos anima. É ela que nos lança adiante. É a cor do que fazemos. Todos precisam de algum tipo de coragem  para continuar vivos. Então, talvez devêssemos, de vez em quando, olhar para essa emoção com vagar. Aprender mais sobre encorajar-se.

Intuição e desejo. A palavra coragem origina-se da mesma raiz etimológica de coração, órgão carregado de significado como centro que nos impele à emoção e à ação. E a coragem é realmente uma emoção visceral. Tem muito de pulsação, de intuição e de desejo.

Talvez por essa razão, há quem diga que todo tipo de coragem traz embutido um certo nível de estupidez. Entretanto, a coragem genuína alia ação, emoção e discernimento. Sem alguma clareza de nossos atos, podemos estar sendo impulsivos. Mas o corajoso é alguém que alia a animação e a perseverança do ato focado no objetivo, sem perder de vista suas implicações. Sem medos exagerados, mas com prudência.

O escritor inglês Rudyard Kipling, vencedor do Prêmio Nobel em 1907, escreveu no poema Se, a mais perfeita tradução do que seja a coragem. Depois disso, quem quiser desenvolver o assunto, precisa lançar mão da sabedoria contida naqueles versos que  na sua primeira parte, dizem assim:

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses ainda achas uma desculpa
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais ou pretensioso.

Como encaramos nossos próprios atos? E realmente, é essencial o papel do autoconceito e do autocontrole como  determinantes do ânimo e  da perseverança, elementos que nutrem a coragem. Há que não substimar a própria capacidade de seguir em frente, mantendo a autoconfiança. Esta atitude robustece a vontade.

Talvez, tão essencial quanto manter a autoconfiança é não se colocar como vítima, não superestimr o esforço de cada pequeno passo. Os que param muito de caminhar para se quexar, acabam sendo ultrapassados pelos que se dispõem a manter ritmo e disciplina em direção às própria metas. Ou é ultrapassado pelo próprio desânimo e medo.

Atitude.  Ter atitude tem valor. A atitude é a ação  afirmativa do que somos, por isso, seu efeito é potencializador do êxito. A atitude opõe-se ao gesto vacilante e inseguro, incapaz de firmar propósitos. Os versos de Kipling nos exortam a isso:

Se és capaz de pensar – sem que só a isso te atires;
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores;

Dar à vida todo o valor e brilho. O poeta Gonçalves Dias, na sua  Canção do Tamoio, diz que: ‘a  a vida é luta renhida, que aos fracos abate’. Com toda a reverência ao poeta maranhense, talvez seja melhor não nos classificarmos como fracos e fortes. Toda classificação reduz. E aos seres humanos, nos diminui. Quem sabe seja melhor visualizar pessoas que sabem viver em plenitude, a atitude da coragem. Que sabem atribuir à vida valor e brilho por meio de seus atos, mesmo os menores, escondidos nos gestos cotidianos.

Se és capaz. O desafio é duplo. Acreditar-se capaz e agir no sentido de confirmar a crença. E fazer isso, dando cada passo com vigor, mas se permitindo fazer paradas para ficar feliz com o que já foi caminhado e respirando para alimentar os pulmões e fortalecer o coração para as passadas que ainda serão exigidas. Manter a disposição reforça a coragem. Impulsiona o caminhante a prosseguir.

Seguir aprendendo.  As lições contidas no poema Se de Kipling são uma ótima provocação para mantermos a curiosidade amolada. Talvez seja essa a receita. Aproveitar as vicissitudes do caminho para fortalecer as pernas e, assim, alcançar o ponto de chegada, sabendo mais. Isto pode facilitar as próximas jornadas. E quem sabe ajuda-nos a chegar melhor do que éramos na largada.

Boa lição. Para um bom aprendiz, nada melhor que boas lições.Então, fica a mensagem do final do poema de Kipling, a nos provocar eternamente para o valor do coração, digo, da coragem:

Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que nela existe.

Dedico este ensaio a Jovina G. Benigno que acena aos desafios com coragem e amor. E a Elieuza Sampaio, alguém que se lança aos próprios projetos munida de singular coragem.

14 comentários sobre “A Coragem de seguir adiante ou …

  1. virginia xavier disse:

    todos os dias necessitamos de uma pequena dose de coragem para enfrentarmos a vida, às vezes precisamos de dose dupla para encararmos a nos mesmos.Bjs.

  2. Elieuza disse:

    Obrigada, Lidu. Muito me lisonjeia a dedicatória. Tocou-me as palavras de Gonçalves Dias ‘a a vida é luta renhida, que aos fracos abate’. A coragem muitas vezes é filha da necessidade, ou ir em frente e correr o risco de viver ou ficar e morrer sem ter vivido.

  3. Nerilene disse:

    Mais um dos seus belos ensaios, como sempre acontece, foi num momento providencial, para encorajar-me e contagiar aos que necessitam de coragem! Bj

  4. JOVINA GOMES BENÍGNO disse:

    Lidu,

    obrigada pela dedicatória; você é muito generosa e como sei também que você é muito verdadeira fico ainda mais feliz e gratificada em ter o ensaio dedicado a mim também;

    A reflexão trazida pelo seu texto , com a feliz transcrição do poema de Rudyard Kipling, nos faz buscar em nossos “locais”, mesmo nos mais recônditos, a certeza de que a felicidade e a realização são possíveis.
    Permita-me dedicar- lhe os versos de Kipling:” Tua é a terra com tudo o que nela existe.”

    Beijo!
    JOVINA

  5. Audizio disse:

    Lidu,

    O que posso dizer sobre a coragem? Coragem é algo intrínseco. É por em prática a vontade de realizar.

    Parabéns pelo excelente ensaio.

    Bjos!

  6. Carlito Ludwig disse:

    Caríssima Liduina!

    Parabéns pelo edificante ensaio! Deus a mantenha nesse ritmo produtivo, para o bem de todos aqueles que, como eu, têm o privilégio de ser contemplados por seus inteligentes escritos.

    Forte abraço!

  7. Apio Claudio de A. Bessa disse:

    Lidu,

    Mais uma vez você nos presenteia. E sempre com um assunto importante e desafiador. Nunca fulgaz ou óbvio.

    Faço coro com Alexandre: Enriquecedor!.

  8. Reinaldo disse:

    Pois é… coincidiu que em alguns momentos, neste início de ano, me andou faltando coragem para algumas ações. O texto serviu para encorajar-me a continuar no meu pensamento de tomar algumas atitudes, apesar que o ser humano é um ícone importante neste processo e que em vários momentos ajuda, atrapalha, confunde, surpreende… bem… deixar eu continuar no meu devaneio rs. Saudades! Bjos

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