Nossa criança interior

Colher os frutos da experiência...

Uma criança habita nosso ser….

Somos seres abertos ao crescimento. Por isso, dizemos que há uma criança que habita nosso ser. Ela representa a necessidade humana de contínua transformação.

Assim, do início até o epílogo da ópera da vida, precisamos continuar afinando instrumentos, transformando atitudes. Mas, se olharmos com olhos que enxergam, veremos que nos dividimos entre pessoas de atitudes rígidas e pessoas com vontade fraca e decisões frouxas.

Pessoas rígidas têm hábitos e pontos de vista arraigados; tiram pouco proveito da experiência e se apegam com fervor a opiniões não revistas. Estão presas a ressentimentos, tendendo ao rancor e à negatividade.

No sentido oposto, temos pessoas que não se afirmam. Seres ‘à deriva’, que dissolvem a própria identidade, conforme circunstâncias. São chamadas vulgarmente  de ‘maria vai com as outras’, por assumirem, sempre, um centro de controle externo ao firmar propósitos, em detrimento de referências internas.

Mas, tanto a rigidez como a vontade fraca deformam identidades e empobrecem percursos de vida, uma vez que podem nos levar a agir como adultos empedernidos ou seres alienados da  própria identidade.

A despeito de tudo isso, sendo vocacionados à expansão, podemos adotar a flexibilidade para uma atuação mais centrada: revendo escolhas, dosando atitudes e agindo com temperança.

A flexibilidade é o atributo humano ligado à busca de equilíbrio. É requisito para a maturidade do ego. Para  benefício do processo de crescimento, é preciso integrá-la para um agir mais equilibrado.

É natural da infância, a busca da novidade e da experimentação; o agir da criança é, portanto, fonte de inspiração para o aprendizado da flexibilidade.

À proporção que nos tornamos adultos, vamos nos afastando de riscos e novidades. Fixamos padrões de conduta em detrimento de nossa criança interior, ou seja, da nossa capacidade de tatear caminhos.

Ser adulto não significa adotar condutas padronizadas e artificiais. Amadurecer é aprender a navegar com bússola própria e caminhar firme, mas consciente de que há diferentes rotas e distintas navegações.

Nossa ‘criança interior’ é senha para encontrar o ‘caminho do meio‘, como dizia Aristóteles, ou seja, o caminho da dose certa. Representa a lógica da mente emocional e intuitiva, em contraponto com a lógica racional.

A criança interna de cada um integra em nós o pensamento movido por intuição, sonhos, poesia e mito. É o tempero para a firmeza proporcional própria do amadurecimento pertinente e este faz o ego adulto.

Na poesia: Sonho de um sonho, Drummond fala dessa abertura para o mundo, como forma de nos mantermos sábios e prontos a assumir a condição de seres inacabados:

Eu sonhava que estava alerta,
e mais que alerta, lúdico,
e receptivo, e magnético,
e em torno a mim se dispunham
possibilidades claras,
e, plástico, o ouro do tempo
vinha cingir-me e dourar-me.

Então, que tal convivermos mais com a criança que habita em nós?

Equilíbrio entre permanecer e mudar

Equilíbrio e crescimento

4 comentários sobre “Nossa criança interior

  1. Bruno Benigno disse:

    A criança é livre dos esteriótipos, dos pré-conceitos, das regras sociais, que trazem um peso, limitador da criatividade, da inspiração. A criança não tem medo de errar. Com o passar dos anos, costumamos nos cercar das responsabilidades do trabalho, do cuidado com a casa, com a família, e a própria imagem criada por nós perante os terceiros, o que nos limita a mudar, a ousar, pois acabamos presos aquilo que já construímos e muitas vezes mudar significa justamente abrir mão do que já se fez, admitir que não foi o bastante, de que ainda há muito a buscar. O desafio de se reinventar não deve ser limitado pelas obrigações, ou pela idade, pois como diria o poeta R. Russo, “temos nosso próprio tempo, e o que fizemos no passado “não foi tempo perdido”. Portanto, entendo que continuar sendo criança é se permitir fazer coisas novas, sem as amarras da censura social, é saber envelhecer. Quando conseguimos isso, nos reencontramos com a nossa criança interior, olvidada por anos na fase adulta, mas que reaparece quando vem a maturidade do ser, quando nos rencontramos conosco, geralmente em uma fase em que percebemos que a vida é um ciclo autofágico,definido por Buda pelo símbolo do Ouroboro. Tal momento independe da idade cronológica, pois é mais ligado à idade da alma, ou como diria o poeta, ” a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer” ( Arnaldo antunes). Para finalizar, gostaria de agradecer o belo texto, que me fez companhia em um momento de solidão em jampa, que me permitiu lembrar da minha avó, dona Isabel Leilá,que depois de adulta , casada e mãe de família se descobriu uma artista completa.

  2. Audizio disse:

    Lidu, esse ensaio caiu como uma luva nas minhas mãos. Creio que devemos viver cada momento em nossas vidas de acordo com a idade e as condições ambientais que nos proporcionam. Quanto mais avançamos na idade, maior é a tendência à rigidez no campo das idéias. No entanto, a flexibilidade do nosso entendimento em compreender o outro e respeitar o seu pensamento nos permite exercitar a tolerância. Um dia, todos querem chegar à velhice com saúde e lucidez para contar histórias, falar de experiências pessoais, apresentar idéias, defender opiniões e crenças. Quanto mais estivermos dispostos a ouvir e entender o contexto de vida de cada um, mais estaremos nos posicionando como crianças desprovidas de preconceitos. Um grande abraço e parabéns pelo texto!

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