Você tem inspiração?

"The Seine at Asnieres"

O Sena na inspiração de Renoir

Estamos no carnaval. São muitas as expressões de extravasamento e espontaneidade nos mais diversos pontos do país. Os blocos de sujos, as fantasias improvisadas, a irreverência das brincadeiras, as festas populares, as danças inventadas, os trios elétricos, as letras das marchinhas e os desfiles das escolas de samba são quase, intimações para pensarmos na criatividade e na espontaneidade: condições para a superação da realidade mais imediata e seus condicionantes que muitas vezes empobrecem o agir e o viver.

Entre esses eventos, o desfile das grandes escolas de samba na Marquês de Sapucaí, destaca-se pela diversidade criativa e força estética. São enredos, fantasias, sambas e alegorias que transformam materiais os mais variados em sonhos e exaltação da beleza e da razão. É a explosão da capacidade humana  de criar e realizar. Não é à toa que é considerado o maior espetáculo da terra e atrai a atenção de pessoas no mundo inteiro.

Assistir aos desfiles daquelas agremiações carnavalescas propicia muitas reflexões, mas para objeto deste ensaio, elegemos a inspiração e todas as interrogações e mistérios envoltos nesse tema tão relevante. Sim, a inspiração é  condição primordial para as pessoas que desejam consagrar sua existência à construção de uma bela e afirmativa história de vida.

E essa não é a meta de todos nós? Viver a vida de forma coerente, plena e edificante?

Essa tarefa só é possível, à medida que somos capazes de criar e realizar. Criar como capacidade de conceber algo, de planejar, projetar nossa existência; e realizar como condição que possibilita a concretização do que foi concebido.

Somos os criadores, os grandes artífices da nossa existência. Respeitadas  as determinações das leis naturais e os condicionantes históricos, somos os escultores que definem nosso destino.

E como temos concretizado essa obra de arte: nossa própria vida?

  • Vamos tocando intuitivamente?
  • Somos guiados pelas paixões?
  • A razão é  nossa régua?

As perguntas acima sinalizam formas de abraçar a existência, mas se você respondeu afirmativamente a apenas um dos itens, talvez precise rever seus conceitos, pois todos eles expressam ingredientes fundamentais para a construção de uma história realizadora: intuição, paixão, razão

A questão fundamental, entretanto, é que intuição, paixão e razão se efetivam por intermédio de nossa ação.

Nossa ação será tanto mais significativa para a criação de uma história realizadora se apresentar alguns  atributos. Por isso, a qualidade, a singularidade, a efetividade e a repercussão de nossas ações dependem significativamente de quão inspirados estamos para realizá-las.

No dia-a-dia, associamos a necessidade de inspiração apenas aos atos de criação estética. E é compreensível. Somos seres atraídos pelo equilíbrio, pela proporção e harmonia e é nas obras de arte que essas condições estão expressas e resumidas de forma mais visível e definitiva, causando sensação de fruição, bem-estar e realização humana.

Mas por que não cuidar de nossa existência dedicando-lhes o mesmo cuidado e esmero?

Para aproximar nossa existência do que queremos torná-la, precisamos estar inspirados como um artista ao lançar-se ao ato criativo. Para tal, é necessário ver a inspiração não apenas como condição sensível para realizar manifestações estéticas, mas como a convicção interior da própria capacidade de compreender a realidade e criar soluções ou instrumentos (físicos, mentais ou espirituais) para dotar nossa existência de sentido, realização e beleza.

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, dizia que a inspiração é um ato de vontade de viver. Essa definição não está muito distante do que nos traz a origem etimológica do vocábulo. Inspiração tem o significado ligado ao sentido de  inalar algo, incutir, penetrar no ânimo ou no cerne da própria vontade.

Quando falamos da necessidade de estarmos inspirados para viver, resgatamos a dimensão estética do ato de viver. Somos seres capazes de transcender nossa dimensão puramente animal e imprimir harmonia, equilíbrio e proporção à nossa existência, ou seja, somos capazes de nos inspirarmos.

E o que significa estar inspirado?

  • É estar imbuído da certeza que o trabalho, a convivência, entre outras categorias humanas dependem de como nos lançamos a elas e as construímos como artesãos que somos.
  • Saber que a inspiração não ocorre por si mesma, não é autônoma da vontade.
  • Compreender que a inspiração é a disposição sensível de observar o mundo e sorver dele o melhor e projetar nossa intenção, envolta a esse sentimento, às nossas ações e existência.
  • Aceitar que cada um de nós é detentor de capacidade criadora.
  • É ter a convicção de que somos uma invencível fortaleza realizadora.
  • È ter a absoluta noção do que é necessário fazer e lançar-se à realização tendo “aspirado” o melhor do mundo e de nossos sentimentos
  • Inspirar-se é integrar a beleza e o bem-estar à nossa capacidade realizadora.

A compreensão do que seja efetivamente o valor da inspiração no nosso dia-a-dia é o diferencial entre fazermos do cotidiano o lugar da inspiração para construção da história que queremos ou irmos repetindo as datas no calendário na ilusão de que a realidade externa mudará e que isso vai alterar o curso de nossa vida para a direção que desejamos ou para o nível de satisfação que sentimos em relação a ela.

Agora que já desmistificamos o conceito usual de inspiração e sabemos o quanto podemos nos beneficiar substituindo uma ação automática pelo agir  inspirado, em articulação com o mundo com o que somos, podemos e queremos realizar, vamos ver como podemos criar condições para uma vida inspirada e inspiradora?

  • Aprenda com os próprios erros. Como dizia Piaget, o erro é rota de aprendizagem. Se errar, siga em frente, corrija o rumo e cometa  erros novos. Eles farão parte da sua busca de autoperfeição.
  • Pratique um pouco de auto-ironia. Quando falhar ou cometer erros, ria da situação, não se mortifique à toa.
  • Saiba que não existe perfeição universal, mas podemos praticar atos de qualidade inigualável.
  • Amplie sua visão de mundo, dissipe a neblina das opiniões fixas, agregando outros pontos de vista.
  • Seja curioso, mantenha atitude de intercâmbio com a realidade. Absorva o mundo e projete-o nas suas atividades.
  • Entre em contato com seu corpo. Nossos sentidos são sensores e é por intermédio deles que absorvemos o ambiente.
  • Lembre-se que a fadiga é inimiga do equilíbrio, da proporção e da harmonia do corpo e da mente, portanto, impede a vivência da dimensão estética de nossa ação.
  • Observe a natureza. Leonardo da Vinci dizia que se imitarmos a natureza que personifica a perfeição podemos resolver muitos problemas que se apresentem no decorrer de nossa existência.
  • A convivência é fonte de inspiração. Conviva com disposição de ânimo para lidar com as diferenças e aprender com elas.
  • Crie uma ambiência agradável à sua volta.
  • Desenvolva sua capacidade interior de explorar os mistérios (sejam da fé, do universo, da ciência, da filosofia).  Einstein dizia que a maior emoção de que somos capazes é a emoção mística e que é no respeito aos mistérios que mora o germe de toda arte, de toda ciência e do bem estar-espiritual.
  • Aproveite o que não deu certo. Os acontecimentos que avaliamos como negativos, muitas vezes, têm potencial para abrir nossa percepção e obrigar-nos a revisar e refinar nossa capacidade de enxergar a realidade de forma mais ampla e positiva.
  • Observe os objetos e artefatos à sua volta. Eles concretizam criações e podem inspirar novos atos criadores.

E finalmente, veja cada dia como uma oportunidade de concretizar situações de bem-estar, mas se ocorrer algum episódio gerador de mal-estar, surfe nas suas ondas. É isso mesmo, enfrente-os com naturalidade, respeite o tamanho da onda e o movimento da maré e tire ensinamentos do que à primeira vista só traria aborrecimentos.

Nada melhor para cristalizar essa idéias final deste ensaio, que as palavras do poeta e ensaísta norte-americano Ralph Waldo Emerson:

“Termina cada dia e acaba com ele. Fizeste o que pôde ser feito. Sem dúvida alguns tropeços e absurdos se insinuaram; esquece-os o mais rápido possível. Amanhã é um novo dia; começa-o bem e serenamente, e com o espírito elevado demais para atrapalhar-se com teus antigos erros.”

Até o próximo ensaio.


6 comentários sobre “Você tem inspiração?

  1. Sônia Gomes disse:

    Lidu,

    Cada artigo é uma onda de conhecimento.

    Peço licença para lê no grupo, e discutir com eles sobre cada assunto abordado.

    Beijos,

    Sônia Gomes

    • Liduina Benigno disse:

      Sônia,

      Será uma honra ter os textos compartilhados em seu grupo. Saudade de você.
      Parabéns pela aposentadoria e forte abraço.

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