Nós e o Tempo: semeaduras e colheitas

O tempo escorre...

A proximidade da virada do ano força-nos a pensar acerca de como nos relacionamos com o tempo.  Sobre como a cavalgada do relógio interfere no que fazemos de nossas vidas. E isso talvez ocorra por que há um mistério sempre renovado a cada amanhecer que se esconde na seguinte pergunta:  como  o tempo influencia no que somos e no que nos tornamos?

Sêneca, filósofo estóico,  aconselhava a um amigo a tornar-se proprietário de suas horas para ser menos refém do medo do futuro. Dizia o velho sábio, “torne-se dono do próprio presente.”.

E parece mesmo impossível separar o girar do calendário de perguntas substanciais para a nossa existência: como aproveitar o rendimento de nossas ações? Como agirmos  considerando cada minuto recebido como tempo de fruição e não como simples condenação ao tédio e à repetição?

Se enxergarmos a resultante da passagem do tempo como simples acumulação de bens ou idade será difícil visualizar a perspectiva de que cada minuto é um presente e que a forma como o vivenciarmos e percebermos essa vivência é que fará o pêndulo da existência mover-se para a nossa autorrealização e evolução humanas ou para a sensação de que perdemos juventude, acumulamos coisas e nos aproximamos da morte.

É necessário acompanhar o caminhar incessante dos minutos, sabendo que o cronômetro e a agenda nos dão a exata noção de nossa provisoriedade, mas sem descuidar de  visualizarmos que o tempo é também oportunidade. É  janela de possibilidades aberta para a existência.

Para isso é preciso ir além das convenções de marcação temporal e conscientizar-se que o tempo é redondo. É igual para todos, mas a vivência do tempo é única para cada pessoa. O tempo psicológico é a percepção interna de como se passam segundos, horas e minutos. E é a qualidade dessa sensação, desse sentimento de como experimentamos a passagem de tempo que será capaz de contribuir para transformar nossa vida e a visão que dela formamos.

Tornar-se dono do próprio presente. Não postergar ações inevitáveis. Estabelecer prioridades para não se embaraçar, confundindo o que é essencial, fundamental com o que é periférico ou acessório. Organizar o dia sem cair na aflição de quem age como se fosse teleguiado pelo relógio. Camões já nos ensinava em seus versos o valor de se aproveitar o tempo, quando escrevia: …”Porque sempre por via irá direita quem do oportuno tempo se aproveita.”.

Ter momentos para si,  de compromisso com o próprio bem-estar. Reservar tempo para as pessoas significativas: família e amigos. Permitir-se o ócio. Agendar ou reconhecer instantes em que é necessário parar e refletir.  Reexaminar a mochila que traz guardadas experiências e sentimentos  e esvaziá-la de algo para suavizar a viagem, se for o caso.  Por as idéias em ordem, livrar-se do discurso negativista e reconstruir uma narrativa interior capaz de levar-nos a experienciar o tempo como dádiva e não como condenação.

A forma como lidamos com o tempo é forte fator motivacional. Olhar o dia e ver que ocupamos seus espaços valorizando-os, dando-lhes bom usufruto impulsiona nossa ação para metas mais definidas. E o poeta de Os Lusíadas ilustra isso muito bem com a sua lírica sabedoria quando ensina que lutar a boa luta: “o peito acende e a cor do gesto muda”.

Então, que no ano que acaba, olhemos para ele e tenhamos um diálogo franco sobre o que fizemos com as 8.760 horas que  recebemos no momento em que fazíamos pedidos de ano novo. Talvez na agenda que se inaugura possamos ultrapassar a visão de que estivemos presos no calendário anual e ali ficamos imobilizados nas sendas do tempo, vitimados por fatores de sorte ou aleatoriedade esperando mais um ano; incapazes de implementar transformações no tempo propício da existência. E o tempo fértil é o agora, amparado na memória e esperançoso do futuro. Tempo de semeadura e colheita.

O futuro é o presente que o tempo dá aos que tecem o cotidiano não como criaturas eternas, mas como seres conscientes de que a quantidade de tempo não se renova, mas que é possível ampliar as perscpectivas de seu usufruto.

A cavalgada do tempo para onde nos leva?

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22 comentários sobre “Nós e o Tempo: semeaduras e colheitas

  1. Jovina Gomes Benígno disse:

    Lidu, que texto espetacular! Como, sem se repetir , você realça a mensagem do texto anterior:”Promessas para antes que o ano acabe”; são muito claras a coerência e a força do que você escreve; Como você torna fértil e rica a reflexão sobre o tempo que na verdade é o ” ser ou não ser”.
    Hoje mesmo tive um dia que em tudo teve a ver com seu texto: reflexivo, de me curtir, me analisar>
    Sábio e revelador teu pensamento: ” E o tempo fértil é o agora, amparado na memória e esperançoso do futuro. Tempo de semeadura e colheita.”
    Parabens!! é um texto para lermos todos os dias , como uma oração.
    Beijo grande e obrigada por nos dar tanta consciência.
    JOVINA
    ;

  2. Alussandra disse:

    Para variar, um texto muito bacana, hein, Liduína! Rsrs…Desejo, assim como você, que saibamos aproveitar sabiamente esse presente que é o tempo para realizarmos projetos de felicidade das mais variadas espécies. Um forte abraço e feliz 2011 para você e sua família.

    • Mônica Almeida disse:

      Adorei o texto Lidu. Sempre que paro pra pensar no transcorrer dessa vida terrena, tenho uma sensação estranha de que não estamos sabendo viver o agora. Nos tornamos reféns do tempo e não atentamos para a necessidade de regar diariamente nossa vida espiritual que, no final das contas, é a que realmente importa. Que 2011 venha mais cheio de Deus em nossas ações.

  3. Cacilda Calado disse:

    Você sempre nos brindando com suas reflexões – oportunas e sensatas.
    Parabéns pelo que você faz, diz e nos faz pensar.

  4. Erika Foresti disse:

    Sat Nam, querida Lidú, (cabra macho da peste),

    Você continua afiada e inspirada!

    Que o tempo nos seja propício, ” tempo, tempo, tempo, tempo, faço um acordo contigo”…

    Que 2011 seja para todos nós!

    bjs e saudade,

    erika foresti

  5. Roberto disse:

    Liduína,
    Obrigado por compartilhar conosco esse texto! Simplesmente maravilhoso!

    Que 2011 seja repleto de coisas boas!

    Roberto

  6. Daniege Freire Maia disse:

    É muito bom poder fazer um balanço do ano que está prestes a acabar, e sentir que não há o que lamentar. Outrora muito semeei, mas quis colher na hora errada, e vi tanta coisa se perder. Hoje sou outra, eu sou senhora do meu tempo. Foi um prazer conhecê-la. Que o seu fim de ano seja colorido. Feliz 2011!

  7. Reinaldo Palmeira disse:

    Que bom poder trocar palavras com quem a gente gosta. Um 2011 maravilhoso para NÓS!!! rsrs
    E que não demore para podermos trocar, na realidade e em BSB, um forte abraço.

    Rei.

  8. Ana Cecília disse:

    Querida Lidu,

    Parabéns pelo texto. Vejo-o como complementação daquele em que você fala sobre traçar metas factíveis para o ano novo.
    Gostei especialmente do seguinte: “É necessário acompanhar o caminhar incessante dos minutos, sabendo que o cronômetro e a agenda nos dão a exata noção de nossa provisoriedade, mas sem descuidar de visualizarmos que o tempo é também oportunidade. É janela de possibilidades aberta para a existência.”
    Aproveito o espaço para desejar-lhe uma ano novo frutífero e inspirado.

    Com carinho, Ana Cecília

  9. Bianca disse:

    Lidú, adorei o texto! Acho que devemos realmente parar e pensar se somos atores ou espectadores da nossa própria vida, do nosso próprio tempo. É a partir disso que podemos fazer algo.

    Grande beijo! Te desejo um ano maravilhoso!

    Bianca

  10. Maizé disse:

    Acabei de chegar de viagem. Estava celebrando com meus irmãos queridos a promessa de um novo ano. Ao colocar a correspondência em dia, deparei-me com seu texto. A gente sempre acha que um ano acabou e que um outro está começando. A marcação rigorosa do tempo pode levar-nos a perder a noção de processualidade da vida, de que este ano que começa é parte de tudo o que já vivemos. Seu texto nos ajuda a recuperar isso. Obrigada Lidú! Uma boa continuidade de vida para todos nós! Beijos carinhosos.

  11. Kátia Maria disse:

    Lidu,
    As reflexoes sobre o tempo nos dão a dimensão das infinitas possibilidades de construção que nos são presenteadas a cada instante de nossa vida.
    Amei seu texto. Parabéns e um 2011 + que 10! Bj

  12. Renato Barbosa disse:

    Liduina,
    Belo ensaio humano-temporal.
    Pena que, muitas e muitas vezes, os seres humanos estão tornando-se menos humanos e mais temporais à medida que a escala do tempo avança.
    Mas, ainda que pelo nosso bem pessoal, não podemos perder a esperança de ver a humanidade mudar.
    Vivas à vida!!!

  13. Pedro disse:

    Excelente texto, nos proporciona uma leitura leve e reflexiva sobre nossa relação com o espaço temporal. Parabéns!

  14. Paula disse:

    tudo muito bom aqui, muito mesmo, estou querendo mudar de atitudes, ler mais, ser uma jovem com mais compromisso, e esse blog ta me ajudando, obrigada por esses textos.

  15. Sueli Barreto disse:

    Adorei o texto e nos faz refletir sobre nossas escolhas e sobre o valor que damos as nossas vidas. Me lembrei da antiga frase: “A cada segundo que passa é um milagre que jamais se repete.”

    Feliz Renascimento!!!!

  16. Lucinei Cavalcanti disse:

    O tempo é a medida exata daquilo que fazemos com a nossa evolução. O tempo evolui e nós evoluímos com o tempo na proporção de nossos aprendizados!

  17. Ronaldo disse:

    Querida Liduína,
    Parabéns pelo texto, adorei !
    Tenho certeza que eu e minha equipe vamos aproveitar bem esses ensinamentos.
    Forte abraço.
    Ronaldo.

  18. sandra disse:

    Li o texto brilhante agora pouco a espera de um voo que ja costumo ser um momento que paramos e pensamos no tempo e com seu texto entao refleti bastante. Abracos

  19. dirleg paigel disse:

    Lidu,

    amei o texto ! me trouxe a reflexao sobre o aqui e agora que devemos aproveitar semeando a boa semente para termos colheitas com frutos de qualidade.

    grande abraco e que o 2011 seja muito abencoado !!

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