A dor da perda e a perda da dor…

Preso na morada da dor?

Uma leitora pediu-me que escrevesse sobre o luto. Sofrendo por perda devastadora, ela queria compreender os sentimentos envoltos no sofrimento de pesar.

O pedido mobilizou em mim caros sentimentos. Mas, o que escrever sobre tudo o que está envolto no luto?

Resolvi partir de duas convicções pessoais. A primeira, a de que, sendo a vida tecida na alternância de ganhos e perdas, é impossível viver sem contabilizar experiências de pesar e a segunda, de que as perdas não são, necessariamente, incompatíveis com o crescimento humano.

Ganhos e perdas são faces da moeda da existência, exigindo transformações, acomodações enfim, aprendizagens. Pisar o terreno das perdas sem enxergar somente a dor como legado é o desafio para criar saídas diante do luto que nos depara com o vazio.

Há diferentes tipos de perdas. A vivência da perda é atributo pessoal, existindo uma reação  distinta para cada frustração, prejuízo, desilusão ou luto que possa nos  atingir. 

Cada  perda é vivida sob o foco da percepção de quem a sofre. Assim, perder o emprego do qual se depende para sobreviver é um golpe que trará transtornos, mas o modo como isso será vivenciado será tão distinto quanto impressões digitais de pessoas diferentes.

Contudo, a despeito do caráter trágico de algumas perdas, nada se compara à dor imobilizante presente na perda de entes queridos. Dores provocadas por sentimentos de desamparo, tristeza profunda, perplexidade aflitiva, angústia, revolta, culpa e remorso.

Soma-se a essa inumerável lista de emoções carregadas de agonia, raiva de si próprio combinadas à hostilidade em relação ao mundo e à descrença quanto ao sentido da vida.

O desamparo parece estar na base das reações presentes no  luto. É a sensação de ter sido arrancado de tudo o que nos mantinha seguro daí, advém o desespero.

Na Filosofia, há várias visões do que seja a experiência do desespero. Kierkegaard, por exemplo, considera que o desespero é o aniquilamento do desejo. E desesperar-se é, de fato, anular-se como ser desejante, é descrer na possibilidade de voltar a desejar algo.

E realmente, quando perdemos um ente querido, a ligação  profunda que tínhamos com ele grita tão alto que sufoca a capacidade de desejar, de serfeliz, para além das circunstâncias. Nesses momentos, não conseguimos desejar nada além da restauração da presença de quem partiu.

Cada um tem a própria forma de viver o luto, contudo, há um itinerário comum percorrido pela dor nos seres humanos. Primeiro, há o desespero fundamental, depois, vem a paralisia emocional – fruto da diminuição da vontade de viver (naquele momento, morremos um pouco com o que morre)  – e a seguir, chega vem a retomada da vida por diferentes caminhos. Mais, ou menos, saudáveis.

A saída começa com uma crença: crer que se o amor é o que nos faz temer a morte, é ele, também, que nos religa de volta à vida. Desse modo, por mais profundo que seja o sofrimento do enlutado, o amor alimenta o desejo de buscar sentidos, para além da  existência de quem se foi.

Uma âncora que nos segura na travessia do luto é a certeza de que os entes queridos que não partiram continuam precisando de nós e que a capacidade de partilhar afetos não morre com aquele que perdemos, por mais essencial que ele tenha sido.

E, talvez, seja a  consciência  absoluta da carência dos que permanecem que vai suavizando a dor e substituindo o desamparo pela partilha de afetos com quem ficou. A dor, então, vira fertilizante para transmutar dor em desejo de lutar para a vida nova.

Essa transição cheia de afetos dos que se mantém unidos, confortando-se mutuamente permite ressignificar a dor da perda. É por essa razão que são essenciais as trocas afetivas nas famílias e grupos de enlutados.

Esses intercâmbios favorecem a incorporação da memória de quem se foi e nos permitem descobrir que a presença dos que amamos independe da existência física.

O luto é uma travessia inevitável. Não podemos castrar suas expressões. Elas ajudarão a recuperar o estado emocional mais próximo de como nos sentíamos antes da perda.

O lamento do enlutado, seja expresso por meio de choro, preces, queixumes, ou qualquer outra  manifestação de inconformismo traz alívio e ajuda a redimensionar a dor.

Freud, em ‘Totem e Tabu’ reafirma o papel curativo do luto.

Ele nos diz : “o luto tem uma função psíquica de desligar dos mortos as lembranças e esperanças dos sobreviventes.”. Para o Pai da Psicanálise, quando há a elaboração satisfatória do luto, os mortos se transformam em doces lembranças, em ancestrais ou entes reverenciados para os quais dedicamos não apenas carinho, mas aos quais nos voltamos, inclusive, por meio de pedidos de ajuda, direção e alento em horas difíceis.

Para Freud, a adequada elaboração do luto afasta-nos do remorso e da autocensura que costumamos nutrir por continuarmos vivos, após a partida de quem éramos parte.

De qualquer forma, viver a ausência do ente querido em perspectiva alentadora cria atmosfera de conforto. A expressão conforto significa “com-força” e é propícia à compreensão das atitudes a cultivar na dor. Kierkegaard ainda dizia que ao desespero só é frutífero confrontar o amor e a fé. E de fato, quando visualizamos os mortos de uma perspectiva distanciada da morte como signo de ausência absoluta, tendemos a sair mais inteiros da paralisia emocional que se instala nas horas obscuras.

Há distintas formas de viver o luto. Há quem sublime a dor e a transfira para longe do sentido de sofrimento, vivenciando-a como experiência elevada de dedicação a causas humanitárias. Há os que  se voltam à espiritualidade. São formas que o espírito humano encontra para enfrentar a dor. E todas terão repercussão no que seremos dali por diante.

C. S. Lewis, autor das  Crônicas de Nárnia, diz que a saudade é uma incandescência quase invisível. O escritor achou uma linda forma para tratar da saudade eterna. Ele sabia de que sentimento falava, pois viveu o luto de forma intensa, ao perder  a esposa. Ele registrou esses sentimentos no livro: A  anatomia de uma dor – Um luto em observação. O livro foi o jeito encontrado para expressar  seu lamento pela perda da alma gêmea.

No filme Nada é para sempre (A River Runs Trough it), de 1992, um pai perde um dos filhos (talvez o mais querido) e diz em momento de consolo: ‘Em algumas rochas há gotas de chuva eternas’. A frase traduz a  compreensão de que, para além da tristeza, a presença do filho estará sempre ali.

Sartre, o pensador existencialista, dizia que somos condenados à liberdade, no sentido de que sempre há escolhas possíveis diante de caminhos, mesmo impossíveis. Pode ser inspirador para não esquecermos que mesmo sendo condenados às perdas (sejam as trazidas pelo tempo, distâncias ou incompreensões) é possível criar saídas.

O aspecto inapelável do risco de perdas nos impulsiona a lidar com elas de forma construtiva.

Para tal, precisamos manter um olhar compreensivo sobre nós mesmos, para não nos culparmos ou mortificarmos e conseguirmos acender o farol do amor que ilumina o desejo de realizar a travessia sem danos adicionais às cicatrizes que são eternas, mas não precisam doer sempre.

A travessia

 

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28 Comments

  1. Adorei o texto Lidú. É muito importante saber os caminhos para compreensão do que seja a dor da perda. Nela, pode-se tirar uma lição de vida para o resto da vida. Assim, não devemos deixar que a tristeza nos abale constantemente, pois há uma vela acesa dentro de nós, nos dando uma vida cheia de felicidades.

    Bjo. Espero que a pessoa que te pediu este texto tenha gostado. Eu, neste texto, guardarei a seguinte frase: “Em algumas rochas há gotas de chuva eternas”.

  2. Lidú,

    Ontem fui assistir, com meu filho e esposa e mais um casal amigo, ao filme Karatê Kid 2. E no filme tem uma passagem linnnnda, que representa bem a questão da perda de entes queridos (o mestre do menino perdeu a esposa e o filho num acidente de carro)e o sentimento de culpa e a dor da perda que nunca o abandona. A criança, personagem principal do filme, consegue tirá-lo dessa situação, apenas chamando-o para treinar. Com um gesto simples, sem palavras, ele expressa: eu estou aqui, venha me ensinar, preciso de voce, voce é importante pra mim, a vida continua, estou com voce, estamos juntos.

    Como voce disse “A necessidade de partilhar amor não morre…

    Bjs

  3. Lidu,
    O texto me fez refletir budistamente no fato de o mesmo desejo que nos impulsiona pela vida nos traz tanto sofrer quando o desapego nos eh imposto aas vezes tao bruscamente… Obrigado sempre por compartilhar suas sabias palavras!

  4. Um consolo, um alento, quase como um abraço, esse seu texto. Suas idéias, que você sabiamente nos presenteia com palavras, são um carinho para nossa alma. Obrigada Lidu, pelos mimos.
    Linda, vc.
    Beijo bem grande.

  5. Sim, também muito significativa a imagem da vela. Lembro de minha avo, que nos momentos dificeis, acendia sempre uma vela, em prece. Para “as almas”, ela dizia.

  6. Parabéns, Lidu, por mais esta lição de vida que vc nos brinda. Obrigado pelas palavras que nos induzem a reflexões tão necessárias para a construção da vida.

  7. Lidú, maravilhosa a forma como você abordou o tema. Parabéns!

    Considero a saudade um dos elementos mais fortes que mexe com aqueles que sofreram perdas significativas. Fiquei encantado com as palavras de C. S. Lewis. Um poeta nosso, porém, é contundente quando toca no assunto. Chico Buarque expressa com vigor o significado das perdas em seu belo poema musicado “Pedaço de mim”:

    Oh, pedaço de mim
    Oh, metade afastada de mim
    Leva o teu olhar
    Que a saudade é o pior tormento
    É pior do que o esquecimento
    É pior do que se entrevar

    Seria a saudade uma reelaboração constante do sentido que uma perda tem para nossas vidas? Ou seria a saudade um tormento, o pior dos sentimentos? Algo do qual precisamos nos libertar? O que você acha?

    Só mais um pouquinho de Chico Buarque:

    Oh, pedaço de mim
    Oh, metade adorada de mim
    Lava os olhos meus
    Que a saudade é o pior castigo
    E eu não quero levar comigo
    A mortalha do amor
    Adeus

  8. Lidú,
    Cumprimento você pela sensibilidade e pela serenidade com que o texto trata desse momento tão delicado e íntimo que é a perda de um ente querido. Uma reflexão que ficou bem latente para mim foi a que trata do momento da travessia. “Quando você foi embora fez-se noite em meu viver/Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar/(…)/ Estou só e não resisto, muito tenho prá falar”. Esse momento de se permitir viver a dor buscando superá-la é tão emblemático quanto difícil, mas também é indispensável para o inexorável continuar das nossas vidas. Parece muito óbvio, porém não é fácil e muito menos simples. E fico aqui comigo pensando, no “amar o tempo” que Tagore nos aconselha e na nossa capacidade infindável de sobreviver a (quase) tudo…

  9. Oi Lidu,
    Obrigada pelo texto. Sempre é oportuno fazer uma reflexão sobre perdas, especialmente daqueles que amamos. Pra mim o que fica de mais sofrido é a ausência.
    beijo,

  10. Lidú,

    seu texto veio exatamente quando ia pegar o telefone e ligar para um amigo que perdeu seu filho único… que sincronicidade!

    beijo
    Irani

  11. Oi Lidu,

    Inclui no meu diaprévio a consulta ao blog e valeu. Está muito bom. Para mim o techo que me mrcou mais foi “O amor nos faz temer a morte; mas, também, religa-nos de volta à vida.” e também o fato de sermos livres para encontramos formas de superar a dor. Penso que o teu blog pode contribuir muito com tantos em várias situações. Vou propor incluir no wiki Caminhos para Aposentadoria.
    bjs,
    Newmann

  12. Querida Lidu,
    Parece que estou ouvindo você contar essa “história”, nos embalando com seu carinho e compreensão genuínos…
    Obrigada! Saudades!
    Eliana

  13. Oi Lidu,
    muito sábio, muito rico esse texto.
    Acredito que a idéia de passar “o que seria dor”, de deixar claro e simples de como conviver com ela, encontra-se aqui! Muito bom…
    Penso como uma parte desse texto:
    “…Mas, talvez, seja possível afirmar que nós, seres humanos, somos condenados também às perdas; sejam as trazidas pelo tempo, pelas partidas ou até pelas incomprensões que nos distanciam uns dos outros (mesmo em vida).”
    A perda sempre existirá, cabe a nós enxergá-la de uma forma que nos faça aprender,crescer.”

  14. D. Liduína, desta vez, o seu ensaio sobre perdas me tocou ainda mais que todos os outros, sempre tão inspirados…

    E me fez lembrar este trecho:
    “já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquEle que me fortalece.”
    (Paulo, Filipenses 4: 11-13)

    E seu pensamentos transpostos em ensaio que, com tanto carinho entregues a nós, ajudam a preencher a perda, seja de qual tipo ela for.

    Obrigada e beijo carinhoso.

  15. Lidú,

    Parabéns pelas palavras que você tão sabiamente sabe usá-las.
    Refletir sobre a perda e a dor, para nós humanos, é muito difícil, principalmente quando se refere a entes queridos.
    Um grande abraço,
    Ednair

  16. Lidu,
    Refletindo aqui sobre a dor da perda, vejo como remédio a confiança e a fé. Se o homem perder a esperança e a fé como conseguirá encarar um novo dia? Fé numa sabedoria suprema e absoluta que rege harmoniosamente todo o universo assim como todos os seres que lá habitam. Como nega-la? De fato, o que nos sustenta é o amor, seja da forma como o consigamos o sentir: fraternal, maternal, solidário, divino.
    Um grande abraço
    Lula.

  17. Lidú,

    A sua forma de abordar um tema tão delicado é deveras corajosa. Poucos o fariam tão bem!

    Luciano

  18. Lidu, li e reli este texto e cada leitura me enchia de serenidade e delicadeza; tuas perguntas iniciais sobre se é possível construir uma história de vida sem contabilizar perdas e sobre se há incompatibilidade entre perda e crescimento humano são tão bem respondidas por você à medida que o texto vai nos envolvendo! Ao mesmo tempo que tem um valor literário extraordinário , teu texto tem um excepcional valor humano; Achei grandioso :”viver a presença na perpectiva da doce lembrança”.
    Você, com suas palavras, é doce. E e como é substanciosa! Um beijo , Obrigada
    JOVINA

  19. Lidu,

    Adorei o texto, as contribuições, tudo muito farto. Que banquete! Fiquei pensando nas falas e lembrei de um princípio do Yoga que diz: renda-se à vida! A primeira vista pode parecer entreguista e banal mas com um olhar mais atento esconde muita verdade, daquelas simples que tomam tempo para maturar e experimentar, ou melhor ir experimentando (bem no gerúndio mesmo).
    Legal a relação de perda com o amor, aí lanço mais uma inquietação: para perder é preciso possuir… Afinal de contas o que possuímos? Não é tudo uma grande ilusão uma quimera? Aquilo que “fica” jamais se perde até porque não é nosso mesmo, apenas comungamos. Rendamo -nos todos a Vida!
    Namastê!

  20. Lidu, só agora consegui um tempinho para ler seu texto. Lembrei de quando perdi meu irmão tão jovem! Não elaborei direito o luto e sofri muito por muito mais tempo. Agora, passados 17 anos, é uma doce lembrança. Grata pela oportunidade de reflexão.
    Ana Cecília

  21. No decorrer dessa vida, perdemos muita coisa, deixamos muitas pessoas pelo meio do cxaminho e isso me incomoda.
    Poxa! Porque não podemos ficar sempre perto de todos aqueles que escolhemos como nossos. Me lembro de uma linda e nostálgica canção de Osvaldo Montenegro:
    ” Faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via a dez anos atrás?…” Beijão!

  22. Olá, Lidu
    Gostei muito do texto pois, reflete um momento muito dificil do qual estou passando. Meu pai faleceu e não consigo superar a perda, já nem sei quem sou realmente, a dor e o desespero fazem parte da minha alma gostaria de conseguir superar mas não tenho força.Talvez algum dia encontre um caminho a seguir e superar as respostas terei que descobrir.
    Obrigada pelas belas palavras

  23. Lidu,

    “La felicidad se encontra em el caminar de la vida e la glorificacion la encontraremos donde mora nuestros antepassados.”

    Abraços

    Fernando Oscar Robledo e Denice

  24. há exatamente duas semanas perdi minha mãe…e só quem vivencia, ou vivenciou um fato parecido sabe a dor que é, dor maior essa para min ao ver meu pai desolado chorando, um homem que sempre me pareceu forte, confiante, como uma criança em prantos.

    esse texto acima irá com certeza me ajudar bastante, pois agora temos que nos apegar a nossa família e a nossa fé mais do que nunca…

    eu particularmente estou usando agora da internet para amenizar um pouco a dor da perda lendo mensagens como essas na internet.

  25. Lidú,
    Minha vô também se chamava “Raimunda Mesquita de Souza”, e a perdemos tem 2 anos…um anjo, pela qual sentimos muita falta.
    Gosto de reler os seus ensaios, cada vez que leio, cresco! Parabéns pela sensibilidade!
    Abraço

  26. Lidú, parabéns!
    Já li este ensaio tantas vezes e a cada leitura me emociono com a beleza e profundidade de tuas palavras.
    Que de fato tocam fundo na nossa alma.
    um grande abraço!

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