Balada para o Discernimento…

Sonho, reflexão e discernimento operam a mágica

Quando chega o último mês do ano e os pêndulos do relógio estão cada vez mais próximos de fazer a última viagem entre um extremo e outro, encerrando o ano que se acaba, chega o tempo da colheita. O tempo de visualizar triunfos e frustrações. Construir nova lista de desejos. E este ato tão popularizado, tão repetido no fim de ano merece um momento de reflexão.

A confecção de uma “lista de desejos” tem efeito parecido com o dos rituais tribais de passagem – símbolos de ultrapassagem ou  chegada a períodos críticos  da vida. Por esse motivo, talvez devêssemos dar mais importância a esse momento. Não pelo ato em si, mas pelo que suscita.

Confeccionar um rol de desejos força-nos a entrar em contato com  o que tememos e  com o que almejamos. Elementos que traduzem o núcleo mais consistente do que somos.  Então, porque não valorizar mais esse ritual? Por que realizá-lo como se fosse um simples check-list? Por que não refletir mais  e colher maior discernimento?

Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, compara a lucidez  à luz do sol. Para ele, ver sob a luz é que: ‘ desvanece as névoas das paixões e mostra todas as veredas”. O poeta italiano tem razão. Em qualquer situação, a clareza de ideias leva à  lucidez de julgamento e  ao maior acerto nas apostas e escolhas.

A questão é que não estamos habituados à profundidade. Talvez possamos dizer que costumamos ficar na superfície.  Planejamos com ligeireza e julgamos com preciptação. E desses hábitos costumam sair decisões  imperfeitas. E não há saída possível: a lucidez exige o pensar.  E o pensamento pede a reflexão. É da reflexão que o pensamento se nutre.

E por que nos limitamos a ‘arranhar o verniz’, atravessamos anos sem conhecer a substância que nos encorpa. Baltasar Gracián, na sua Arte da Prudência, ensina que ‘o discernimento profundo é filho do correto pensar e somente a reflexão atenta afasta o infortúnio’. Para ele, há que se descobrir o poder que a ação refletida tem. Talvez essa atitude seja um caminho para concretizar sonhos, minimizar frustrações ou aprender a lidar de forma mais construtiva com elas.

Arundhati Roy, escritora e ativista indiana, chama atenção para o poder diluído nos atos cotidianos do ser humano. Para ela, esse poder é assustador e pode redimir ou destruir. E se olharmos o que fazemos com o planeta com o somatório de nossos atos; o que muitos fazem com as suas histórias de vida, seja pela felicidade e acúmulo de decisões acertadas, seja pelos infortúnios acumulados de opções equivocadas, veremos que tal visão deve ser considerada.

Todos querem fazer da vida um arranjo harmonioso; uma obra de arte com notas em afinação com  o próprio desejo. Mas, pelo visto, não investimos muito no ensaio, na opção pelos instrumentos ou na proporção dos ritmos. Optamos por um instrumento e vamos tocando, sem atentar muito para o alcance da melodia, ou se a música tem conexão com tudo o que compõe nossa história.

Aliar desejo, discernimento e ousadia é precioso para a composição de uma história em harmonia com o que somos e com o que queremos construir. Juntar essas três vozes no eterno arranjo e rearranjo da vida. Precisamos compor a melodia da lucidez que aclara os territórios por onde nos movemos. 

A  balada consiste em um tipo de expressão musical, necessariamente polifônica,  pois não pode ser executada a uma só voz. Nela, há sempre uma voz aguda, em destaque, acompanhada por outras duas vozes graves seguidas por instrumentos. E se pensássemos nossa vida como uma balada composta pela voz aguda do desejo em conjunção com as vozes graves do discernimento e da ousadia, initerruptamente até o momento final? seja do ano, do dia, da vida?

E a lista de desejos? Tomamos novamente emprestado o pensamento de Baltasar Gracián, jesuíta espanhol que viveu no século XVII, quando nos ensina que o pensamento fecundo, o discernimento profundo, e o gosto agradável pelo viver fazem com que certas vidas irradiem luz.  Pensemos nessa frase quando fizermos nossas promessas de fim-de-ano. Escreva seu desejo e suas esperanças com os raios luminosos da sabedoria.

Feliz lista de desejos!

As vozes do desejo, do discernimento e da ousadia compõem a melhor balada…

Dedico este ensaio a Clemente G. M. Benigno. Alguém que tem construído uma história de determinação e perseverança.

3 comentários sobre “Balada para o Discernimento…

  1. Katia Borges disse:

    Lidu

    Que saibamos fazer da nossa “lista de desejos” realidade nesse 2012 que se aproxima.

    Que o Deus Menino traga para a humanidade mais amor e esperança neste Natal bem como um Ano Novo de muita alegria e paz.

    Um grande abraço e Boas Festas!

    Kátia

  2. marcita disse:

    Lidu….sempre escrevendo com muita lucidez e ternura…….grande beijo…..feliz natal pra você e toda sua família….forte abraço e grande beijo…..

  3. Jovina Gomes Benígno disse:

    …hoje você é imortal
    e que continues sendo sempre, nesse caminho
    em que com certeza tens deixado mais flores do que espinhos….

    Lidu, permita começar meu comentário sobre tua mais nova cria (esta aqui publicada, pois com certeza essa cabecinha poridigiosa que tens já tem muitas outras em elaboração), com versos de uma poesia que escrevi há uns dias…

    Falo acima de ser imortal e a ligação com teu ensaio/poema eu visualizo porque entendo que o teu ensaio fala, entre tantas outras reflexões, é dessa grandeza que podemos ser;
    Quando você escreve: “…Precisamos compor a melodia da lucidez que aclara os territórios por onde nos movemos…”, penso que você está falando de música, a sagrada música de nossas vidas, de sonoridade- e quão imortal é a música!

    Quantas flores tens deixado em nossas vidas! Quanto perfume!
    Obrigada por mais esta reflexão;
    Um beijo
    da irmã que tanto te ama e admira
    Jovina

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