O que você faz com o seu rancor? O que as mágoas fazem de você

Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.
Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.

Cuidamos da imagem social que projetamos para produzirmos sentimentos positivos no nosso círculo de convivênvia.

Por essa razão, é comum desejarmos comparecer a eventos usando trajes novos e belos. Queremos exibir vestimentas que nos identificam com signos de novidade, e aceitação social. Com o lar não é diferente. É natural desejarmos receber amigos numa casa com um bonito e renovado visual.

Mas, e quanto aos  sentimentos? Cuidamos da forma como vestimos nossos afetos? Tiramos o pó acumulado sobre nossos julgamentos? Iluminamos o recôndito da própria alma com a luminária da compreensão? Enfeitamos as relações com a beleza da empatia?

Atualizar  sentimentos sobre pessoas e fatos amplia o nível de compreensão sobre nós mesmos e, também, da realidade. No tempo da Páscoa, calendário  da passagem à vida transformada, renovar visões e atualizar sentimentos é propício às mudanças.

Se é assim, por que desconsideramos a necessidade de atualizarmos sentimentos? Por que ignoramos que os julgamentos condicionam nossos pensamentos e ações? Por que é tão difícil fazer uma apreciação renovada dos afetos que caracterizam os vínculos (de atração e aversão) que mantemos?

Deve parecer estranha a referência a vínculos, quando tratamos de sentimentos de aversão e rancor. Mas, o fato é que estamos ligados psicologicamente às pessoas de quem gostamos, mas também estamos presos aos que nos causam aversão e, assim, acabamos dirigindo muita energia emocional a essas pessoas. E o paradoxo é que acabamos investindo mais energia para expressar sentimentos de aversão do que para demonstrar afetos positivos.

A mágoa, o rancor, o isolamento amargo são ervas daninhas da vida emocional.  Emoções que deflagram atitudes hostis e produzem relações empobrecidas e danosas à felicidade. Há quem projete esses sentimentos contra si somatizando hostilidades arraigadas. Não é por acaso, que inúmeras queixas de afecções de pele (pruridos, irritações, psoríases) e uma dezena de outros sintomas podem ser escapes das raivas represadas.

No texto, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Freud diz que  “alguns afetos evocam reações tão inapropriadas que  se chocam com o movimento natural do desenvolvimento humano”, Talvez possamos dizer que o ressentimento persistente  próprio do rancor tem tal efeito sobre nós.

O rancor rebaixa a capacidade de nos relacionarmos de forma franca e espontânea. Sentimentos rancorosos se originam de mágoas mal resolvidas. O filósofo clínico Lou Marinoff  tem uma visão bastante afirmativa de como abordar os sentimentos produzidos por agressões recebidas.

Marinoff afirma diz que uma ofensa  se transforma em dano  à saúde emocional quando  nós permitirmos, na sua visão, os outros podem nos ofender, mas nós é que decidimos o que fazer com a agressão recebida. Para ele, a ofensa vem do outro, mas  é a força que atribuímos a  ela como sendo capaz de nos atingir que a transformará em dano para nós.

A dificuldade para lidar com o rancor é que na base do comportamento persistentemente ressentido, geralmente, se encontra uma pessoa com autoaceitação rebaixada e  sentimentos hostis em relação a si próprio ou ao ambiente. Fenômeno que pode levar  à situação paradoxal em que, ao tempo em que apresenta baixa tolerância ao julgamento social, o ressentido tende  ao hábito de  julgar o outro e reagir à sua presença de forma negatival.

O rancor é como uma agressão contínua a si próprio e, muitas vezes, silenciosa. Mesmo quando o agente que o deflagrou não está presente, o rancoroso continua seu investimento em raiva e ódio a ele direcionado. O rancor, também, é quase sempre uma agressão frustrada porque mesmo com a intensidade da raiva, o alvo da hostilidade pode permanecer imune e até desconhecer que é objeto de tal sentimento.

O psicólogo social Leonard Berkowitz diz que as agressões mal-sucedidas intensificam a raiva, por isso pode-se afirmar que o rancor é um comportamento que se alimenta continuamente da própria frustração. E cresce.

E como escapar desse círculo vicioso que pode nos condenar a relacionamentos atravessados e sofridos? Os psicólogos apontam a compreensão dos próprios sentimentos como o primeiro passo. Recomendam, também, o reexame dos critérios de nossos julgamentos ao firmar antipatias e simpatias nas relações.

É preciso atentar  o peso das nossas próprias atitudes no clima relacional que estabelecemos e a qualidade do circuito energético que move nossas relações.

Sobre o rancor, a compreensão filosófica de Aristóteles ensina-nos a romper a corrente de sentimentos maléficos, a agir como seres magnânimos, ou seja, almejando grandes sentimentos e sendo dignos deles. Para o sábio grego,  a grandeza está relacionada,  ao esforço para enxergar o outro como “um outro eu”. Para ele, a superação da inimizadeestá ligada à piedade e à solicitude.

Para Descartes, a superação do rancor só vem pela generosidade que nos leva a avaliar  a ação alheia  conforme os valores que julgamos caros a nós mesmos. Para ele, somente a generosidade leva à grandeza nos relacionamentos.

Esses pensadores deixaram  pegadas de inteligência emocional e podem ajudar a caminhada humana pela terra. Eles acenderam lanternas na direção de alargarmos as fronteiras da compreensão do que somos e do papel de nossos semelhantes no mundo que criamos para nós e para os outros.

Reconstruir o sentido de comunidade humana ...
Reconstruir o sentido de comunidade humana …

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10 Comments

  1. Eu sei que vai soar repetitivo, mas o que posso fazer se seus textos tem sempre um quê de maravilhosos! Rsrsrs…Adorei o texto, Liduína, e, não por acaso, me chegou em boa hora. Forte abraço!

  2. No linguajar cuiabano eu diria que o texto está “digoreste”. A todo momento precisamos de renovar nossas atitudes numa escala contínua de aprendizagem, com certeza seu artigo já faz parte desse aprendizado. Um forte abraço!

  3. Lidu,

    Seus textos são um alimento para a alma, obrigada pela simplicidade e profundidade ao mesmo tempo.
    Uma Feliz Páscoa a você e sua família.

  4. É sempre bom refletir, “ressignificar” é tão importante, e por nossa pequenês de pensamentos e atidudes, nos deixa o vácuo, ou fazemos questão do perdido está, deixa ficar.
    Realmente é muito bom, lermos e, fazer reflexão de nós, da vida, do que realmente importa e queremos.
    Tudo tão fácil!? e fazemos tão difícil.
    Bons Momentos de renovação, de vida,
    Gde Abraço
    Saudades,

  5. Lidu, seu texto me fez lembrar do filme “O segredo dos seus olhos”, que mostra claramente que quanto mais perfeita a vingança, maior o aprisionamento do vingador. Perdoar é libertar-se.
    Grata pela reflexão tão pertinente à Páscoa: renovação, renascimento.

    Um abraço, com carinho, Cecília

  6. Hei Lidú,

    Mais uma vez você nos leva a refletir sobre a resignificação.

    Que seja, então, um tempo de bom recomeço para todos nós!

  7. E nos reencontramos aqui, colega de BB, amiga para a vida toda. Obrigada por me fazer refletir sobre sentimentos, motivacoes, julgamentos,…
    Indiquei seu blog para Samya e Siena (amiga e sobrinha psicologas) e joseton (filho pedagogo e aluno de psicologia).
    Abracos.

  8. Lidu
    O interessante no seu texto é que parece que estamos conversando com Você. A metáfora dos sentimentos com o mobiliário da casa é fantastica. Um belo exemplo para refletirmos. Adorei o texto e o momento. Lembrar que a Pascoa é renovação e que a principal renovação é sempre aquela que renova nossos sentimentos e´belo e definitivo.

    Um grande abraço

    Rodrigo seu aluno do FPEC de fevereiro/11 na Gepes Rio .Aquele que é testemunha ocular da história. Estou precisando do seu livro sobre a historia da educação no BB. Como faço para adquiri-lo ?

  9. Oi Lidu!
    Sinceramente, não sei nem o que dizer… sei apenas que você se supera cada vez mais. O tempo e sua dedicação fazem de seus textos preciosidades, perfeições…. e nós que ganhamos sempre esse presente. Compartilhá-los é sempre muito bom!
    Obrigadaaa! Bjão

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