O que você precisa saber?

Gestão pessoal do conhecimento ...

(Este ensaio foi publicado em janeiro de 2009 e agora, é reeditado. Sucesso entre os leitores, essa reflexão sobre a navegação no universo do conhecimento objetiva ajudar na tarefa de gestão pessoal do conhecimento, cada vez mais árdua)

 
 

É inegável. Depois que Gutenberg inventou a primeira impressora, no século XV, a história da humanidade não foi mais a mesma.

Dos primeiros duzentos exemplares da Bíblia, de pouco mais de quarenta páginas, dadas por Gutenberg para saldar a dívida que contraíra para tornar realidade  sua invenção, estamos, hoje,  mergulhados em um oceano de palavras, informações e dados registrados em textos impressos e virtuais.

Se há cinco séculos, o homem sonhava acumular conhecimentos, já podemos dizer que realizamos grande parte desse sonho, que é inatingível na sua totalidade e essência.  E o que fizemos com nosso sonho? Como tem sido nossa relação com o conhecimento acumulado?

Pode parecer questão de importância miúda, mas não é. O  avanço das mídias impressas, das demais mídias e o advento da  Internet permite que tenhamos acesso, em um único dia, à mesma quantidade de informações que uma pessoa, na Idade Média, teria no percurso de toda a sua vida.

Quer outro exemplo da dimensão do volume de informações que gira no mundo? Para manter-se atualizado, em sua área de atuação, anualmente, um profissional precisará entrar em contato com o dobro da quantidade de informações que acessou no ano anterior.

A capacidade humana de produzir conhecimento é exponencial. Isso significa que cada  descoberta ou invenção multiplica, talvez de forma incalculável, as probabilidades de descobrirmos verdades escondidas no mundo das idéias – movido pelas rodas da experiência e do humano engenho.

Nosso problema é bem diferente do que passaram os egípcios e os sábios, quando em 646 d.C., a Biblioteca de Alexandria foi destruída no incêndio que consumiu o saber acumulado em quase um milhão de rolos de papiro. Mas já é um problema bem visível.

Basta observamos nossa dificuldade para identificar aonde ir e como remar no mar de informações  que se apresentam sob inúmeras formas e em incontáveis veículos ou mídias no mundo contemporâneo.

E, talvez, a grande questão da atualidade,  seja: diante desse turbilhão de informações que podemos acessar com um folhear de páginas ou um click, como temos agido, na condição de leitores e educadores?

Hoje, já se ouve falar de patologias que acometem as pessoas na nossa sociedade do conhecimento.  É mais comum do que se imagina, alguém mencionar  certa ansiedade ou angústia informativa. Esse estado seria ocasionado por um sentimento difuso, uma grande inquietação diante do emaranhado de dados e informações que giram na Web e no mundo impresso e a conseqüente  dificuldade e, muitas vezes, incapacidade de apropriação dessas informaçãoes de forma racional, objetiva e crítica.

A constatação da impossibilidade de “processar” tantos dados produz em nós um comportamento errante,  que nos leva a ter contatos instatâneos e superficiais com o que lemos ou pesquisamos, com baixo nível de  atenção e reduzida apreensão do que está escrito.

Certamente temos leitores assíduos de textos virtuais , mas existem, também, os puladores ou colecionadores de link, que no quinto click já estão perdidos, sem saber que bússola usar para se orientar.

Com os livros, a síndrome do contato ligeiro tende a se agravar. Por melhor diagramados e editados que sejam, os filhos de Gutenberg não contam com os atrativos de cor, luz,  brilho e contraste com a mesma  intensidade que as mídias informáticas proporcionam (é concorrência desigual). E aí, fica mais difícil a formação e manutenção de leitores plenos de textos impressos.

E em decorrência de tudo isso,vemos o  leitor que desistiu de ler um livro inteiro, por considerar-se incapaz de escolher um título – entre inumeráveis outros exemplares; ou de conseguir dispensar atenção a apenas um objeto pelo tempo que a leitura de um livro exige. Esse leitor limita-se a folhear volumes de forma aleatória, sem suficiente compromisso para tentar  identificar, pelo menos,  a quem se destina e qual o seu objeto de estudo ou tema.

Ora, ter um mundo de  informações ao nosso dispor é bom para o processo civilizatório. E é realidade que não podemos alterar (mesmo fazendo um extremo exercício futurístico, é difícil visualizar um mundo diferente), mas podemos mudar nossa atitude em relação a essa realidade.

Então, vamos a algumas dicas sobre condutas que podem ajudar-nos a navegar melhor  e extrair a informação que precisamos, com o mínimo de angústia, cansaço e maximização de tempo?

  • Tenha objetivos  de leitura  e pesquisa. Se você quer aprofundar conhecimentos sobre Finanças, procure manter o foco. Isso vai ajudá-lo a economizar tempo e recursos ;
  • Além das suas áreas mais imediatas de interesse, procure visualizar que outros temas correlatos serão interessantes para ampliar o que você conhece de sua área e mantenha o foco;
  • Cultive dados de cultura geral, mas não queira ser uma enciclopédia ambulante. As informações estão cada vez mais acessíveis. O desafio é lidar com elas de forma saudável e convertê-las em competência, habilidade ou solução. (Então, relaxe e cultive leituras sobre atualidade, história geral e contemporânea. Sem estresse.)
  • Quando seu objetivo de pesquisa for apenas obtenção de dados, navegue na Internet ou pesquise em livros atualizados. Não se detenha em textos muito discursivos. Prefira os informativos sobre o assunto. Isso poupará tempo, pois você não terá que lidar com informações amplas e desnecessárias;
  • Reserve tempo para leitura de qualidade (com tempo, precisão e dedicação). Os bons leitores aprendem tudo com mais facilidade e desenvolvem maior capacidade de compreensão abstrata dos problemas . Nos momentos de estudo, isso vai exigir menor esforço para analisar situações, consolidar dados e tirar conclusões pertinentes.
  • Forme uma biblioteca (não precisa ser a de Alexandria, mas compre um bom título, pelo menos, a cada seis meses). A visão do livro é inspiradora e baixa a ansiedade de conhecer, pois concretiza a convicção de que o conhecimento se transforma mas não morre.
  • Lembre-se que o conhecimento é ilimitado. É impossível saber tudo. Eleja áreas de seu nteresse e guie-se por essa informação quando entrar na livraria, na lan house ou quando acessar o seu PC.
  • Se possível, leia algum clássico, de vez em quando. A leitura dos clássicos sedimenta saberes que dispensam  esforço fragmentado de pesquisa e nos ajuda a perceber que o conhecimento produzido por intermédio do processo civilizatório é um contínuo. Apesar de apresentar rupturas,  todo conhecimento parte de saberes já produzidos.

As reflexões que nos trouxeram até aqui permitem algumas interrogações.  E, talvez, elas possam dizer um pouco do seu estilo de navegação pelos caminhos da conhecimento:

  1. Como você se comporta como leitor? (Apresenta um comportamento errático ou planeja sua ação?)
  2. Quando necessita apenas coletar dados, você estabelece uma rota de pesquisa, ou se perde no labirinto de informações?
  3. Que tipo de leitura é mais freqüente na sua vida de leitor? (Superficial? crítica? ligeira?centrada?)
  4. Que sentimentos você experimenta em relação à sua necessidade de conhecer? (Angustiado diante de tudo o que precisa saber, feliz por saber que existem tantas áreas a escolher e conhecer ou  desesperado por que quer saber tudo?)

Lembre-se:

  • O conhecimento e seu acúmulo pela humanidade é uma conquista. Precisamos nos apropriar do que necessitamos  e, cada um, individualmente, tem necessidades específicas ou próprias de informação e formação.
  • A leitura ainda é a forma mais eficaz para entrar em contato com o  conhecimentos que o processo civilizatório nos legou.

Nao esqueça da sua responsabilidade social na formação de leitores (seja na condição de pai ou educador). Então,  observe o seguinte:

  1. O hábito de leitura tende a passar de pais para filhos.
  2. No  nosso comportamento de leitor há uma mensagem implícita de como nos sentimos ao ler.
  3. Falar de forma positiva sobre nossas experiências de leitura, ressaltando  aspectos agradáveis,  é muito eficaz para atrair jovens leitores.
  4. Os adultos são utilitaristas. Eles preferem práticas que lhes tragam proveito, se possível imediato. Então, falar dos benefícios e vantagens trazidos pela leitura é muito eficaz para fazer a iniciação desse público ou ajudá-los a realizar leituras mais assíduas.
  5. Compartilhe trechos interessantes de livros ou sites, ou informações relevantes. Seja em casa, no lazer ou no trabalho. Isso tem ótima repercussão no esforço para estimular a leitura.
  6. Navegue na Net e encoraje a visita a sites de conteúdos relevantes ou agradáveis.

Para construir conhecimento, precisamos da inquietação do sábio que a domina e a utiliza a seu favor.  E esse sentimento  não se instala nos espíritos desesperados que não sabem aonde querem chegar.

Lembre-se, o título do nosso post é: “Tudo o que você precisa saber está escrito em algum lugar.” Ou será que você havia lido:  “Você precisa saber de tudo em qualquer lugar?”

Descoberta e ....Descoberta e ……

5 comentários sobre “O que você precisa saber?

  1. Silvia Rejane Vieira Rodrigues disse:

    Cara Lidú,

    Como me identifiquei nesse seu texto! Estou experimentando uma deliciosa ansiedade por conhecimento, tendo, principalmente, você como fonte de inspiração. Não tenho dúvidas de que suas dicas me giuarão nessa busca.

    Grande abraço

    Silvia

  2. Carlos Henrique disse:

    Lidu, reflexão pertinente e muito lúcida… Seu blog será com certeza um local de visita constante!
    Grande abraço e obrigado por compartilhar suas experiências conosco!

  3. Ivar disse:

    Lidu,

    Nós precisamos de dicas como essa. Muitas vezes, buscamos, buscamos coisas sem um planejamento adequado. Perdemo-nos no emaranhado de informações que parecem levar a algum lugar, mas, na verdade,obscurecem o sentido do que fazemos. Grande abraço.

  4. Luis Augusto disse:

    Foco e lucidez para trilhar o caminho da construção e re-construção do saber.
    Ótimas dicas para orientar nosso foco nessa jornada.
    Obrigadão.
    abssss
    Lula.

  5. Elda Madruga disse:

    Lidu,

    Só agora, próximo a iniciar uma nova etapa na minha vida é que conheci sue blog e seus escritos.Pôxa, quanto coisa valiosa, fruto de pesquisa e da sua escrita,com forte veia literária.Parabéns, serei mais uma leitora e já começo a perceber quanto coisa boa irei poder desfrutar.
    abçs,
    Elda

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