Cuide de quem você é, cuide …

A dimensão do cuidado é transformadora...

Cuidado com as suas ações. Confúcio, filósofo chinês, dizia: cuidado com os seus pensamentos, eles determinarão suas ações; cuidado com as suas ações, elas determinarão os seus hábitos; cuidado com os seus hábitos, eles determinarão o seu destino.

E o velho sábio tinha muita razão quando nos alertava para  percebermos o  valor da maneira como cumprimos as tarefas do dia-a-dia.  A rotina pode dizer-nos se os dias serão mera repetição de ações descuidadas e desordenadas; ou se o cotidiano trará oportunidades para  desenvolvermos experiências na direção do que almejamos.

Há um equívoco quando igualamos experiência à simples repetição. Acumulamos experiência quando agimos de forma refletida,buscando aperfeiçoar a prática. A sucessão dos dias de qualquer pessoa inclui atividades como higiene, alimentação,cuidados domésticos e outros atos  para a manutenção dos referenciais da existência. Mas, cada dia sob o sol traz sua própria novidade e precisamos estar prontos. Cuidar de nós mesmos. Do que está próximo a nós.  Condições básicas  para  manter o prumo na direção do horizonte sonhado.

Quando cuidamos de nós e de nosso entorno, essa dimensão do cuidado floresce para além do que imaginamos.  Nosso jeito de estruturar  a rotina vai dizer se teremos uma linha de tempo existencial que é mera repetição de ações sem sentido e que talvez por isso, se expressem de um jeito descuidado e desordenado ou se cada manhã trará olhares mais ampliados sobre o que fazemos e como estamos no mundo.

Experienciar é realizar o que precisa ser feito da melhor forma. Experiente é quem não cai no pragmatismo, no imediatismo das ações irrefletidas e percebe cada pequena tarefa no seu sentido maior. Eu explico. Tomar banho. Essa ação tem uma finalidade imediata de limpeza corporal.  Mas, pode ter um papel maior. O banho pode ser momento de intimidade e de carinho  expresso com o  próprio corpo com repercussão  direta sobre a saúde e sobre a sensualidade.

Tal qual tomar banho, qualquer ato de nosso cotidiano, alimentar-se, por exemplo, pode repercutir para outras dimensões além das imediatamente percebidas. Somos unidade: corpo e mente. Somos, também, seres simbólicos e por isso, capazes de transcender. A transcendência diz respeito à nossa capacidade de visualizar o corpo para além de sua perspectiva corpórea e física.  Significa que podemos nos perceber como seres espirituais. Espírito significa sopro.   

Então, é refletir. Que sopro anima nossas ações cotidianas? O  vento do desânimo? Ou a brisa da inspiração? 

A boa disposição de ânimo leva o timoneiro a seguir firme sabendo que construirá um caminho no mar. Entre dias amenos e calmarias. E será que não é o mirar o horizonte, olhando em volta e à frente, cuidando do barco somado à vontade firme de remar  que o levará à  ultrapassagem dos obstáculos? Ao porto seguro?

Somos o resultado do que fazemos e como fazemos. Quase tudo advém daí. Nossas ações nos expressam.  Cuidar do cotidiano tem efeito energizante sobre os demais aspectos da vida. Cuidar da primeira pessoa que encontramos ao acordar: nós mesmos. Dos objetos que   proporcionam o conforto sempre tão almejado. Das pessoas em volta. Das flores  do jardim. Das plantas do quintal. Dos animais de estimação. Cuidar.

No livro Mulherzinhas (1868), Louisa May Alcott apresenta o retrato de uma família de classe média que pela dedicação extrema ao lar e ao próximo, consegue superar as dificuldades financeiras que atravessa. Esse livro espelha o valor de se cuidar do cotidiano com civilidade, organização e disciplina.  

O livro é uma obra do século XIX. Não espelha a dinâmica da vida atual, mas abstraindo as peculiaridades da época, pode ser inspirador para uma rotina edificante. Outra obra que nos fala do tema é a autobiografia de Benjamin Franklin. O livro é considerado um manual para a autoperfeição humana.  O autor convida-nos a refletir, sobretudo, sobre a  dedicação ao cuidado com as tarefas que precisamos realizar e, também, sobre como utilizamos o tempo.

Ele dizia que gastamos mais tempo explicando o que fizemos mal-feito que  dedicando-nos ao que  precisamos fazer. Dizia, também, “Você pode adiar o tempo, mas o tempo não posterga”. A biografia de Franklin reflete o sopro que o animava nas conquistas que empreendeu.

Sair da rotina é ótimo. Uma rotina rígida e neurótica pode trazer tédio. Infelicidade. Entretanto, um cotidiano organizado ajuda a ganhar tempo para coisas que apreciamos. Proporcionar momentos doces e inspiradoras surpresas. Para isso, despertar olhando o mundo de forma  realística e confiante no futuro é antídoto poderoso para os sentimento de derrota que pode nos levar a  girar a roda da vida de forma mecânica e sem sentido.

Ao despertar, pense como um grande poeta que vai escrever os versos da própria história. Lembre-se que por mais insignificante que você julgue seu mundo,  ainda  existem o sol, o céu, as pessoas e  você. Não esqueça, sobretudo, que sempre há uma escolha. Podemos nos perceber como vítimas ou autores do destino.

O triunfo começa nos pequenos detalhes. Tudo começa do começo. Na hora que acordamos e  colocamos os pés no chão. Cada ritual poderá contribuir para que a vida seja  uma coleção de momentos especiais que traduzem sua marca no mundo.Para encerrar fiquemos com as palavras inspiradoras de Elsie Lessa. Ela nos convida com prosa sensível:  “Acorda de manhã e coloca dois pés entusiasmados no chão… abre as janelas para que o sol entre, com o gesto de quem abre o coração.”

Sem o cuidado com o presente, resta-nos a melancolia do passado e a desesperança quanto ao futuro...

Dedico este ensaio a Débora Benigno Xavier. Ser cuidante que Deus pôs à minha volta.

9 comentários sobre “Cuide de quem você é, cuide …

  1. Arildo Leal de Paula disse:

    Olá, Liduina.
    Uma vez perguntaram a Buda:
    O que mais te surpreende na humanidade?
    E ele respondeu:
    ” Os Homens”, porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperarem a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver o presente e nem o futuro.
    E vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivesse vivido.
    Todos nós temos a missão cuidante, com o planeta, com a natureza, com a vida, com nós mesmos. Tenho o privilégio de ter Arildo Junior, Arthur e Celinne, meus queridos filhos e Celi, minha amada eterna, como fonte inspiradora do meu viver.
    Parabéns pelo artigo, um forte abraço do pantaneiro.
    Arildo Leal

  2. Marlene Luz disse:

    Lidu, sempre lhe admirei por essa sua característica “cuidante”. Acho muito bom ler um artigo e encontrar a alma do escritor ali preocupada com o bem-estar do leitor, principalmente o emocional. Como sempre, você não critica atitudes, porém, nos incentiva, com uma mestria ímpar, a praticarmos a acolhida carinhosa. E, nesse artigo, coloca a questão de olharmos para nós mesmos, para nosso interior, e nos afagarmos… No nosso dia-a-dia, vivenciamos momentos, às vezes até corriqueiros, mas perdemos a chance de refletir acerca da beleza e da paz que podem nos proporcionar… Tudo depende da forma de olharmos ao nosso redor…de encontrarmos motivos para um encontro com nosso “EU”. Só tenho a lhe agradecer por mais esse presente…

    AMAR-NOS É CONDIÇÃO INDISPENSÁVEL PARA SENTIRMOS AMOR PELOS NOSSOS SEMELHANTES.

  3. Jovina Gomes Benígno disse:

    Lidu, que maravilha, e, como a própria vida: que espetáculo!
    Tuas palavras são sempre tão bem ditas, tão oportunas, como elas são extensão das tuas atitudes (ou vice-versa?). O fato é que elas modificam nossos dias, nos trazem luz, nos fazem pessoas melhores e nos remetem a, tal como você, outros grandes autores.
    Lembrei de uma frase de Simone de Beauvoir: “nenhuma tristeza resiste à beleza do mundo”.
    beijo
    Obrigada, obrigada
    PS: achei muito justa a dedicatória do texto à Débora, realmente é esse sentimento que ela nos passa todos os dias : Cuidado carinhoso.
    beijo
    JOVINA

  4. Alussandra disse:

    Não sei mais nem como elogiar…Seus outros amigos já disseram tudo!! Hahaha…Para variar, texto excepcional, Liduína! Beijos.

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