gratidao, pintura de Ângela Filipe
O ingrato semeia a raiva, o grato perpetua a amizade

Um provérbio vietnamita diz: “quando comeres uma fruta lembra-te de quem plantou a árvore”.

O dito popular traduz a sabedoria de uma nação sofrida que aprendeu o valor da gratidão.

No dia a dia, são muitos os focos de discórdias. Então, como construir uma  vida feliz e equilibrada sem minimizar os nós que emperram as relações?

A compreensão do que nos leva às tensões inúteis e sugadoras de energia emocional é um bom começo na cura das relações.

O estudo da hostilidade humana, quando busca as origens das rivalidades que levam a guerras e conflitos armados, tem apontado duas fontes: a escassez de recursos e a diminuição da autonomia. E, de fato, as disputas e a opressão têm sido motores infalíveis de hostilidades.

Entretanto, as guerras e os grandes conflitos são ápices da rivalidade. Não são as hostilidades cotidianas traduzidas em rispidez, indiferença,  e omissões que vão enredando a teia  dessa animosidade?

E a animosidade que tem repercussão social na convivência dos povos,  traz também malefícios à saúde emocional de pessoas e relações.

Se pudéssemos escutar as queixas que chegam às clínicas psicológicas, ouviríamos lamentos, que, no geral, falam do sofrimento provocado pela ausência de reciprocidade nas relações, ou seja, pela ingratidão.

A gratidão é atitude que revela pessoas com elevado senso de justiça e conscientes de que a reciprocidade nas relações é uma regra universal de conduta propiciadora de bem-estar e paz. Todos que agem de boa fé esperam reações compatíveis com as própria ações.

A gratidão ou reciprocidade justa está na base dos relacionamentos saudáveis, sendo a raiz da aceitação social e da genuína amizade.

As palavras gratidão, agradável, gratificante e graça têm a mesma raiz etimológica. E realmente, condutas que encerram empatia têm o poder de imprimir confiança mútua e graça nos relacionamentos.

A ingratidão, ao contrário, é semente de ressentimentos. Frustra alianças e causa fraturas irrecuperáveis nas relações.

Sentir-se vítima de ingratidão traz a sentimentos de desamparo com repercussões negativas na capacidade humana de acreditar no companheirismo e nos benefícios da convivência, com impactos terríveis à sociabilidade.

E sem as competências da sociabilidade preservadas não há êxito ou felicidade possíveis.

Um provérbio francês diz: a gratidão é o coração da memória. É preciso praticar as competências da gratidão: reconhecer o mérito alheio, elogiar honestamente, recompensar favores, agradecer com humildade.

Essas condutas demonstram disposição à gratidão e condutas típicas de uma elevada competência social. O contrário disso é condenar-se ao isolamento social.

Daniel Goleman, psicólogo e neurocientista, defende que as aptidões  essenciais são transmitidas muito cedo e por essa razão, precisamos ensinar o alfabeto emocional às  crianças e jovens; treiná-las para que sejam adultos capazes de promover bem-estar emocional e social.

A infância e a adolescência são realmente pontos críticos. É quando são introduzidos os hábitos emocionais que vão governar nossas vidas e condicionar os resultados que obteremos no futuro.

Contudo, é sempre possível transformar atitudes e modificar condutas durante toda a vida para sermos pessoas melhores.

Sabemos que não é fácil. Transformar atitudes, virar a chave da mudança de hábitos prejudiciais exige negar uma realidade social que dá sinais de irreflexão, dissolução da civilidade, extremo individualismo, cega acumulação material e evidências da desintegração do senso comunitário.

A prática da gratidão, a gentileza cotidiana podem ser bons antídotos. Podem ajudar a tecer trabalho e  convivência com o concurso da cooperação, da empatia e consideração do outro. 

Chogyam Trungpa, mestre do budismo tibetano, prega que quando se exprime a gentileza e a gratidão sobre  o ambiente, o poder e o brilho descem sobre a situação e transborda sobre nós.

Deixemos, então, a luz da gratidão resplandecer sobre nossas existências.

A gratidão é a memória do coração