De Desejos, das vulnerabilidades e do poder pessoal…

A colheita é filha da semente...

A colheita é filha da semente…

Na proximidade do fim do ano, começamos a experimentar certa inquietação quanto ao calendário que finda no dia trinta e um de dezembro. Retiramos do baú não somente os enfeites de natal para decorar nosso lar. Vasculhamos, também, as  metas e propósitos estabelecidos nos festejos do último Reveillon.

E esse movimento é natural. Somos seres cíclicos e ritualísticos.

Sabedores de que a existência é finita, nos movemos entre datas e horizontes temporais sempre limitados e sentimos certa angústia nos momentos que nos confrontam com nossa própria finitude e por isso, também criamos rituais que marcam a essencialidade de reavaliar a caminhada que traçamos rumo às realizações.

Mas, se precipitam certa ansiedade em relação ao futuro, esses tempos de recomeço, possibilitam também a reflexão, o reexame de como nos relacionamos com o mundo e com as pessoas e, sobretudo, com a própria existência.

Esse insight é importante. Mas será que ao fazer o balanço do ano, não focamos excessivamente nos objetivos? Será que não esquecemos de que quem os estabelece e os concretiza somos nós mesmos por meio de nossa força pessoal?

E o que seria essa Força Pessoal?

Uma busca, mesmo minuciosa, permite verificar que seja na Psicologia, Antropologia ou outra área das Ciências Humanas, não encontramos uma definição ou conceito exato do que seria essa força; mas ao visualizarmos as biografias de pessoas que se destacam pelas suas realizações, é possível identificar aptidões, habilidades e atitudes que permitem compreender porque elas conseguiram aproximar-se de tudo o poderiam ser. Seja nos ramos das artes ou dos negócios, ou qualquer outra área profissional ou pessoal, seja realizando ações humanitárias ou empeendendo negócios milionários, há um conjunto comum de características que podem nos levar a concluir que existe sim, uma espécie de marca, de estilo de ação que destaca um indivíduo dos demais pela forma como modela e rege sua vida.

Quer um exemplo? O compositor alemão, Haendel, foi considerado um espírito irrequieto, determinado e elegante. Ele foi um dos mais ousados empreendedores da Londres do Século 18. Sua obra é de exaltação, mas ele conseguia aliar  a sublime devoção espiritual a uma dramaticidade muito humana. Foi ele quem compôs Hallelujah, música que até hoje, mais de dois séculos depois marca os momentos de apogeu e ápice nas celebrações da humanidade. Mozart dizia que a música de Haendel atingia as pessoas como um raio e Beethoven aconselhava aos seus pupilos que aprendessem com o compositor de Hallelujah a produzir tão grandes efeitos com tão poucos meios.

E essas características de Haendel –  inquietação, protagonismo, elegância e ousadia –  que lhes conferiram poder pessoal  para realizar-se na condição de criador musical, estão presentes em algum nível, em todos nós.

Algumas características podem dar pistas de traços comuns às pessoas que se apropriam da própria força pessoal: autodeterminação, empenho ético, sensibilidade e flexibilidade.

Platão já dizia que “O homem é o princípio e o fim de seus atos”, talvez por isso, a autodeterminação é ingrediente fundamental. Ser autodeterminado é analisar criteriosamente possibilidades e limites de nossas ações. É realizar escolhas motivadas por nossos próprios princípios e reais necessidades. Esse é o caminho para agirmos a partir da visão conscienciosa das consequências e do alcance de nossos atos. Ter força para efetivar ações para o desembaraço de nossa história sem nos rendermos ao conformismo, à preguiça e à eterna tentação da lei do conforto em detrimento de nossas conquistas e responsabilidades.

O homem é um ser de interesses. Avaliamos a realidade sempre em confronto com nossas necessidades e ambições, por isso é imperativo que nos empenhemos em nos enxergarmos como parte de um todo. Em uma realidade cada vez mais marcada pelos valores individuais, a ética é a salvação possível para indivíduos e nações

Fazer-se presente, estar atento à causalidade de nossos atos e escolhas. Ser sensível para perceber a si mesmo e aos outros como fontes geradoras de sentimentos e atuar efetivamente para sentir e expressar esses afetos com tato e sinceridade.

Ser curioso diante do mundo funciona como aditivo emocional  e fortificante da vontade. Aliar flexibilidade emocional à vontade é marca das pessoas sensíveis e determinadas é revigorante da ação e espanta vulnerabilidades. É triunfal pensar nos passos que nos levarão à nossa própria utopia. Visualizar as braçadas que precisamos nadar para chegar à praia preferida no oceano da vida.

Fazer um balanço da existência é como fotografar. É imperativo realizar a química da revelação perfeita e enquadrá-la conforme anseia nossa visão. É o exercício da força pessoal que transforma uma ação errática no auto-retrato que expressa desejos, vulnerabilidades e forças, enfim, o que somos.

A magistral Clarice Lispector, senhora do escrever a alma humana, diz em ‘Perto do Coração Selvagem’:  “Há impossibilidade de ser além do que se é, no entanto eu me ultrapasso…, sou mais do que eu normalmente…  e tudo o que eu fizer é continuação do meu começo…”.

E realmente, só delineamos o que queremos nos tornar, na intimidade  com a história que pulsa nas nossas origens e desejos. É para eles que precisamos nos mover.

A vida autoral tem o aroma da serenidade

A vida autoral tem aroma de serenidade

Um comentário sobre “De Desejos, das vulnerabilidades e do poder pessoal…

  1. Andrea Trigueiro disse:

    Lidú,
    Enebriante o seu texto. Que Deus sempre a abençoe com a fertilidade da palavra.
    Bjs.
    Andrea.

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