Quer crescer?

Pratique a gentileza...

Pratique a gentileza...

A palavra civilização nomeia as formas mais elevadas dos usos e costumes de um povo.  É dela que deriva o termo civilidade, como a capacidade de agir observando padrões elevados de boa educação, gentileza e cortesia. Em tese, quanto mais civilizado um povo, mais seu sistema de convivência torna-se facilitado, uma vez que todos seguem as regras para o bem coletivo e respeitam os direitos individuais.

No dia a dia, a civilidade se apresenta na forma de atitudes gentis, na prática da cortesia e da delicadeza implícitas no cuidado para não transgredir normas simples, mas sinalizadoras de um grau elevado de formações humana e espiritual alcançadas por determinada sociedade.

Palavras simples traduzem atitudes de pessoas minimamente educadas, como exemplos: por favor, com licença, obrigado (a), desculpe.  Essas pequenas fórmulas são chaves que abrem portas mágicas para uma vida agradável e edificante. E se lembrarmos que estamos em um mundo cada vez mais globalizado, e por isso mesmo, múltiplo e diverso; com níveis de explosão populacional jamais vistos, obrigando-nos a conviver com maior contingente de pessoas, grande miscelânea de expressões culturais e progressiva necessidade de compartilharmos recursos; as palavras , os gestos de cortesia e gentileza crescem em valor prático e, também, humano.

Praticar a civilidade por meio de regras da boa convivência não significa seguir normas de etiqueta social, apesar de seu valor e contribuição para uma vida social agradável. E o elemento que diferencia a cortesia que se origina de uma polidez formal de um tratamento genuinamente cortez e humano é a gentileza.

Nada mais eficaz para fazer e manter amigos, ajudar nas conquistas duradouras, sejam pessoais ou profissionais do que estabelecer relações a partir de uma atitude temperadamente gentil. Sem os exageros da bajulação que não se sustenta como atitude movida por sentimentos autênticos, nem a cortesia fria e superficial.

Não é por acaso que gente e gentileza têm a mesma raiz etimológica. Talvez na formação da língua, a origem comum queira nos lembrar que a gentileza é um dos aspectos que humaniza os relacionamentos e confirma nossa condição de ser gente. Mas a despeito de ser um termo amplamente utilizado, a gentileza como qualidade que nos diferencia como seres relacionais e afetivos parece estar cada vez mais em desuso.

A forma como interagimos é expressão do que somos. O ser humano apesar de todo o processo evolutivo ainda mantém resquícios de comportamento animal e isso se manifesta muito nas interações  afetivas e sociais. Nos momentos nos quais temos de conviver com pessoas por quem nutrimos sentimentos de animosidade, não raro, as rivalidades e antipatias são expressas por atitudes de hostilidade  e agressividade. Parece ser um grande desafio para nós humanos, ultrapassar a barreira das  tendências agressivas instintivas e fazer valer as dimensões afetivas e comportamentais que nos diferenciam dos animais desprovidos de cognição e incapazes de vivências espirituais e produção cultural elevadas.

Ás vezes, é como se fizéssemos força para parecermos hostis e agressivos, para mostrar ao outro que ele deve manter distância. Do ponto de vista da inteligência emocional, esse tipo de atitude é totalmente dispensável, salvo em situações de franco risco à nossa segurança física, nas quais precisamos nos proteger. No convívio familiar e social precisamos fazer esforço é no sentido contrário. Precisamos ultrapassar esse resíduo animal do comportamento social e nos esforçarmos para estabelecer relaciões adultas  e mutuamente edificantes. Independente do nível de antipatia que possa nos mover contra alguém, podemos superar esse estado afetivo de animosidade e tratar a todos com delicadeza.

Um fato curioso é que não é difícil ocorrerem, até em situações que deveriam propiciar momentos de confraternização, episódios de convivência hostil. Anfitriões que deveriam apresentar atitudes de graça e solicitude com os convidados, às vezes, convidam para ostentar e esquecem o verdadeiro sentido da festividade. Senão, responda: você nunca saiu de uma festinha ou encontro familiar ou de amigos com uma considerável vontade de presentear os anfitriões com a última edição do “Livro completo de Etiqueta de Amy Vanderbilt”? Infelizmente, a grosseria social e a ausência de cuidados mínimos para uma acolhida gentil são cada vez menos raros.

Por tudo isso, vamos refletir um pouco sobre como reagimos socialmente à presença do outro?

  • Como está seu nível de zelo com o cumprimento de exigências sociais básicas no seu convívio?
  • Você considera isso importante?
  • Você busca relacionar-se de forma empática com seus amigos, familiares, colegas de trabalhos e membros da sociedade?

Depois dessa parada reflexiva, vamos conhecer os amigos da gentileza? Ou seja, vamos enumerar  aspectos facilitadores do convívio capaz de harmonizar os ambientes e torná-los mais saudáveis e produtivos?

  • Bom humor – As pessoas bem humoradas lidam com maior leveza com os desafios do dia a dia  e  por isso, tendem a manter atitude receptiva e alegre com seus pares, mesmo em momentos mais difíceis;
  • Humildade – As pessoas seguras têm maior facilidade para colocar-se no mesmo nível de seus pares sem sentimentos de inferioridade, por isso tendem a ser mais humildes e manter atitude simpática;
  • Inteligência – As pessoas que apresentam boa dose de inteligência emocional mostram-se, geralmente, mais acolhedoras e cuidadosas com o bem-estar dos demais;
  • Paciência – A paciência é signo de equilíbrio emocional. Ajuda a manter  interações mais tolerantes e edificantes;
  • Altruísmo – A preocupação com o outro e a capacidade de diminuir os benefícios a si mesmo para compartilhar vantagens de forma mais igualitária, próprias do altruísta, são fatores significativos para imprimir padrões gentis e humanos nos relacionamentos;
  • Empatia – Saber colocar-se no lugar do outro dá boas pistas de como devemos nos comportar para manter relações harmoniosas;
  • Boa educação como conjunto de regras internalizadas de comportamento social aceitável é fundamental para que tenhamos relacionamentos baseados na gentileza e no respeito;
  • Visão ética – o senso de justiça e a noção de que os direitos e deveres precisam ser respeitados mutuamente são fundamentais na  construção de relações consistentes e duradouras;

Um dos grandes inimigos da gentileza e da competência interpessoal e social é, muitas vezes, o temperamento. Pessoas impulsivas, coléricas e também as muito frias têm grande dificuldade para expressar comportamentos conciliadores. Entre esses sujeitos, parece haver alguns que padecem de certo aborrecimento interpessoal e interpõem entre si e os outros, uma barreira ou máscara repugnante que afasta a todos que buscam aproximação. Mas é possível desenvolver autoconhecimento e trabalhar esses padrões pelo autocontrole e expansão de atitudes opostas. É o chamado antídoto comportamental, ou seja, experimentar atitudes diametralmente opostas à tendência  atitudinal que costumeiramente adotamos.  Afinal, você já deve ter ouvido que ” nada muda se você não mudar”.

Mas existem outros inimigos da civilidade e da gentileza. Vamos conhecê-los?

  • Presunção e soberba – os presunçosos e soberbos têm maior dificuldade de adotar comportamentos que possam sugerir uma base de igualdade na relação, por isso tendem a ter atitudes agressivas que colocam os outros na condição de vítima e portanto de inferioridade;
  • Rancor – A incapacidade de atualizar os sentimentos em relação a episódios passados envenena os contatos pessoais com a hostilidade e a intolerância;
  • Egoísmo – As pessoas que se enxergam como centro do mundo são incapazes de realizar julgamentos justos da realidade e de adotar comportamentos que não os coloquem como o único elemento precioso da situação;
  • Ignorância – Ignorar regras mínimas de boa educação incapacitam as pessoas desprovidas de considerável bom senso de se portar com certa civilidade.
  • Imaturidade – É próprio da maturidade, valorizar o semelhante. Isso é fruto do processo reflexivo permitido pela experiência acumulada. Apesar de alguns indivíduos nunca conseguirem superar o egocentrismo próprio das crianças,  ter uma visão realística e madura da vida e das pessoas favorece a assunção do altruísmo nas interações.

E é bom lembrar que a gentileza não deve estar restrita aos ambientes sociais. Quanto mais precisamos conviver intimamente, maior deve ser o zelo com  a manutenção de  padrões de gentileza e respeito. Principalmente, nos momentos delicados e conflituosos. Casais, pais e filhos, namorados, irmãos, amigos de longa data, vizinhos e condôminos devem ter ainda maior esmero para preservar o nível de consideração entre si.  Devemos lembrar que ser a companhia ideal é indissociável da prática da gentileza.

Existem pessoas amáveis, calorosas que parecem trazer essa faculdade do berço. Se é o seu caso, parabéns! Se não for assim, nunca é tarde para aprender e ensinar aos que estão à sua volta. Principalmente às crianças. Não é à toa que a música Coração de estudante de Wagner Tiso e Milton Nascimento nos ensina:

E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê
Flor e fruto.

E que bela flor. E que fruto propício é a gentileza. Por esse motivo a civilidade e tudo que dela advém deve ser semeada desde a infância. Ela alimenta um circuito humano de relacionamentos edificantes, capazes de produzir bem estar e sucesso. Além disso, há uma certa satisfação em comportar-se agradavelmente.

Pense nisso! Experimente expandir-se como ser relacional e afetivo.

10 comentários sobre “Quer crescer?

  1. Amanda disse:

    Como sempre, adorei o post!

    Esse tema é mais importante do que podemos julgar. Me fez lembrar dois pensamentos que sempre trago comigo:

    “Aprendi o silêncio com os faladores, a gentileza com os rudes, e, a tolerancia com os intolerantes; e, ainda, estranho, sou ingrato a esses professores!” – Calil Gilbran

    “Assim como o sol derrete o gelo, a gentileza evapora mal entendidos, desconfianças e hostilidade.” – Albert Schweitzer

    Não deixe de partilhar sua inspiração conosco viu? Espero um dia ter um livro com uma coletânea desses pensamentos.

    Abraço da amiga e fã!

  2. Luciana disse:

    OI Lidu
    gentileza são suas palavras.. e a bela imagem que as acompanha
    um completa o outro…
    beijos afetuosos,
    Luciana

  3. Celis Facó disse:

    Lidu,

    Sempre venho aqui te ler porque você é exatamente a gentileza em pessoa, você me encanta e cativa sempre.
    Parabens pelo belo texto, digno de ti.
    Beijo preciosa.

  4. Jovina Gomes Benígno disse:

    Lidú,
    Entre os amigos da gentileza citados no seu texto, todos muito próprios de quem a pratica, gostaria de ressaltar a humildade, a paciência e a visão ética; incrível a linha de raciocíonio tão bem tecida; lembrou-me a música do Gilberto GIl, se não me engano o nome é ” o pano e linha”, onde ele faz uma analogia do amor de duas pessoas, bordado um pano, que é suas vidas; você borda uma imagem da gentileza num raciocínio que a torna quase um substantivo concreto( não sei se me fiz entender)– maravilhoso!No entanto, altruísmo é o que vc mais pratica, quando nos presenteia com suas palavras.
    obrigada
    JOVINA

  5. Maria Augusta disse:

    Lidu,
    obrigada por estar compartilhando conosco estas reflexões
    maravilhosa, ainda não consegui ver todas , mas adorei
    esta ” Quer crescer ? ”
    Vou leva-la pra minha agência acho que devo compartilhar também
    com o meu pessoal.
    Bjus

  6. Salve Lidu,
    Paz e Bem !!!
    Muito obrigada por nos proporcionar momento de REFLEXÕES e a partir daí CRESCIMENTO.
    Praticar Gentileza no “Individualismo Conteporâneo” é um exerício di-ário de autoconhecimento.Aceitarmos os nossos defeitos e termos a consciência da necessidade de mudanças. Claro que é possível, temos que esvaziar nosso “coração” do egoísmo,arrogância,petulância,estrelismo, prepotência, falsidade etc. e encher de AMOR, HUMILDADE, ESPERANÇA.
    DEUS te proteja

  7. Ângela disse:

    Lidú,
    Que bela e profunda mensagem! Parabéns e obrigada por compartilhar conosco as suas inspirações e inquetações.
    bjs
    Ângela

  8. Paulo de Tarso disse:

    Amiga Liduína,

    Demorei um pouco a ler seus artigos. O que me fez ver quanto tempo perdi. Ainda bem que posso recuperar lendo, por exemplo, este texto.
    Minha irmã, pense em difundir seus escritos em mais canais, pois o mundo está perdendo em não lê-los. A profundidade e, ao mesmo tempo, a simplicidade do texto acima, retrata a essência do relacionamento humano, em qualquer parágrafo posso/podemos refletir sobre o meu/nosso comportamento com os “nossos” e com a “sociedade”. Parabéns sempre.
    Muito obrigado por escrever.
    Um forte abraço.
    Paulo de Tarso

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