Ultrapassando a frustração…

Acreditar no futuro. Sonhar. Alimentos da vontade.

Discernimento. Decisão realística. Moral elevado. Se os alquimistas tivessem descoberto a poção mágica para garantir o sucesso; certamente esses seriam elementos, que associados, deveriam compô-la.

Mas será que existe uma fórmula para o sucesso?

Tudo indica que sortilégios, remédios e passes de mágica para alcançar êxito, sem inspiração e transpiração, são quimeras.

James Price é considerado o último alquimista. Ele julgou ter encontrado a Pedra Filosofal, capaz de transformar metais em ouro. Em 1783, não obteve êxito ao demonstrar seu achado. Ele não conseguiu superar o insucesso, tomou veneno em público e morreu. Além de não deixa a fórmula, o mago deu um exemplo destrutivo de como  lidar com os “fracassos”.

Não podendo contar com a ajuda da Alquimia, resta-nos aprender novas lições. Construir outras saídas.

Nossos desejos são tesouro intransferível. Eles nos mantêm pulsantes, móveis e dispostos. Mas, para alcançá-los, há uma distância a ser percorrida. E com obstáculos. Na linha de chegada podemos encontrar êxito e satisfação . Ou, insucesso e  frustração.

Muitos enxergam dificuldades como estímulos. Visualizam a caminhada como exercício para desenvolver novas habilidades. Jogam-se à experiência, correm riscos calculados. Fogem da ilusão, forte potencializador da derrota. Usam lentes realísticas. Estão insatisfeitos? Vão à luta. Pensam. Retrocedem. Ampliam a própria vantagem e recomeçam.

Criar soluções ou arrumar desculpas. Outros olham o caminho a percorrer com a visão embaçada pelo desânimo. Olhar distorcido por desestímulos passados. Miopia trazida pela descrença no futuro. Autoestima abalada. Essas pessoas tendem a agir como um mágico insatisfeito consigo mesmo, mas que não aperfeiçoa os próprios truques. Diz saber tirar coelhos da cartola como ninguém, mas nunca realiza o número de forma magistral. Usa a criatividade a arrumar desculpas. O circo é humilde. O público estava barulhento. A cartola é pequena. A assistente não é bonita o suficiente.

As justificativas têm certa utilidade para o equilíbrio emocional. Elas servem  como desabafo momentâneo. Ajudam-nos na descompressão do sentimento de menos-valia. Quando nos justificamos, sentimos alívio. Isso ajuda a diminuir o choque de nos enxergarmos como incapazes, mesmo num episódio isolado.

Estancar na queixa não fortalece as pernas para a viagem. Na frustração, o que  dá vigor à vontade é buscar  meios decisivos que nos impulsionem. Novas trilhas, tentativas de exercer capacidade realizadora; ou de vivenciar frustrações de forma mais original.

Mas, como favorecer essa atitude? Tudo começa com um moral elevado. O moral é a qualidade do ânimo. É a chama acesa que permite instalar circuito realizador no agir humano. É diferente da moral que é a parte da Filosofia que trata dos deveres  e costumes. O moral refere-se à capacidade humana de se autodeterminar e permanecer firme, rumo aos propósitos. A despeito de barreiras encontradas.

Jogo de cintura. O moral elevado é pai da perseverança. Perseverar é continuar com uma decisão na mente e trilhar, passo a passo, o espaço que nos separa das metas almejadas. Persistência não é teimosia. Permanecer em rota por absoluta teimosia  pode nos levar a colidir com obstáculos que só poderemos transpor com maleabilidade. A persistência é a permanência que se renova. Corrige direções. Revê escolhas.

A frustração faz parte da maratona de realizações e tropeços da existência. É um mecanismo psicológico que pode ajudar as pessoas a manter contato consigo mesmas, nos episódios de perda, solidão ou incapacidade. A frustração é fenômeno ambíguo. Ao tempo em que nos leva a entrar em contato com as vicissitudes; ajuda-nos a desenvolver as ferramentas da superação. Saber lidar com ela tempera a ousadia. Modula a vontade. Imprime senso de realidade aos julgamentos.

Há quem diga que a frustração é filha da ilusão. José Saramago disse certa vez que ter ilusões é natural. Para o escritor português, o perigo é viver iludido. É sermos incapazes de julgar o que é real e o que é  fruto de engano. E na origem de todo bom agir, não está sempre a boa capacidade para discernir? Fica uma lição do autor de Ensaio sobre a cegueira.  O discernimento impede de seguirmos iludidos.

Píndaro, lírico da Grécia Antiga dizia: “Não busque o impossível; mas esgote as possibilidades que estão ao seu alcance”. E só é possível seguir o conselho do célebre grego, se mantivermos o discernimento amolado e o moral elevado.

Somos seres incompletos. Por isso, desejamos. A incompletude permite a tarefa contínua de construção e reconstrução de nós mesmos. Quando nos julgamos  acabados, nas dificuldades, agimos como seres esfacelados. Negação completa da condição de seres desejantes.

Dedico este ensaio a Lucas Benigno. Disposição infinita de construir novos sonhos inspirando fé no amanhã. 

11 comentários sobre “Ultrapassando a frustração…

  1. Nerilene disse:

    Que maravilhoso ensaio!!!! Nos leva a refletir sobre a nossa posição diante das dificuldades encontradas no percorrer de nossa caminhada, e nos coloca claramente a necessidade que temos de estarmos em continuo processo de buscas, de sonhos, de termos ilusões…Porém tendo o discernimento que estamos na “Vida Real”!

    Abraços!

  2. Reinaldo Palmeira disse:

    “A frustração… É um mecanismo psicológico que pode ajudar as pessoas a manter contato consigo mesmas, nos episódios de perda, solidão ou incapacidade”.
    Concordo plenamente com isto. Afinal, após recente ‘experiência’ por qual passei, ‘penso’ que os meus diálogos internos e sentimentos evoluiram e continuam se degladiando num processo de entendimento. Não é fácil mas é instigante.

    Bjos, Rei.

  3. Jovina Gomes Benígno disse:

    Lidu,
    Uma vez você escreveu lindamente sobre a força do exemplo; era um texto que nos chamava à reflexão não só ética como estética sobre nosso agir e seu próprio texto era o exemplo da melhor/ ação. Hoje você nos presenteia com : “ O Sentimento da frustação”, ratificando a coerência do seu pensar.
    você é tão surpreendente. É como um “curta metragem” com final feliz; como tudo o que você escreve; é um final feliz porque nossas vidas sempre recomeçam , oxigenadas pela lucidez e esperança de suas palavras (Lembra quando você escreveu sobre: “que filme você quer fazer da sua vida”?) o título era mais ou menos esse, foi genial.
    E são o inesgotável discernimento, a força e a esperança de suas palavras(sempre muito bem colocadas), que nos felicitam e nos motivam sempre a ler você.
    Fiquei feliz e considero muito justa a dedicatória ao Lucas, pois é imensa a capacidade dele de acreditar no novo.
    Beijo grande.
    Parabens!
    Jovina

  4. Sanderlene disse:

    Lidu, belíssimo ensaio!!!
    Adorei seu blog!!!
    Vc é especial……com suas colocações, permite que possamos refletir, repensar, enfim, tornar-nos alguém melhor.
    Nesta nossa caminhada vamos encontrando situações e pessoas que nos fazem crescer e é isto que torna o percurso tão empolgante!
    Como disse Charlie Chaplin: “Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida, viver com paixão. Perder com classe ou vencer com ousadia, pois o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante”.

  5. gabriela disse:

    Tia Lidu…

    eram dessas palavras que eu estava precisando XD…para continuar e renovar a minha caminhada do dia a dia. Gostei muito de seus pensamentos …texto , simplesmente, belo e inspirador.

    beijos de sua sobrinha Gabi

  6. Lula. disse:

    Apesar da força íntima para superar a frustação e conquistar objetivos, uma outra força externa é mola propulsora nesse processo: os amigos sinceros que acreditam e compartilham conosco o desejo de sucesso.
    Parabéns !

  7. ana cecilia disse:

    Após uma semana de frustrações, foi muito bom ler o seu ensaio.
    Lembrei de Ivan Lins: “desesperar jamais, aprendemos muito nesses anos, afinal de contas, não tem cabimento, entregar o ogo no primeiro tempo”, nem no segundo, nem na prorrogação, nem nos penautis…Tocar pra frente! Bjs

  8. Edilene Santos disse:

    Essas palavras me reanimaram de uma maneira tão intensa e me fazem ver coisas maravilhosas, desafios, valores. Entendo que o que importa mesmo é ser feliz, buscar um estado melhor estado de espírito e que nós é que temos a decisão de tudo em nossa caminhada e que a indecisão já é uma decisão. Temos em nossas mãos esse poder.
    Lindo demais tudo isso.
    Adorei te conhecer.
    bjs.
    Edilene Santos.

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