Sobre mulheres e cortinas…

Ser feminino ....

Ser feminino ….

Próximo ao dia dedicado à mulher, senti-me convocada a escrever sobre a condição feminina.

O curioso é que nas tentativas de fixar ideias sobre o tema, eu só pensava imagens. Sendo mais específica, só sobrevoavam minha imaginação ideias figuradas em cortinas.

Cortinas em tecidos de todos os tamanhos, formatos e cores. Algumas tinham coloração forte; outras se apresentavam em tons pastel. Padronagens floridas, geométricas e lisas. Umas, esvoaçantes. Outras, austeras. Enfim, um festival.

Fiquei intrigada. Busquei desvencilhar-me da profusão de panos a agitar-me o pensamento. Avancei. Lembrei-me de algumas histórias. O intrigante é que todas elas envolviam mulheres e cortinas.

Pois é. Elas, as cortinas, continuavam lá.

A primeira história de que me lembrei foi a de minha mãe. Ela sempre sonhara com uma vistosa cortina na sala-de-estar. Seu sonho esbarrava no orçamento curto. Até que um dia, ela desistiu de amargar frustração. Comprou um tecido barato e confeccionou sua própria cortina.

De que cor? Ela tingiu o pano de um azul que após a coloração ficou acinzentado. Minha mãe não se fez de rogada. Aproveitou sobras de costuras e fez aplicações no pano que deram colorido especial à sua “conquista”.

A segunda história é mais uma imagem.Mulheres lavando roupas à beira do rio. Vi a cena, quando ainda era só uma garotinha. Jamais esqueci: roupas, lavadas por mulheres acocoradas em perfeita intimidade com a água, estendidas em varais improvisados.

As roupas pareciam cortinas que separavam o território de cada lavadeira naquele espaço tão coletivo. Havia saias, vestidos, blusas. Mas o que ainda baila na minha lembrança são os lençóis. Muitos lençóis dançando ao vento. Confiantes como cortinas requintadas e indispensáveis.

A terceira é a lembrança de um filme: E o Vento Levou. A história de Scarlett O’Hara, mulher voluntariosa que desafiou costumes de seu tempo, adotando postura autônoma diante dos desafios. E quem esquece a cena em que uma velha cortina de veludo verde é arrancada e transformada no vestido que ela usaria para ir à luta e retomar Tara, a fazenda da família?

Até agora, não sei exatamente porque a lembrança de cortinas. Talvez as visões que temos construído sobre o “ser mulher”, sempre restrito ao espaço doméstico, estejam impregnadas em mim. Mas, de certa forma, não me senti frustrada. Quem sabe as cortinas me ajudariam a construir metáforas sobre o ser feminino? E era esse o objetivo.

Então, deixei-me embalar por essas doces visões. Mulheres. Leves, soltas e belas como só cortinas conseguem ser. Mulheres como seres sensíveis, detalhistas, capazes de transformar cuidado em aconchego.

Mas, passado o enlevo natural que doces imagens suscitam em nós, mulheres, percebi que a cortina pode ser também a metáfora da alienação, da condição de estar presa a suportes. Dependente. Incapaz de autorrealizar-se.

E cheguei à conclusão de que compreender nossa condição é um antídoto da alienação que pode nos impedir de remover  preconceitos que se interpõem como cortinas pesadas, entre nós e nossas realizações. Cortinas com cheiro do mofo do machismo ou tingidas pelo vermelho vivo das tintas derramadas pela violência sofrida por mulheres de todas as idades, etnias e credos.

E entre metáforas e cortinas percebi. É impossível pensar a condição feminina, sem olhar para nossas próprias histórias.

Histórias de mulheres que vão costurando suas vidas em distintas condições. Como a de minha mãe, mulher sensível e criativa, com coragem para vencer desafios e criar oito filhos. Histórias de mulheres anônimas que “lavam” as dificuldades de suas vidas com disposição e garra, iguais às lavadeiras naquele rio que perdura como uma das imagens que criei sobre o que é ser mulher. E o que dizer da cena projetada pela personagem de Vivien Leigh, no filme de 1939? Uma mulher que arrebatava pela determinação que imprimia às suas lutas pessoais.

Por tudo isso, não foi à toa que cortinas e mulheres se misturaram nos meus pensamentos, quando tentei “ver” a condição feminina mais de perto.

Mas, angústias existenciais à parte, hoje, é o Dia Internacional da Mulher.

Para comemorar? Um convite. Vamos enfeitar a ocasião com uma leve e colorida cortina e fiquemos aconchegadas no que nos faz tão especiais: a misteriosa condição feminina.

Misteriosa e telúrica condição feminina ….

31 comentários sobre “Sobre mulheres e cortinas…

  1. Amanda disse:

    Adorei! Super criativo o texto… o escritor ideal é o que consegue nos fazer imaginar cada palavrinha, como se estívessemos vendo um filme e não lendo um texto.

    Parabéns.

    Beijo!

  2. Ednair disse:

    Oi, Lidú!!!

    Que mensagem linda!! No trecho que fala sobre as lavadeiras, você me fez voltar ao tempo em que minha mãe me obrigava a ir com ela para o riacho (na cidade em que nasci não tem rio). Tudo isso porque ela sempre gostou de roupas “alvas”, como dizem lá no nordeste.

    Um grande abraço,

    Ednair

  3. Luciana disse:

    Lidu,

    lendo seu texto me lembrei de um filme, com Winona Ryder,””Colcha de Reatlhos” , voce deve ter visto, ela faz o papel de uma estudante de Berkeley que, durante os meses de verão, está dividida entre escrever sua tese e pensar numa proposta de casamento na casa da avó e da tia (as atrizes vencedores do Oscar Ellen Burstyn e Anne Bancroft). Enquanto isso se desenrolava, era bordada não lembro por quem do filme, uma colcha de retalhos, e cada retahlho da colcha era um registro de um momento especial da vida de cada uma das mulheres da familia. Lindissimo. Como seu texto.
    Um beijo bem grande,
    para você, grande mulher.
    Lu
    Lu

  4. Mayalú disse:

    Lidú

    Lado a Lado (1998) é um filme com Susan Sarandon e Júlia Roberts. A personagem de Susan está com uma doença terminal e faz para o filho uma capa com retratos da família. É uma cena que não esqueço, porque apesar do momento ser triste, o menino dá um sorriso imenso, contente com a capa de super herói.
    Retalhos são pedaços aproveitáveis, que muitas vezes são descartados simplesmente porque alguns não consideram estético, luxuoso, etc…
    Quantas coisas não aproveitamos porque outros não acham adequado?
    Na minha cortina mando eu!!!
    Beijos

  5. Leda Maria disse:

    Como você escreve bem! Quanta sensibilidade e quanta poesia!
    Adorei e devorei cada palavra.
    Grande Lidu!

    Parabéns.

  6. Iraci Metz disse:

    Pois é, maravilhosa amiga, quantos pensamentos nos trazem o seu texto, cada uma dentro de seu universo feminino, de suas saudades e de suas projeções. Eu, uma feminista assumida, remeto-me ao tempo em que minha mãe vivia conosco e nos conduzia com sua força interior e com sua fraca saúde apesar de tudo. Grande beijo!

  7. Jovina Gomes Benígno disse:

    Lidu, perdi quase trinta dias de beleza, poesia e sentimento; a metáfora das cortinas foi de uma felicidade tão imensa quanto a alegria de te ver cada vez mais lúcida, poética e com um lirismo encantador e realístico.
    beijo
    parabens!!!!!
    lindo, lindo !!
    JOVINA

  8. Carolina Guarçoni Pereira Lopes disse:

    Lidu,
    Parabéns pelo texto. Muito bonito mesmo, adorei!
    Com certeza entrarei mais vezes no seu blog para me “deliciar” com tão belos textos!
    Beijo grande, Carol.

  9. Marina Maria da Mata disse:

    Oi Lidu Querida!

    As suas palavras me transportaram de volta à minha adolescência, quando eu mesma fazia parte do quadoro “Mulheres á beira do rio lavando roupas”. Me fez ver o quantos podemos ser fortes e mudar a nossa história. Ou melhor ainda, podemos construir uma bela história !!!
    Você é uma mulher maravilhosa !!!
    Parbéns !!!!!
    Beijos !!!
    Marina

  10. Diana Luz disse:

    Lidu, parabéns pelo dia internacional da mulher! A você, uma grande mulher, agradeço muito por nos proporcionar momentos maravilhosos de reflexão como este! Grande Beijo! Diana

  11. Venina Metaxa Kladi disse:

    Lidu, belo texto.
    Simples, profundo, reflexivo…
    Parabéns para todas nós que tecemos fio a fio a nossa história.
    Beijos

  12. Lilian Moura Fé disse:

    Liduina,
    adorei o texto. A partir da leitura, evoquei muitas imagens da ninha infância, como a das lavadeiras do rio Parnaíba, aqui em Teresina e, a mais significativa: minha avó fazendo colchas de retalho.
    Muito obrigada, e um grande abraço,

    Lilian

  13. maria da conceicao deodoro dos santos disse:

    Lidu,
    O seu texto é maravilhoso!!! Encantador!!! Belo presente no nosso dia. Grata. Conceição

  14. Marília Costa disse:

    Lidu,

    Cada dia que passa “abre-se as cortinas” de sua inspiração para nos presentear com mais um espetáculo de belas artes (monólogos de uma mente brilhante).

    Parabéns pelo lindo ensaio.

    Beijos para essa mulher fantástica e que tenho muito orgulho de conhecer.

    Mama.

  15. JOVINA GOMES BENÍGNO disse:

    Lidu, reli hoje, depois de quase um ano- quando li pela primeira vez- este texto sobre a condição da mulher; e à medida que a leitura foi avançando experimentei uma emoção tão grande- maior- quando da primeira vez, com uma diferença: as cores ficaram mais fortes,as mulheres no rio assumiram rostos conhecidos, o vento balançou severa e às vezes mais suavemente as roupas estendidas, que emitiam sons parecidos com choros e risos… quanta emoção Lidu, quanta comoção, um beijo grande, obrigada por nos proporcionar tanta reflexão, as palavras ganham vida,é um mundo surpreendente e inesperado, e, intrigante porque é a vida, assim como Ela È, beijo
    JOVINA

  16. Dalete disse:

    Parabens Lidu e obrigada pela homenagem… Tambem me deixei levar pelas memórias… As cortinas também, tal como nós mulheres, “suavizam” as janelas (a realidade), filtram a luz…

    besos

  17. Tânia Tanus disse:

    Lidu,

    Que texto lindooooooooo, simples e profundo. Parabéns, deixei-me levar pelo texto e recordei-me da convivência e amizade que compartilhei com minha mãe que há muito se foi , mas que é um exemplo de ternura e garra para mim.
    Desejo que cada cortina/mulher tremule com a mesma garra e ternura.
    Bjs

  18. Alussandra disse:

    Eterna Professora Liduína,
    Seu texto, como de costume, leva à reflexão e emociona. Fora isso, ainda o li em pleno momento de repensar o sentido da minha realização… São tantas as questões a re-significar! Suas palavras me foram (são) necessárias! Obrigada pela bela mensagem. Tenho orgulho da mulher que és.

    Forte abraço e até breve!

  19. Nara Lira disse:

    Lidu,
    Fiquei super sensibilizada com este texto. Que tom poetico ao falar da condicao feminina!Mais uma vez me surpreendi com voce, sempre inventando novas formas de sensibilizar as pessoas e faze-las ocuparem seus espacos da melhor forma possivel, Beijos
    Nara

  20. Maria Aparecida Ribeiro Oliveira disse:

    Lidu,

    Que lindo! Agora com acesso ao seus textos vou me deliciar com sua sabedoria de mulher que ama viver e vive para ensinar, assim te vejo.

    bjs,
    Cida Ribeiro

  21. Emília Sandes disse:

    Querida Lidu,
    Mas que coisa mais linda!
    Feliz quem tem a possibilidade de acesso ao seu blog.
    Um abraço bem grande,
    Emília

  22. Ana Cristina disse:

    Adorei Lidu!!
    Consegui ver as cortinas e nas histórias que você contou também me vi e as mulheres da minha família. Elas também costuraram lindas cortinas que enfeitam, resguardam o espaço familiar e mostram todo o cuidado com a casa, a família, o belo, o social.
    Beijo e parabéns!
    Ana Cristina

  23. Claudete barros disse:

    LIDU, como vc escreve lindo.Vai nos envolvendo com suas estorias vividas, suas criaçoes efazendo seus leitores viajar pela vida e se sentindo cada vez mais capaz, mais livre e mais poderosa.Parabens a todas as mulheres! Para vc meu beijo carinhoso.Claudete.

  24. Edson Luiz disse:

    O texto foi dedicado às amigas do face, mas eu não posso deixar de ver o que você publica, nem me fascinar com o conteúdo da leitura. Parabéns, mestra. Abraço grande!!!

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