Você está pronto para conviver no século XXI?

O sol se põe para o século XX

O sol se põe  para o século XX

Sala de aula. Curso de Administração. A disciplina é Gestão de pessoas. O professor propõe uma tarefa: a formação de grupos entre colegas que tenham tido menos contato no semestre. Os alunos fazem cara de desaprovação e permanecem sentados. Alguns lançam comentários desanimadores. O professor escuta: “Como é chato essa história de formar equipe com gente desconhecida”.

Reunião de trabalho. A empresa tem dificuldades para articular o pessoal das vendas com a turma da produção. O gerente, em mais uma tentativa de integrar os dois grupos, propõe a formação de pequenas equipes mistas para iniciar um entendimento. A reação não é boa. Poucos estão dispostos à aproximação.

O que as duas situações têm em comum? Nossa dificuldade de conviver com as diferenças.

No primeiro episódio, temos um agravante: pessoas  se ‘preparando’  para trabalhar como gestores e que serão credenciados a intervir  em processos humanos para os quais se mostram insensíveis. Os desafios da boa convivência estão presentes desde sempre.

Não podemos olhar para essa situação com os óculos da ingenuidade. O modelo econômico baseado no consumismo, na acumulação e na competição que fecha os olhos para os limites éticos, estende esses padrões para outras esferas da vida e o resultado são relações recortadas pelo viés do interesse e da disputa de recursos. Mas as questões humanas geralmente têm causalidade múltipla. Não dá pra simplificar o que é complexo.

Todos sabemos que a disputa por recursos está na raiz dos conflitos humanos e que mesmo tendo atingido o patamar civilizatório que alcançamos, entrar em conflito, para nós,  ainda significa assumir disposição hostil, agressiva e de  luta com o outro (semelhante).

É desanimador, mas as constatações são quase automáticas:

  • O avanço técnico-científico caminhou em descompasso com a ética, a civilidade e o respeito humano pelo que lhe é próprio, ou pelo menos deveria ser, que é  a capacidade de resolver com argumentos o que os bárbaros enfrentam com hostilidade e armas.
  • Não conseguimos aprender, talvez a principal lição, que é saber conviver tendo presente, não apenas as necessidades imediatas, mas o projeto do homem de construir-se como humanidade .

Freud, o descobridor do inconsciente, dizia: “o primeiro homem que  ao ser ofendido revidou com argumentos em vez de usar a própria lança fundou a civilização”. Nessa frase o grande estudioso da condição humana sinalizava a importância de encararmos nossos conflitos usando meios próprios do que pretendemos ser:  humanos.

O século XXI abriu-nos  suas portas. E como ingressamos nesse novo tempo?

Entramos no portal do novo milênio com  grande preocupação: que  tipo de mundo  nossas crianças enfrentarão daqui a dez ou quinze anos. Que horizontes aguardam as gerações que herdarão nossa civilização?

Se não encararmos nossos desafios humanos, se não  prepararmos uma diligente intervenção aos problemas daí decorrentes, às futuras gerações restará maldizer uma herança nada auspiciosa.

E é preciso lembrar que o futuro se constrói nos passos dados no presente.

Hoje, os desafios humanos apresentam-se com maior complexidade. Por isso, a pouca disposição para a convivência – madura para lidar com os conflitos e disposta à integração das diferenças – é ainda maior. Se até meados do século XX, vivíamos em um mundo relativamente previsível, o século XXI consolida a inauguração do tempo do múltiplo, da diversidade.

Vivemos a época das constantes mudanças. Podemos até chamar nosso planeta de ‘mundo em transição’. São muitas as dimensões mundiais em transformação. Mas para esta  reflexão, vamos nos deter em aspectos que tornam ainda mais imperativa a necessidade de revisarmos o jeito humano de conviver com os diferentes. São eles:

* Explosão demográfica;
* Geografia humana extremamente impactada pelo movimento migratório intenso;
* Mercados multiculturais e diversificados;

Esses fenômenos, ao tempo em que expandem a humanidade, aumentam as possibilidades do estreitamento da convivência.

Se antes, as diferenças entre povos e grupamentos humanos ficavam restritas aos  limites geográficos, hoje, a multiplicidade de idiomas, credos, visões políticas e expressões culturais precisa dividir, cada vez mais o mesmo espaço. As diferenças estão, de forma progressiva, presentes na nossa rotina.

Visualizando esse cenário, é possível perceber que são ilimitadas as possibilidades e gigantescos os desafios que se apresentam ao homem neste limiar do milênio. E é fácil perceber porque. A necessidade de transações comerciais, políticas, culturais são promessas de um intercâmbio de riquezas, antes restritas aos grupos detentores. Mas será que conseguiremos realizar transações baseadas em relações respeitosas, éticas e humanitárias?

Para os profissionais das diferentes áreas isso traz a necessidade de novos conhecimentos, habilidades e competências. Sobretudo, competências ligadas à convivência. Não é por acaso que o Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI  coloca como um dos pilares para a educação no século XXI, o desenvolvimento de saberes que levem ao aprender a viver junto, ao viver com os outros.

O desafio como dissemos é grande. A história humana é, também, a historia do conflito, da guerra e esse potencial beligerante não tem diminuído, ao contrário, mostra-se em ascensão.

E para ser agente de transformação e conseguir atuar de forma afirmativa e exitosa, o profissional do novo tempo precisa:

  • Desnvolver  habilidades de convivência e comunicação;
  • Demonstar abertura de espírito e disposição de ânimo para enxergar o outro como semelhante;
  • Reaprender a comunicar-se num mundo multicultural; (Carlos Drummond  na poesia  “Mundo Grande”  já alerta quanto à necessidade de convivência e integração dos povos. Um verso diz assim: “Na solidão de indivíduo, desaprendi a linguagem com que os homens se comunicam”.)
  • Interessar-se pela condição  humana e suas peculiaridades;
  • Preparar-se para abraçar projetos comuns, mesmo  atuando em  grupos com cultura, fé, etnia ou qualquer outra condição diferente de seu grupo original
  • Sensibilizar-se para o desafio da diversidade, tendo em mente que somos uma só humanidade (Ortega Y Gasset dizia que “a civilização, acima de tudo, é a vontade de viver em comum”);

E antes de começar o trabalho de aprimoramento de nossas competências interacionais, é  preciso não desviar de algumas perguntas:

  • Que padrão interacional você tem adotado nos diferentes  grupos dos quais faz parte?
  • Como seu jeito de conviver tem afetado seu projeto de vida?
  • Como os outros percebem sua forma de conviver?
  • Você convive bem  com as diferenças?
  • Como você lida com os conflitos?
  • Sua presença afeta positivamente os ambientes que você freqüenta?

Fique atento e reflita sobre as respostas que obterá.

Lembre-se, no século XXI, o  grande diferencial dos profissionais não passará pelo domínio cognitivo (o conhecimento está farto e disponível). O profissional deste século precisará dar passos largos no aprendizado da  própria condição humana.

E uma sugestão de primeiro passo é fazer um exercício de autoconhecimento para a compreensão de como se dá o seu processo de percepção e julgamento das pessoas, dos grupos e das situações.

A percepção e o julgamento são funções da cogniçao social, processo fundamental para a qualidade e plenitude do processo de interação.

Por isso, não podemos esquecer:

  • Nossa percepção não é uma tradução exata da realidade;
  • Do momento que percebemos algo até o julgamento que fazemos da situação, ocorrem processos cognitivos e afetivos que dão significado ao que percebemos;
  • Inúmeras vezes, nosso julgamento de pessoas e grupos traduz muito mais nossos estereótipos, preconceitos, predisposições, medos e outras limitações ou distorções perceptivas, do que a própria pesssoa ou realidade percebida;
  • É preciso lembrar que o julgamento que realizamos das situações tem muito do que somos e projetamos.
  • Uma  saída para não sermos vítimas das armadilhas de nosso processo de cognição social é a abertura para integrar o outro;
  • Adotar atitude de  proximidade com as pessoas ajuda-nos a formar uma percepção mais nítida e realística;.

O tema da interação pode parecer metafísico, mas refere-se,  possivelmente, ao processo que mais afeta a vida humana na terra. A convivência é, sobretudo, uma  questão concreta, por isso, encerraremos essa reflexão  com uma frase de William James, um psicólogo preocupado com os aspectos práticos da existência humana:

“A maior descoberta de minha geração é que os seres humanos podem alterar sua vida alterando suas atitudes.”

Pense nisso!

9 comentários sobre “Você está pronto para conviver no século XXI?

  1. Iraci Metz disse:

    Muito interessante, Lidu, essa sua abordagem sobre acadêmicos de administração que tem dificuldade em se reunir em grupos e aih nós podemos extender essa dificuldade a outros profissionais que numa sala de aula se tornam crianças também e se recusam a trabalhar com novas pessoas (que chato, de novo). Ora são exatamente essas pessoas que formaram, ou liderarão novos profissionais. Parabéns!

    • blogdotriunfo disse:

      È isso. Talvez seja a grande tarefa dos educadores no Século XXI sensibilizar para tornar vivos o estudar e o ensinar.

  2. George Mello disse:

    Querida Lidu,
    Depois de algumas desculpas (decerto você me roubou os argumentos para não visitar o blog), dei um pulo aqui e fiquei bastante entusiasmado.
    Assisti com grande alegria a performance do seu grupo na festa da Dipes, uma linda homenagem ao Genival Lacerda, genuíno baluarte da cultura popular brasileira. Achei sensacional! Foi necessário que pessoas que construíram os pilares da educação do BB dessem uma lição de bom-humor e alegria na crítica e na proposição. Parabéns, antes de tudo (agora escrito!)
    Aquilo me trouxe um monte de reflexões que deixarei para outra hora, mas o ponto de contato entre os assuntos é clara: há pessoas nos processos e elas são razão primeira e última de tudo o que gira no globo. Sem discussão não é?
    No entanto, se diz, mas não se pratica e esta é a lógica do consumismo: pura prestidigitação. Das cartolas surgem sorrisos, felicidade, realização, mas o preço não é aquele que pagamos no mercado. Há uma cadeia de eventos que determina o porquê de tais relações.
    Com relação ao exemplo da sala de aula, o mais engraçado (vivi aquela experiência dezenas de vezes) é que depois as pessoas comemoram: _ Puxa! Conheci uma pessoa superlegal no curso tal. Precisamos entender as rejeições, os medos e tentar superá-los. Os educadores insistem em tais práticas porque sabem que o resultado será sempre positivo. Temos a vantagem da autoridade na sala de aula para criar o ambiente ideal e talvez nos caiba reduzir esta rejeição pela sua compreensão.
    Vou tentar acompanhar os textos, embora bastante extensos.
    Tive um professor na minha pós-graduação que dizia que as pessoas conhecem melhor o Código de Defesa do Consumidor do que a Constituição Federal. Isto indica que o indivíduo se reconhece primeiramente como consumidor e secundariamente como cidadão. Hemos de pensar!
    Recomendo para este assunto, pelo qual tenho obsessão, o livro A Felicidade Paradoxal, de Gilles Lipovetsky.
    Um beijo. Nos escrevemos.
    Saúde e felicidades.
    George

    • blogdotriunfo disse:

      George,
      Bom, você contribuir com sua experiência . Realmente, os educadores temos missões, não novas, mas que precisam receber atenção especial para darmos conta dos desafios.

  3. Amanda disse:

    O texto parece um retrato fiel do que acontece hoje em dia. É incrível como é comum hoje a dificuldade de relacionamento, de interagir, principalmente de ouvir o outro. Convivo com isso diariamente. A comunicação é um problema não só nas pessoas, mas também nas organizações. E não poderia ser diferente, já as pessoas formam as empresas.

    Excelente reflexão. E mais do que isso, serve como direcionamento de desafio para postura de mudança.

    Obrigada pelo texto, como sempre, de muito fácil leitura e compreensão.

    Beijo!

  4. Alusssandra disse:

    Olá, Liduína!
    Quanta verdade e familiaridade com o tema tratado em seu texto! Vivemos o tempo do autoconhecimento e conhecer nossas próprias atitudes não se faz mais suficiente; é preciso agir sobre elas! Buscar um entendimento de melhoria contínua que se estenda a quem somos e não somente ao que fazemos. É preciso começar esse processo….e não parar jamais! É muito bom poder contar com a sua contribuição.
    Manteremos contato.
    Um abraço,
    Alussandra

  5. O mundo de hoje trilha este caminho justamente pelo fato do ser humano não conseguir olhar para o próximo como uma pessoa que anseia pelas mesmas coisas que ele.

    Isso acaba gerando aquele pensamento de “eu e meus parentes/amigos primeiro, os outros em seguida”. Associe-se a isto o repúdio às mudanças e temos nossa civilização atual.

    A mudança deve começar de cedo, de dentro. Mais do que mudar para ser um profissional melhor no mercado de trabalho, devemos mudar e educar nossos filhos para serem pessoas melhores em um mundo futuro não tão distante assim.

    • blogdotriunfo disse:

      Anderson,
      É isso mesmo.
      O trabalho nosso (da humanidade) não é pequeno.
      Nossa dívida com os antepassados e com o futuro é bem grande.

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