O que você vai ser…

 

Não descuidar da "criança interna"

Não descuidar da “criança interna”

Entre as muitas lições que nos dá Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, uma toca profundamente.  É quando Riobaldo, personagem do romance, faz uma síntese perfeita sobre como precisamos ampliar a visão para acompanharmos os movimentos da realidade.

Na passagem, o jagunço diz: A cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas e diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça para o total.

Com esse jeito tão próprio de falar, Riobaldo faz, na realidade, um discurso sobre  a flexibilidade.  Atributo humano  que nos permite examinar a realidade de perspectivas amplas para transformações comportamentais necessárias à mudança atitudinal.

E sabe porque o tema é central para todos que optaram pelo caminho do autoaperfeiçoamento?

Somos seres de expansão e crescimento. Isso significa que somos capazes de evoluir sempre.  Da ouverture até o epílogo da  grande ópera da vida precisamos continuar afinando instrumentos e cantos. A saída, então é refletir  continuamente sobre nossa disponibilidade e disposição para avaliar e  transformar atitudes.

Se ficarmos atentos, veremos que nos dividimos entre pessoas rígidas, cujo repertório de pensamentos, atitudes e sentimentos muda muito pouco; e pessoas de vontade lábil ou fraca cujas decisões e escolhas estão sempre em rotatividade para agradar aos outros ou para adaptar-se ao ambiente.

Das primeiras, podemos dizer que são pessoas com dificuldades para perceber a vida em constante fluxo e por isso, agem de forma estereotipada ou sempre igual. São movidas pelo hábito, pelo costume,  por opiniões e visões fechadas e rígidas.

Alguém já apelidou esta dificuldade para mudar de pensamento e atitude como “Síndrome de Gabriela”. Contudo, quando Dorival Caymmi compôs ‘Modinha para Gabriela’, tema da adaptação do livro de Jorge Amado para a televisão que diz: “Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim, vou ser sempre assim” quis homenagear a pureza de Gabriela. Mas, o refrão é propício  para exemplificar o tipo de distorção comportamental que caracterizaria a “síndrome” . Ou seja, quando  alguém utiliza  este argumento, declara  perceber-se  incapaz de transformar-se. Condenado a repetir-se eternamente.

Por sua vez, as pessoas excessivamente maleáveis que mudam a toda hora, na tentativa irrefletida de se adaptar a tudo e todos, numa descaracterização da própria identidade, são vulgarmente chamadas de “maria vai com as outras”. Apelido que se refere à incapacidade dessas pessoas de adotarem uma referência interna própria, para tomar decisões grandes ou pequenas e para isso, assumem, sempre, as exigências alheias ou externas às suas motivações .

As pessoas rígidas apresentam tendência a alimentar sentimentos de rancor e negatividade, pois apegam-se a mágoas do passado e têm dificuldade para transpor a barreira do tempo e atualizar os próprios sentimentos.  Elas se apegam às suas opiniões com fervor. Nas discussões, não debatem idéias, se entricheiram nos próprios pontos de vista, incapazes de enxergar as diversas perspectivas. Seguem na míopia do apego a um único ponto da questão.

Por essas e outras características, as pessoas rígidas tiram pouco proveito em relação a tudo o que poderiam extrair da vida e têm hábitos arraigados. Sofrem quando precisam mudar uma vírgula que seja do texto que escolheram para escrever suas histórias.

As pessoas excessivamente influenciáveis e com cega disposição de confirmar a expectativa dos outros e  adaptar-se sempre, correm o risco de viver em estado de permanente frustração, uma vez que não conseguem concretizar  projetos que atenda aos próprios anseios. Quando em grupo, não estabelecem credibilidade suficiente para exercer liderança, sendo facilmente manipuláveis.

Mas, essas atitudes extremas, embora comuns,  não ajudam no processo de crescimento humano.  O dinamismo e a criatividade são as maiores vítimas dessas duas formas de reagir nos contextos que exigem mudanças. A rigidez e  a vontade lábil. Essas deformações podem levar-nos a a agir como adultos empedernidos e teimosos ou de forma inconsistente quanto à nossa própria vontade.

Algumas perguntas podem ajudar-nos a visualizar a disposição que mantemos para lidar com os desafios e novidades: Como lidamos com mudanças? Transformamos raiva em reflexão para compreender as emoções ou  armazenamos mágoas no baú do ressentimento? Somos curiosos e abertos a novas informações? Temos gosto e disposição para descobrir pespectivas ou petrificamos opiniões para que a realidade possa ajustar-se à nossa própria idéia?

As respostas obtidas podem  ajudar na viagem pela linha da flexibilidade. Caminhemos, então. Se somos seres vocacionados para a evolução, por que é tão difícil dosar a forma como exercitamos nossa flexibilidade  para aprender e crescer como pessoas realizadoras?

A flexibilidade é um atributo humano muito ligado à maturidade do eu. Portanto, tavez possa ajudar-nos a exercitar  mais a flexibilidade na medida certa,  lembrar a infância e recordar o comportamento infantil. É próprio da infância, a disponibilidade para experimentar e conhecer. À proporção que vamos amadurecendo, costumamos adotar atitudes adaptativas e de afastamento do risco e da novidade. Vamos fixando um padrão de identidade adulta, sem contato com a criança interna. Resquício do que fomos e fizemos nos primeiros anos de vida quando o tatear para a descoberta era o caminho para diminuir o estranhamento que sentíamos em relação ao mundo.

Se examinarmos com rigor, veremos que diante da necessidade de nos reposicionarmos na vida, costumamos tomar adotar um ‘padrão adulto’ artificial, baseado em imposições e convenções externas; ou vamos navegando pelas bússolas alheias, incapazes de desenvolver  um padrão adulto próprio, maduro e autônomo.

A consciência de como nos relacionamos com essa “criança interna”, que representa a lógica da mente mais emocional e intuitiva, em contraponto com nossa capacidade de adotar a lógica mais racional do adulto,  fruto do amadurecimento pertinente do “eu” talvez seja a senha para acharmos  o “caminho do meio” como dizia Aristóteles, ou seja, o caminho da temperança. Da dose certa.

Olhando a forma como nossa sociedade trata suas crianças  – maus-tratos ou exagerada proteção, permissividade, negligência – talvez identifiquemos algo de como tratamos nossa “criança interna”; isto é, como nos relacionamos com os registros de nossa vivência infantil.  A criança interna de cada um de nós representa a lógica do pensamento voltado para a intuição,  o sonho,  a poesia e o mito.  Ela é o tempero para a  firmeza  exigida pelo mundo adulto e que muitas vezes, tansformamos em crueza, rigidez e até crueldade .

E se dispomos de equipamentos perceptivo, sensorial e cognitivo que nos habilitam a lidar construtivamente com a realidade com vistas ao crescimento, a  questão  é  nos apropriarmos dessas faculdades e lidarmos de forma firme mas maleável com os desafios da vida.

A canção Roda Viva de Chico Buarque fala-nos de sentimentos possíveis em momentos de crise:

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou  foi o mundo então que cresceu…’

Nas crises é um desafio agir de forma espontânea e criativa.  Mas os  mesmos versos nos embram que o mundo cresce. E nós?  Será que estancamos?

 Estamos sempre em movimento.  Algumas pessoas mais. Outras, menos. Mas, somos vocacionados à expansão e à expressão.  Por mais rígidos ou influenciáveis que possmosa parecer. A capacidade de agir com a necessária firmeza,  aliada à desejável adaptabilidade é inerente a nós como seres inacabados e aprendentes.

Rígidos ou muito influenciáveis? Vai depender, consideravelmente, de como será tratada a criança que habita em nós. Cuidemos.

 

 

Ser tudo o que se pode ser...

Ser tudo o que se pode ser…


5 comentários sobre “O que você vai ser…

  1. Amanda disse:

    Que coisa boa! Texto novo no blog!

    Gostei, super interessante falar da flexibilidade, de como nos transformamos e, como fã de Chico, adoro a música ‘Roda Viva’. Letra maravilhosa, ele é muito inspirado! E a senhora aplicou de forma sábia ao texto! Adorei!

    Parabéns pela produção. Qualquer dia teremos um livro maravilhoso para comprar né?

    Abraço carinhoso!

  2. Marisa disse:

    Lidu, muito legal a forma como você aborda, não só este, mas os temas sobre os quais escreve. Sempre tem algo que nos toca, que nos faz refletir. Parabéns.

  3. Jovina Gomes Benígno disse:

    Lidu, a expansão de que você fala no seu texto torna-se fato à medida que lemos suas palavras, tão bem colocadas e ordenadas; é espetacular perceber a maneira simples como você tece teias tão sofisticadas de forma tão natural; você nos mostra a harmonia que pode haver entre ser profunda e ser clara; entre ser complexa e ser compreendida, ser entendível;
    O texto tem um saber e uma sabedoria que nos fazem pessoas com sentimentos de amplos horizontes; infinitas possibilidades e perspectivas e expectativas possíveis . Um beijo, e obrigada por nos presentear e ser tão generosa.
    JOVINA

  4. Nara Neide Teixeira Soares de Lira disse:

    Lidu, buscar o equilibrio e o autoaperfeiçoamento são tarefas que devemos empreender em nossa vida. Seu texto fala desta busca de uma forma simples, embora o tema seja bastante complexo.
    Tenho procurado sempre acessar seu blog, porque ele me faz refletir sobre a vida e colabora com meu desenvolvimento pessoal e profissional,
    Obrigada por dividir suas reflexões. Obrigada por ser minha amiga e por já termos tido oportunidade de aprender juntas. Um grande e demorada abraço!
    Nara Lira

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