O sentido ou o sabor da vida?

Moinhos de vento ou …


O cotidiano vai costurando nosso tempo. Tecendo o fio da existência sem grandes dúvidas, dilemas ou incertezas. Vamos equilibrando as ditas obrigações com as tarefas vistas como prazerosas. Assim é que a necessidade de ir ao supermercado ou ao posto de saúde, por exemplo, parece menos maçante diante da possibilidade de, no fim de semana, podermos curtir um happy hour no “barzinho da hora”, caminharmos na praia ou vermos um filme. A rotina foi a saída existencial criada pelo homem para enfrentar o estranhamento que  surge com a realidade de cada dia. A repetição  ajuda a dar certa estabilidade ao nosso viver.

Mas existem os momentos críticos. As horas decisivas ou períodos que trazem insegurança e até certa dose de desespero. E é nesses momentos que dúvidas se instalam na idéia que temos da própria vida e  muitas vezes, nos perguntamos: qual o sentido da vida?

Mas será que nessas horas cabe questionar o valor ou significado da vida?

Aristóteles na sua Doutrina da Substância permite-nos deduzir que a vida é uma realidade  inerente à existência.  Ou seja, a vida tem  sentido em si e para si. Então, talvez seja mais útil, nos momentos  em que buscamos superar situações críticas ou trágicas,  perguntarmos pelo sentido da existência, uma vez que ela é a manfestação mais concreta da vida.

E para essa pergunta, cada pessoa constrói respostas de acordo com suas capacidades e limitações, mas sobretudo, conforme seu nível de compreensão e perspectiva de julgamento. Assim, algumas pessoas demonstram  uma tendência ao desespero e qualquer turbulência por mínima que possa parecer já lhe causa sério  desencanto; outras parecem determinadas a colocar sua capacidade de julgamento e ação acima das barreiras que se apresentam. Parecem mais capazes de visualizar perspectivas alentadoras.

É fato que não há um único caminho claramente definido para buscar a verdade, mas parece claro o valor da reflexão para permitir que alguém consiga se colocar acima das percepções mais imediatas e extrair os significados dos acontecimentos para além dos seus medos e pessimismo. Espinosa, o filósofo holandês, dizia que: “a emoção que é sofrimento deixa de causar dor quando dela formamos uma idéia nítida  pelo esforço da reflexão”.

E por que algumas pessoas parecem ter um otimismo arraigado e maior receptividade interior para enfrentar os desafios e sempre acham que o copo está meio cheio, enquanto outras se entregam ao mais feroz negativismo e julgam que o mesmo copo está meio vazio?

O psicólogo Victor Frankl fundador da Logoterapia ou Psicoterapia do Sentido da Vida, a partir de sua experiência como prisioneiro nos campos nazistas, ficou curioso ao perceber que naquelas circunstâncias, enquanto havia  pessoas que soterravam o próprio ânimo e esperança e se entregavam à morte; havia também os prisioneiros que se mantinham determinados a conservar a crença no sentido maior de viver. E a diferença entre eles é que estes colocavam o desejo de viver acima das circunstâncias e enxergavam um valor naquela forma de existência aparentemente destituída de significado. E eram eles que conseguiam sobreviver em maior número ou melhorar a qualidade de sua existência mesmo nas condições horripilantes às quais estavam submetidos.

A experiência nos campos de concentração levou Victor a elaborar conclusões que podem ajudar-nos a ampliar a compreensão do que seria o sentido da existência. Para o psicólogo judeu, quando preservamos nossa visão de um sentido maior da existência, conseguimos motivações para seguir em frente.

E o que fomentaria essa motivação?

Lembranças sempre presentes de pessoas amadas – ele diz que o amor é o bem último e supremo que ajuda-nos a manter o leme firme nas tormentas existenciais -, senso de humor, senso de espiritualidade, ou seja, perceber-se como ser capaz de transcender. E  ainda a capacidade de buscar o que ele chama de visões curativas da vida, coisas ou eventos que alimentam nosso espírito, como uma bela paisagem, um sorriso, um pôr-do-sol, o marulhar da água, um pássaro.

Para ele, essa visão superior orientadora nutre nossos pensamentos de idéias promotoras de ânimo positivo e ação afirmativa. E é isso que nos leva a manter a última liberdade humana ou nossa capacidade de erguer-nos acima das  circunstâncias e para além dos aspectos trágicos ou críticos da existência. Para Frankl é essencial a capacidade de  perceber que a vida tem sentido e por isso há sentido na alegria e na dor.

A despeito desse pensamento, o criador da Logoterapia não pregava um otimismo cego ou ingênuo, mais próximo do que professava Leibniz, filósofo para quem, se o mundo existe ele é o melhor dos mundos possíveis. Frankl  também não dizia que a felicidade é a ausência de sofrimento como defendia Schopenhauer. Nas visões de Leibniz e Schopenhauer parece que somos um joguete das circunstâncias. A felicidade está dada ou não. Já para Victor Frankl, não existe felicidade como abstração. Ela é uma construção. A cada um cabe a tarefa de realizar esse sentido.

Você deve estar se perguntando:  e no nosso dia-a-dia, como realizar essa tarefa?

Precisamos conhecer não apenas o que nos acontece, mas qual a percepção que desenvolvemos do que nos acontece.  Diferentes indivíduos submetidos às mesmas circunstâncias podem desenvolver percepções distintas dessa mesma realidade. Isso quer dizer que não é apenas o que nos acontece que vai influenciar na nossa existência. Como encaramos o que nos acontece ou o sentido dado por nós mesmos a essas experiências será decisivo para determinar como reagiremos aos eventos e os efeitos deles no nosso viver. Daí a importãncia da reflexão para ampliarmos essa percepção e compreensão do que nos acontece, para além da realidade mais imediata, e a disposição de interagir e atuar com as pessoas e com o mundo.

Um samba de Paulinho da Viola diz: “as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender” e essa frase casa bem com a tarefa de realizar o significado da existência. Somos indagados a todo momento sobre qual os seus sentido e  sabor.

E as respostas? Serão construídas através das nossas ações, da nossa relação com o mundo e dos valores que nutrimos. Esses elementos – ação, interação e valores – permitem  transformar a existência ou a percepção que temos do que seja existir. Eles fornecem o suporte existencial para ultrapassarmos limites, potencialidades ou reconhê-los. Eles criam condições para transmutarmos episódios que julgamos trágicos, às vezes, até em pequenos ou grandes triunfos.

Essa reflexão indica que a questão não é se somos otimistas, pessimistas ou realistas, mas se desenvolvemos a autocompreensão e a compreensão do mundo para crescermos além de nós mesmos. Isso não significa que uma visão positiva e  a ação afirmativa diante da vida dissolvam todos os problemas humanos, mas, certamente, tomar decisões e efetivar ações inspiradas em propósitos e valores elevados ampliam, em muito, as possibilidades de bem-estar que serão produzidas.

Dom Quixote, o personagem criado por Cervantes para representar o lado nobre e altruísta do ser humano, via inimigos aonde havia apenas grandes moinhos de vento. Sancho Pança, seu fiel criado, representa o lado realista e prático da vida e ajuda seu senhor a perceber que ali não estavam cavaleiros em armas, mas apenas moinhos de vento.

Os personagens do escritor espanhol são felizes para ajudar-nos a estabelecer contrapontos nas perspectivas que adotamos nos julgamentos que fazemos da realidade. Tendemos a um extremo ou outro. Ou enxergamos tudo  através de lentes irreais ou somos tão realistas que acabamos resumindo tudo à realidade mais crua e objetiva. Esquecemos que somos seres simbólicos, ou seja, vivemos nossas experiências e atribuímos sentido a elas. E é como estabelecemos nossa percepção do mundo e da nossa existência que vai condicionar em muito, a forma como construímos seu significado e tudo o que dele advém.

Por tudo isso, é preciso contrapor ao desleixo interior e a apatia pelo mundo a firme determinação de construir metas ancoradas nos mais elevados objetivos e valores. Victor Frankl diz que “a orientação para um propósito nos dá uma sensação aumentada de probabilidades de futuro”. E esse aspecto nos impulsiona para a frente e para o nosso melhor estado de ânimo.

Em síntese, talvez a questão não seja o sentido ou o sabor da vida. Parece que só encontra sentido na existência quem consegue aliar à tarefa de atribuição desse sentido, à percepção do sabor de estar vivo, de poder deliciar-se com pequenos e grandes momentos. Com as coisinhas miúdas que fazem cócegas no nosso coração e com os grandes eventos que o fazem disparar e revigoram nosso viver.

Sabor e sentido. Talvez, eis a questão.

O sabor do cotidiano …

15 comentários sobre “O sentido ou o sabor da vida?

  1. Márcia Regina Evangelista disse:

    Lidú, lindo e profundo!
    Este ensaio nos faz repensar como estamos lidando com nossa própria existência. E particularmente, penso que o sentido da vida está dentro de cada um de nós…

    Parabéns!!!

  2. Amanda disse:

    D. Liduína, como me identifiquei com seu ensaio!

    Sabor e sentido. Achei bastante apropriada a utilização do pensamento “a emoção que é sofrimento deixa de causar dor quando dela formamos uma idéia nítida pelo esforço da reflexão”.

    Sempre inspirada, obrigada pela reflexão.

    Que venham mais e mais ensaios.

    Beijo no coração.

  3. luiz antonio disse:

    parabéns e obrigado Lidú, é sempre importante estarmos ligados às reflexões da vida. Dela, da vida, só conhecemos o que nos é dado viver, portanto estejamos atentos para usufruir e percebermos a importância de todas as emoções.

  4. Luiz Esteves disse:

    Pensar a vida. Algo simples, porem complexo, que pouco nos damos conta ou importancia. Belo ensaio. Profundo. Parabéns!

  5. Clebernardo Rodrigues disse:

    Oi, Lidu! Parabéns pelo seu recente aniversário.

    E parabéns pelo belo ensaio. Abre janelas para reflexões em vários âmbitos, inclusive nas organizações – espaço no qual vivemos boa parte de nossas vidas.

    Por que algumas pessoas são felizes com determinadas realidades organizacionais (políticas, diretrizes, salários, formas de gestão, etc.) e outras não? Seu ensaio pode nos conduzir a boas reflexões sobre a questão. Imagino alguns executivos argumentando, para os que não estão felizes, que o problema não é a realidade em si, mas a forma como essas pessoas encaram a realidade.

    O ensaio é provocador. Faz cócegas em nossas mentes. Parabéns!

    Abração,

    Cleber

  6. Luciana disse:

    Parabéns Lidu!!
    Nossa, vou usar com meus alunos na proxima aula de processos decisórios. Vou trabalhar sobre a importância da percepção na tomada de decisão, e seu texto vai ser muito útil nas reflexoes para a turma. Valeu!!
    Beijos, saudades. Lu

  7. Bizzo disse:

    Lidu,
    Gostei muito de seu texto. Como não tenho todas as suas referências, talvez falta-me algo para a perfeita compreensão das idéias. Mas vamos lá. Achei sua síntese (…percepção do sabor de estar vivo…) pequena em relação ao caminho que o texto tomava. Você caminhava com a idéia de que a existência tem sentido na forma como interagimos com ela (…mas se desenvolvemos a autocompreensão e a compreensão do mundo para crescermos além de nós mesmos…). Crescermos é a palavra-chave. Ou seja, nossa compreensão do mundo nos permitindo agir no sentido de transformarmos nossa própria existência. Somos atores neste mundo, não mera platéia.
    Minha conclusão: não sei por que me puseram neste mundo. Nem sei se pedi para vir. Mas estou aqui. E o sentido de minha existência vai decorrer do que eu puder fazer com as cartas que me foram dadas neste jogo da vida.
    Beijo

  8. José Marcelo Assunçao disse:

    Eu queria ter algo inteligente e profundo para lhe dizer, minha querida Lidu. Não tenho. Tenho só uma lembrança para compartilhar: quando era criança, em São João del Rei (MG), vivia em pleno jogo-de-vida com a minha turma. Brincávamos com todas as nossas energias (aliás, só voltávamos para casa por fome muito dolorida, chuva muito forte ou grito de mãe). Era com todo o sabor que sabíamos que a vida valia a pena. Não parávamos para saber sobre o sabor ou saber sobre o saber. O sentido era primário, pleno.
    Eu sei que isso “condena” até mesmo o estágio em que hoje me encontro, depois de muito me perguntar sobre tantas coisas, sabendo que não teria (não terei) respostas. (E dizem que isso é ser racional…) Ora, sou muito mais o menino que não fazia perguntas, pois não precisava de respostas. A vida era sabor. Isso era o saber. Algo que fazia “sentido” loqo que acordávamos.

    Obrigado por compartilhar um texto tão lindo com este seu amigo. Sinto-me honrado (prometo relê-lo, para maiores análises). Ainda assim, sinto saudades de brincar na enxurrada da rua descalça de minha infância, depois da chuva (desconhecendo todos os incríveis perigos hoje dizem existir). Nós vivíamos. Simplesmente.

    Um beijão.

  9. Minha querida “amiga de orkut” (rs),

    Lindo texto, parabéns!
    É isso que tento trabalhar no meu blog: o problema (grave, ninguém discorda) está ali, mas suas formas e proporções são dadas pelo modo com que lidamos com ele. Muitos se fecham, sofrem mais do que precisam, e, com medo da morte, esquecem de viver. Eu não!!! Procuro encarar tudo da forma mais otimista possível. E sou feliz, dia-a-dia, apesar das adversidades. A pedra não me paralisa nem atrasa. Ela me faz crescer.

    Beijinho pra você!

  10. Sanely Pinheiro disse:

    Lidu,

    Como tenho orgulho de conhecer você!!!
    Adorei o texto e a reflexão que ele me proporcionou.
    Parabéns!

    Bjs.

    Sanely

  11. Dulce 11/06/2010
    Penso que o sentido da vida não está somente dentro de cada um de nós, mas também na ajuda da construção de um mundo melhor, mais humano, solidário… .
    O sentido da vida está também no crescimento esperitual de cada um. Em buscar conhecer as suas limitações e possibilidades de transformar essa nossa estada aqui na terra em um pequeno trecho de um caminho longo a percorrer.
    E como fazer isso? valorizando cada momento de nossas vidas, nossas amizades, nossas relações familiares, de trabalho, como se essas fossem as únicas oportunidades que estamos tendo.
    Um grande abraço.

  12. Audízio disse:

    Liduína,

    Penso que o sabor da vida nos é dado a partir do momento em que nascemos. Durante a infância, não nos preocupamos em perguntar o sentido da vida. Nós a vivemos plenamente. Os adultos, já frustados, nos põem a questionar “o que é a vida?”. Todos nós temos uma missão a cumprir. Eu acho que escrever este Blog faz parte da sua.

    Um grande abraço!

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