Como é o filme da sua vida?

Coerência...

Coerência…

Fim de semana. Os cinemas estão lotados. As pessoas querem ver a vida pelo olho mágico da sétima arte. E o que mobiliza alguém a entrar em um salão e permanecer horas, sentado no escuro, assistindo a uma história?

A arte dos irmãos Lumière tem realmente forte apelo humano. Incorpora elementos das outras artes consagradas antes dela: dança, teatro, música, literatura, pintura e escultura e é feita com os mistérios e truques que as envolvem.

Mas e do ponto de vista existencial?

Por que os filmes repercutem tanto  em nós?

É comum ouvirmos: “A arte imita a vida”. E talvez essa frase resuma a resposta à questão. Possivelmente é a função especular que o cinema tem que o torna tão penetrante nas nossas impressões. Os filmes funcionam como espelhos, por intermédio deles, “entramos” na intimidade de outras pessoas, sem cometermos indiscrição. Histórias escancaradas em brilho, cor e movimento.

Tendo essas histórias como livros abertos diante de nós,”nos enxergamos” sem terceiros para nos criticar e podemos extrair ensinamentos e condutas a imitar. Por isso, quando a luz volta e as pessoas abrem os olhos à realidade, o filme não acaba. Suas lições continuam inquietando.

Por exemplo, quando assistimos “E o vento levou” saimos com uma mensagem da força da superação e de como amor e ódio ocupam espaço nas nossas vidas. Se vimos Blade Runner,  possivelmente ficamos inquietos com a pergunta que baila em cada imagem: para onde vamos? Se formos platéia de “Ao entardecer”, talvez deixemos a sessão com a certeza de que não importa quão brilhantes e  alegres  sejam as manhãs; se delas só levarmos rancor, no entardecer da existência, estaremos ressentidos. Condenados a enxergar o futuro somente como tempo de amargar recordações penosas.

E tudo isso, por que ao escolhermos um filme  optamos, também, pela mensagem que queremos receber.

E quem já não saiu do cinema frustrado, ao ver que a história não guardou conformidade com as expectativas que criou? Quando isso acontece, é comum rotularmos o filme de incoerente.

 E se a nossa vida fosse um filme? Será que nossas ações traduziriam mensagens consistentes? Será que nosso discurso é uma “boa dublagem” do filme que acreditamos dirigir? Será que passamos coerência?

A palavra coerência, do latim cohaerentia, significa harmonia, a conexão da essência – múltipla e dispersa –  com a aparência e é aspecto inseparável da felicidade e do êxito. Afinal, quem pode estar em harmonia consigo mesmo se não vê coerência na sua própria história?

O anseio de todos é construir uma história que repercuta sua essência.

Nesse sentido, a coerência é quase sinônimo de felicidade.  Entretanto, às vezes, o que dizemos ou fazemos nega o que somos. Mais grave, às vezes, não percebemos o fenômeno e ainda ignoramos que seja possível transformá-lo. Quantas vezes somos capazes de nos distanciarmos da própria ação e avaliá-la? Um bom exercício é tentar visualizar nossa vida como se fosse um filme que protagonizamos.

Nossas atitudes passam mensagens. Quanto mais as ações e o discurso traduzem nosso propósito, maior a chace de uma existência coerente. Daí a importância da autoconsciência, pois, muitas vezes uma ‘legenda’, visível a todos, é desconhecida por nós mesmos.

Pitágoras afirmava que: “Nenhum homem é livre se não pode comandar a si mesmo”. O filósofo nos convidava à autoconsciência, ao auto-observar-se. Ele convoca-nos a buscarmos compreender a motivação de nossos próprios comportamentos, principalmente dos que produzem maiores conflitos em nós mesmos ou entre nós e os outros.

A autoconsciência ajuda-nos a dirigir com congruência o épico de nossa própria vida”.

Quando agimos mais conscientes do que somos e para onde queremos chegar, agiremos com mais consistência. Nossa presença, a melhor tradução do filme que protagonizamos, produzirá mais agradabilidade e confiança. É a autoconsciência que nos ajudará a permanecer no comando da história que efetivamente queremos dirigir.

Não importa se o filme da nossa vida é uma comédia romântica, uma história de amor, um épico, um drama, um filme de ação ou um clássico arrebatador. Isso vai depender do estilo de cada um. O que conta para um crescimento congruente é que dirijamos o filme que realmente pretendemos ver na tela da nossa história.

O importante é ser diretor atento e protagonista ativo do nosso filme.

A vida como um grande épico...

A vida como um grande épico…

4 comentários sobre “Como é o filme da sua vida?

  1. Amanda disse:

    Como sempre, o texto está maravilhoso. Muitos questionamentos importantes para o autoconhecimento.

    Esta auto análise é fundamental para desconstruir o incoerente e formar a cada reflexão um eu mais pleno.

    Obrigada pelo texto!!

    Beijo no coração

  2. Excelente texto… nos faz refletir bastante se aquilo que pensamos faz parte de nossas atitudes e como identificar se isso acontece ou não.

    Parabéns, e um beijo pra Sra.

  3. jovina Gomes Benígno disse:

    Dra. Liduina Benigno Xavier. Impressionante e muito apropriada a metáfora que constitui todo o seu texto… sábio, objetivo; as desculpas finais quanto a ser um texto longo credito à sua humildade… porque , quando termina , pensamos: que pena que terminou..! O gratificante é que o final é feliz: muita luz em nosso próprio “roteiro”; Lembrei também que quando dublamos em nosso próprio filme, não ouvimos nossa própria voz…
    beijo grande! Obrigada por “acender as lamparinas de nossos juízos”, sábia mestra!
    Jovina (sua eterna admiradiora)

  4. ieda maranhao de lacerda disse:

    Oi, Liduina,

    desafiador é comentar sobre os ensaios de uma escritora com a sua bagagem…mas vou arriscar…Eu diria que a vida envolve os 6 sentidos e o que fazemos com eles…

    Abraços,

    Ieda

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