Você é Eterno?

Dali(1904-1989)

A experiência sublime nos eterniza

Eternidade, eis uma palavra que provoca inquietação em todo mortal.

E a finitude humana é a razão de tal inquietude. Sendo mortais, aspiramos eternizar, senão a existência, pelo menos o registro de nossa passagem no universo. Daí que há milênios, acalentamos o desejo da existência duradoura.

Nem percebemos, mas todos os dias, algo acontece e nos leva a pensar na mortalidade com alguma vontade de driblá-la.

No dia a dia, os atos cotidianos ou experiências extraordinárias estão sempre envoltos no latente desejo humano de eternidade. Um exemplo? Experimente passar creme hidratante; tomar hormônios; olhar estrelas, amanheceres e jequitibás sem pensar em infinitude e permanência. Você verá que é quase impossível.

A questão da infinitude embala esperanças desde sempre e tem sido pensada por homens inquietos. De Heráclito, passando por Parmênides, Platão e Aristóteles, entre outros, muitos tentaram desvendar a vontade humana de domar a impermanência.

Os filósofos pensaram a eternidade de pontos distintos. A visão de que é eterno algo com duração infinita no tempo é a mais repetida. Aristóteles, entretanto, tem visão singular, pois afasta a noção de eterno do conceito de tempo. Ele diz que eterno é o que não está no tempo e portanto, não é por ele abarcado.

Os místicos, por sua vez, tratam a eternidade como um lugar no qual o tempo não é contado ou sentido. É o lugar místico da permanência como graça ou danação.

Nós, simples mortais, entretanto, podemos imaginar a eternidade não como um lugar ou  uma função do tempo. Podemos concebê-la como qualidade do que se lança adiante com força humana deixando sementes sublimes por onde vai

Um conselho repetido no senso comum é que para firmar marcas, devemos fazer três coisas: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Se atentarmos bem, estas tarefas encerram a noção de semeadura. A planta, semente de nutrição; o livro como semente do saber e um filho como semente de continuidade da espécie.

Como resumo das sementes fundamentais, essas três tarefas fazem sentido. Freud, contudo, também atribuía caráter sublime ao amor e ao trabalho.

Para o psicanalista vienense, essas duas áreas dão sentido à existência e nos unem à civilização. Quando pensamos em amores como os de Romeu e Julieta que atravessam a morte; nos amores felizes que perenizam o romantismo; ou nos amores perdidos, escondidos ou incompreendidos que deixam  marcas de sofrimento, vemos que a força do amor é eterna.

E quando olhamos o painel das realizações humanas, podemos sentir que o trabalho  também arremessa o homem para além, eternizando-o no legado às gerações sucessoras.

De fato, nas tarefas feitas com empenho e no amor vivido  com inteireza, deixamos marcas imorredouras. No entanto, é possível incluir experiências para além do amor e do trabalho, experiências de valor perpétuo pelo que provocam de enlevo sublime ou sentido extraordinário.

Uma ilustração desse tipo de experiência está no filme The Bucket List (Antes de Partir). Carter, personagem vivido por Morgan Freeman, ao descobrir que morrerá em breve, faz uma lista de coisas a fazer antes de partir. Examinando a lista de Carter, percebemos que se trata de tarefas que exigem empenho apaixonado; provocam enlevo ou nos confrontam com sensações de pura adrenalina.

O que Carter, de fato queria, era ser imortal. Sua lista mostra que tocamos a eternidade quando o espírito pulsa com o que vemos, sentimos ou fazemos; quando nos conectamos a algo de beleza inefável; quando a emocionalidade ou o espanto faz nossa alma mortal tremer.

Quem não viaja nas asas da eternidade diante de um mestre que ensina se esvaindo de amor pelo saber; quando escuta uma sonata de Bach, o Noturno de Chopin ou os concertos para piano de Tchaikovsky? Quem não toca o eterno ao ler as tragédias e comédias de William Shakespeare e os poemas de Pablo Neruda? Quem não se transporta à dimensão intemporal quando vê filmes grandiosos como ‘E o vento levou’ ou Casablanca? Quem não prende uma lágrima ao ouvir as composições de Max Steiner, vê um rascunho de Leonardo Da Vince ou  o autorretrato de Renbrandt?

Quem não se conecta à beleza impenetrável da vida ao ouvir o canto de um pássaro, emocionar-se com a lágrima triste de um homem velho ou sentir o carinho aveludado da mão enrugada de uma avó? Quem não sente a alma trêmula unir-se ao infinito, no ato de extrema solidariedade e compaixão?

Em síntese, para eternizar-se não basta falar de tempo e permanência, é preciso imaginar que há em tudo o que é feito e sentido de forma sublime, um germe do eterno.

Só o sublime é infinito como o brilho das estrelas; como a compaixão sentida em carne viva ou como a palavra de amor presa no céu da boca.

Todos nós, em algum momento, somos tocados pelo sublime, todos somos eternos nem que seja por um segundo de eternidade.

the-melting-watch, Salvador Dali

A eternidade dissolve o tempo

Uma Rica Vida Interior

Obra de De Chirico - Orfeu Solitário. 1973

Filtros incorporados para uma vida mais consciente.

Empregamos a expressão ‘vida interior’ como sinônimo da palavra espírito, no sentido de manifestação da espiritualidade religiosa. Entretanto, podemos utilizá-la em sentido mais amplo.

Nos dicionários, somente alguns significados da palavra espírito trazem o sentido místico ou religioso. Na conotação mística, espírito pode ser o sopro emanado do poder divino para constituir a alma imortal ou o nome dado às manifestações  de substâncias incorpóreas como anjos, demônios, almas e  fantasmas.

Entretanto, além do sentido místico, os dicionários também atribuem à palavra espírito, significados filosóficos e psicológicos.

Você deve estar se perguntando: e qual a importância de tomar conhecimento do conceito de vida interior na Filosofia e na Psicologia?

É que, essas abordagens, além de aplicarem a noção de vida interior aos seus conceitos,  atribuem a ela, importância fundamental.

Tal valor decorre do impacto da vida interior na forma como vivemos, trabalhamos e interagimos.

Para o filósofo Immanuel Kant, por exemplo, a vida interior é formada pelos conteúdos decorrentes da capacidade de raciocinar. Na sua visão racionalista, ele defende que a vida interior define a disposição diante da vida. Ele diz: ‘o espírito é o que nos vivifica’. 

O filósofo empirista John Locke, por sua vez, considera a vida interior um fator preponderante da ação prática. Para ele, o espírito ou vida interior impulsiona a disposição de ânimo para a ação.

Fugindo de conceitos mais carregados de Filosofia, como poderíamos conceituar vida interior no sentido psicológico?

Podemos dizer que a vida interior é a síntese da capacidade de incorporar o mundo e seus conteúdos ao que somos. Ou seja, a vida interior corresponde à totalidade do uso das faculdades psíquicas, emocionais e sensíveis que se expressa na forma como nos apropriamos da realidade e a refletimos na vida.

É por esse motivo que é fundamental interagir com o mundo: agir, contemplar, apreciar (no sentido de analisar e julgar), usufruir e sentir – para construir conteúdos internos que serão filtros, guias e parâmetros da nossa ação.

Em suma, esse conjunto de conteúdos internos apreendidos e elaborados na relação com o mundo compõe a riqueza da nossa vida interior.

E o que podemos fazer para cultivar uma vida interior rica ou, dito de outra forma, como elaborar mais o próprio espírito?

Ora, ficamos mais enriquecidos interiormente quando exercemos faculdades e sentidos para além das funções instintuais, apropriando-nos do mundo com consciência e deliberação.

Há diversos atos e atividades que favorecem o enriquecimento do espírito. Exemplos? Relações que buscam mútua edificação, contemplação da natureza, gozo espiritual, apreciação estética, elevação ética e experiência reflexiva são alguns desses atos. 

Mas, há inúmeros outros atos e atitudes que favorecem a elevação da vida interior. Enumeremos alguns: refletir sobre as próprias ações; exercitar a compreensão do próximo; cultivar valores elevados; relacionar-se de forma empática; prestar serviços voluntários; realizar práticas cidadãs; meditar; exercitar o corpo de forma saudável; ficar ao ar livre; apreciar as belezas naturais; participar de movimentos humanitários; viajar para ampliar horizontes existenciais; contemplar os recursos naturais; interagir com a vida animal; apreciar as diversas manifestações artísticas; compreender distintos processos criativos; abrir-se à diversidade; ter experiências multiculturais; desenvolver curiosidade pela cultura gastronômica; abrir-se às novidades tecnológicas.

Há quem considere que, para cultivar o espírito é necessário isolar-se, fechar-se como concha. Sem dúvida, é preciso ter consciência do locus interno pela introspecção, contudo, é na interação que se cultiva vida interior, pois afinal, só há introspecção a partir dos conteúdos extraídos do mundo exterior.

Quanto mais rica é a vida interior de alguém, mais essa pessoa será capaz de confrontar construtivamente a realidade objetiva em toda sua concretude com a realidade subjetiva e seus dramas e complexidade.

Há um ditado que diz: ‘quem tem uma rica vida interior nunca estará sozinho’. E parece mesmo que os que buscam apropriação ativa e consciente do mundo conseguem extrair insights valiosos e aplicá-los com proveito para a saúde emocional.

Redon.coquille

Sair da concha e construir vida interior

 

Uma Biblioteca, Infinitas Possibilidades

Obra de Mike Stilkey

Bibliotecas são plataformas para o futuro

A frequência assídua a bibliotecas traz amplos benefícios à formação, por isto, poderia  ser prática sistemática e aspecto valorizado nos currículos escolares de todos os níveis.

As bibliotecas, por centralizarem um universo ampliado de tipos de livros e autores, permitem sistematizar programas de estudos para o crescimento pessoal. Daí que ir à biblioteca não precisa ter como fim somente as retiradas de exemplares para estudos visando notas.

Quando vamos a uma biblioteca, podemos acessar um universo de informações, experiências e mentalidades que será tanto melhor aproveitado, se adotarmos um regime de ação sistemática e deliberada. 

É assim que vamos compor um lastro de saberes que vai incrementar habilidades e níveis de conhecimentos, que podem fazer diferença no tipo de pessoa que queremos nos tornar.

Personalidades que deram contribuições fundamentais à história humana sabiam do papel das bibliotecas como lugares de conhecimento. Eram verdadeiros ‘ratos de biblioteca’. Freud, Karl Marx, Jorge Luiz Borges e Sartre são alguns exemplos.

Karl Marx leu praticamente todos os livros de Filosofia, História e Economia do acervo da biblioteca de Londres, quando morou naquele país. E seu humor cáustico tornava-se ainda mais tórrido, quando o funcionário precisava fechar o prédio, forçando-o a encerrar o estudo. 

Sartre, por sua vez, no livro autobiográfico ‘As palavras’, confessa como as leituras feitas nas bibliotecas do avô e da escola, foram decisivas na elaboração das ideias que o levaram a ser um pensador sagaz.

Essas e outras figuras extraordinárias encarnam o fato de que para um bom preparo é imprescindível que a prática de frequentar bibliotecas ocupe lugar importante.

Na experiência escolar não deve ser diferente. A biblioteca não pode ocupar um espaço ínfimo na vida da escola. Os estudantes devem ser orientados e estimulados a utilizar a biblioteca e considerá-la como tesouro do qual todos precisam se apropriar.

As práticas educacionais, contudo, ainda precisam avançar e atribuir o devido o valor às bibliotecas. Raros professores reservam tempo de sua disciplina para incentivar os educandos a se apropriar ativamente da biblioteca.

Nas instituições de ensino superior, por exemplo, é suficiente uma ida à biblioteca para perceber o rápido entra e sai de alunos à cata dos livros adotados no semestre escolar. Os livros-texto exigidos nos trabalhos escolares costumam ser os únicos volumes solicitados.

Reconheçamos. Houve melhora no nível de aproveitamento das bibliotecas como equipamentos essenciais, mas ainda há um considerável universo de estudantes e professores que precisam ser sensibilizados nessa direção.

Frequentar bibliotecas, sistemática e deliberadamente, traz infinitas possibilidades de incremento à formação estudantil. E há caminhos que podem ajudar a apurar o gosto e aperfeiçoar a consulta aos acervos.

É útil considerar a possibilidade de levar a ementa das disciplinas e buscar os livros indicados como leituras adicionais ou de aprofundamento; ler prefácios e apresentações de livros que nos chamam atenção pode reservar ótimas surpresas, ajuda na descoberta de autores diversificados, para além do livro-texto.

Uma boa prática é reservar pelo menos um dia no mês para ir sem compromisso à biblioteca da escola e deixar-se flanar com o espírito livre. Aberto à novidade e à descoberta.

Do ponto de vista de ampliação do espectro de aprendizagem, é rico buscar títulos da Literatura universal que tratem do assunto das matérias do semestre e ainda, vasculhar livros de poesia e Filosofia que abordem a temática de estudo de nova perspectiva.

Mesmo em tempos de WEB, a frequência consistente à biblioteca escolar é maneira substantiva de conhecer livros, autores e abordagens de conhecimento que podem transformar mentalidades e mudar histórias de vida.

Em cada escola em que a biblioteca é uma ‘parte morta’ ou um depósito de livros abandonados, há estudantes negligenciados no seu processo de formação.

Uma boa inspiração para enfrentar tal realidade pode vir dos escribas mesopotâmicos. Eles escreviam em tabuletas de argila e as guardavam na ‘Casa das tabuletas’ – similar das atuais bibliotecas – para que as informações fossem repassadas aos alunos.

Eles cuidavam das tabuletas como preciosidades, pois tinham consciência do poder extraordinário conferido aos que eram leitores.

No seu cuidado e valorização das ‘Casa das tabuletas’, os mesopotâmicos deixaram uma lição que talvez, até hoje, não tenhamos aprendido completamente.

A leitura reconstrói mentalidades

A Verdade da Caverna

A verdade é sempre menina e, não raro, está ferida

Desculpas, artimanhas, disfarces, ilusões, pequenos falseamentos dos fatos, formalidades encobridoras de sentimentos reais, comentários evasivos e mentirinhas de amor.

Quem está imune a sofrer ou aplicar aos atos humanos, esses artifícios que, cotidianamente, travestem de verdade, pequenas ou grandes mentiras?

Talvez uma das respostas a essa questão seja que temos consciência de que a realidade tem força sobre nós e define boa parte do que será nosso destino. Por causa disto, muitas vezes, consideramos mais cômodo o refúgio em fantasias e ilusões que a negam ou amortecem.

A Literatura traz exemplos do medo de encarar a realidade crua e inexorável. Um exemplo está em Angústia, livro antológico de Graciliano Ramos. Nele, Luís da Silva, o protagonista, lamenta-se: ‘Quando a realidade me entra pelos olhos, meu pequeno mundo desaba’.

O embate eterno entre verdade e ilusão e a resistência de encararmos realidades distintas do que concebemos é tão central que é o tema da brilhante alegoria da caverna, exposta por Sócrates em um dos diálogos escritos por Platão.

Para entendermos esse eterno conflito entre o verdadeiro e o ilusório é preciso, antes, fazer uma distinção entre o que é a realidade e o que seja a verdade.

Costumamos utilizar os dois termos como sinônimos. Contudo, a realidade ou real é o que está dado. É o fato, fenômeno ou objeto em si. Daí ser sempre indomável e impessoal, pois o real é o que é ou ocorre objetivamente, livre de interpretações e olhares.

Por sua vez, a verdade é um olhar sobre a realidade objetiva, a verdade tem sempre um caráter pessoal, pois é a visão de alguém sobre o real.

Nesse sentido, é ilustrativa a visão de Drummond no seu Poema da Verdade, cujos versos dizem: “Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em duas metades diferentes uma da outra”.

De fato, não tocamos diretamente o real, nos relacionamos com ele de forma indireta, a partir da nossa percepção. Daí, que o grande desafio humano seja traduzir o real sempre rico e  complexo, da forma mais aproximada e livre de inclinações e interesses.

É impossível sobreviver ignorando o real, razão pela qual, a despeito de ser impossível traduzi-lo perfeitamente, precisamos esgotar os recursos de pensamento, linguagem, afetos e emoções para decifrá-lo.

É desse esforço de tradução rica e desprendida do real que nasce a verdade como território coletivo, como união sinérgica de olhares subjetivos movidos pela intenção comum de  desvelar a realidade de forma honesta e bem intencionada.

E esse trabalho coletivo de construção da verdade não é opção. É exigência humana, uma vez que a convivência, o trabalho e as relações humanas dependem da capacidade de construir a verdade comum da forma mais generosa, empática e benéfica.

A alegoria da caverna, exposta em Platão, fala desse esforço dos que saem da caverna e veem a realidade que está fora dela, mas fala também da resistência dos que permanecem nela de aceitar uma realidade diferente.

Na alegoria da caverna, está implícita uma pergunta: somos como os homens que só aceitam a verdade da caverna ou somos como os que saem e percebem a riqueza da realidade?

Muitas vezes, somos como aqueles homens acorrentados no fundo da caverna de Platão. Presos a um universo particular, enxergamos a realidade com um profundo fechamento de visão para o que é diferente.

Então, vivemos a ‘verdade da caverna’ e nos recusamos a ver a realidade que vem de outros olhares e como nos apegamos apenas à verdade da caverna, nos recusamos a ouvir argumentações que visem à clareza da situação, utilizamos palavras que dão aparência de verdade genuína ao que é apenas um ponto de vista pessoal e, por isto, sempre reduzido.

Nas discussões, nos apegamos à nossa ideia ou visão e ficamos nos debatendo no mero combate, que não raro, é resultado de narcisismo ou ardor egoístico de vencer a batalha.

Seguimos totalmente esquecidos da impossibilidade de tocar diretamente o real, que só é traduzível pela verdade presa a muitos e distintos olhares.

Outras vezes, somos como os que sabem que a verdade depende de intenções genuinamente honestas, materializa-se na disposição empática de compartilhar e no desprendimento de quem caminha junto, respeitando e abrindo-se às visões do outro para descobrir espaços fora da caverna.

Enfim, na geografia da verdade de cada um, há abismos, terrenos pedregosos e desertos cheios de miragens, por isso, o mais coletivo dos exercícios é percorrer o território da verdade.

Pois, ninguém o constrói ou chega lá sozinho.

Alegoria da Caverna.

Alegoria da Caverna – lição da verdade

 

Sobre Livros e Sebos

Livros como obras de arte.

Há quem diga que frequenta sebos para comprar livros baratos.

Mas, que tal desinstalar esse conceito e ver mais de perto a experiência de visitar sebos?

Ler é mais que extrair letras de um suporte inerte. Ler é apreciação do livro como objeto rico de sentidos. Mais que experiência táctil e cognitiva, a leitura é vivência emocional e sensível.

Nos sebos, existe uma atmosfera própria com cheiro de passado que inflama a sensibilidade e as emoções, convidando-nos a experiências quase feéricas. Há uma aura que favorece a apreciação do livro a partir de significados mais ricos do ato de ler.

Parece que nos sebos, ficamos mais suscetíveis à captação desse sentido simbólico da realidade: uma velha e pisada escada em caracol no corredor da loja pode ser imaginada como passagem secreta que levará a alguma torre dos castelos encantados típicos dos livros de Tolkien. Uma poltrona gasta jogada num canto, para leitores impacientes ou mais exigentes, nos transporta aos ambientes dos enredos familiares presentes nos livros de Jane Austen, Helena Morley ou A.J.Cronin.

O fato é que, para além da função comercial, os sebos são lugares onde, fora do acelerado mercado editorial, livros que seriam descartados são transformados em objetos que sobrevivem aos seus editores e leitores.

Então, gosto de pensar nos sebos como abrigos de tesouros.

Nos sebos, temos acesso a obras indisponíveis no mercado: edições de caráter comemorativo; encadernações peculiares e capas preciosas; edições esgotadas; obras prefaciadas por críticos, cuja análise primorosa chancela o seu valor; edições limitadas; obras institucionais não vendáveis; livros de circulação restrita; obras primas de autores esquecidos e, ainda, autores despercebidos em vida que, postumamente, viram clássicos.

Além desses casos, há um tipo de livro só encontrado nos sebos. Costumo chamá-los de ‘livros biografados’.

Considero livros biografados, os exemplares que trazem nas suas páginas testemunhos de que o leitor interagiu com o conteúdo da obra por meio de: dedicatórias; anotações que revelam insights; lembretes nas laterais das páginas; símbolos que mapeiam o itinerário cognitivo da obra e da compreensão do leitor; rabiscos que confidenciam emoções; assinalamentos que demarcam desejos e temores, etc.

Essa interação  com o conteúdo da obra deixa digitais do gosto literário e das características do leitor que funcionam como verdadeiros registros biográficos.

Existem também os livros que parecem feitos para os sebos.

As coleções de clássicos e os volumes polpudos que pela gloriosa história foram transformadas em ‘entidades literárias’ são exemplos desse tipo de livro que leva o leitor aficionado a preferir as folhas amareladas datadas pelo uso, as capas duras com filigranas douradas aos exemplares das reedições.

Alguns livros que li, comprados em sebo, deixaram a sensação de que se fossem novos não trariam o mesmo arrebatamento provocado pelos surrados exemplares. Lembro-me de alguns desses títulos:‘Crônica da Casa Assassinada’ de Lúcio Cardoso; ‘Ninho de Cobras’ de Lêdo Ivo; ‘Aves de Arribação’ de Antônio Sales; ‘Os Cavalinhos de Platiplanto’ de J.J.Veiga; ‘A Casa’ de Natércia Campos; ‘Últimas Cigarras’ de Olegário Mariano,‘Os meninos da Rua Paulo’ de Ferenc Molnár e ‘Labirinto de Espelhos’ de Josué Montello.

Nas obras antigas, só achadas nos sebos, as ilustrações são um espetáculo à parte (quem as suprimiu dos romances não sabe o prejuízo causado ao livro como objeto de arte). Ler Dom Quixote sem as ilustrações de Gustave Doré ou Gerhart Kraaz, por exemplo, deixa uma sensação de incompletude da leitura.

Frequentar livrarias e adquirir livros cheirando à novidade, saber o que escreve a criatividade dos novos autores ou que clássicos foram reeditados é uma experiência inestimável à formação e ao prazer do leitor, mas nada substitui a descoberta de relíquias, num ambiente que nos transporta à viagem mágica do livro através do tempo.

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Significados mais ricos do ato de ler

 

Quem é mestre?

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O lugar do mestre

A palavra mestre suscita múltiplos sentidos. Traduz significados heterogêneos, sendo aplicada a contextos variados.

A exemplo dessa pluralidade, podemos elencar seus sentidos mais constantes.

São designados mestres, por exemplo, os pais que criam filhos passando-lhes valores para a formação de caráter e preparando-lhes para assumir papeis sociais de forma consciente. 

São considerados mestres, ainda, os que têm atuado como guias na construção da  civilização: os gregos são mestres da Filosofia Ocidental, sendo Sócrates, a figura mais representativa do poder formativo da Filosofia; Confúcio e Buda são mestres orientais que consolidaram o valor da filosofia e da espiritualidade do Oriente.

Também são nomeados mestres as pessoas às quais atribuímos habilidades impecáveis no exercício de funções ou realização de tarefas que requeiram saber específico.

Ainda são designados mestres os companheiros de trabalho que nos passam o aprendizado de serviços e os que exercem sobre nós, algum tipo de supervisão e o fazem com maestria.

Porém, o sentido mais profundo da palavra mestre está relacionado à influência benéfica e duradoura que um educador consegue exercer sobre os educandos.

E o que será que faz de um educador, uma figura que evoca esse sentido magnânimo à palavra mestre?

Há inúmeras respostas para a pergunta, pois há distintas visões do que seja educar, firmando-se como guia de notável credibilidade.

Vejamos algumas dessas concepções.

Rubem Alves via o mestre como um ‘fundador de mundos, mediador de esperança, pastor de projetos’, assim, para ele, a interioridade e a subjetividade do educador são dimensões fundamentais que o levam a educar com amor, alegria e zelo.

Paulo Freire, por sua vez, considerava mestre verdadeiro quem educa para a autonomia.

O Patrono da Educação Brasileira criou três grandes princípios dos quais desdobra um  conjunto de competências que faz um educador capaz de convidar os educandos a transformar o  mundo num lugar melhor. 

Na concepção freireana, é princípio da educação para a autonomia, a consciência do educador de que: não há educador sem educando, ensinar não é transferir conhecimento e ensinar é uma especificidade humana.

Paulo Freire lembra-nos de que o desejo de conhecer é uma vocação humana, portanto, somos todos sujeitos detentores de saberes que precisam ser considerados na prática educativa, que por sua vez deve basear-se no diálogo e respeito ao outro.

Coincide com a visão de Paulo Freire, o pensamento de Dante Alighieri, autor de A Divina Comédia, que elegeu o poeta romano Virgílio como guia definitivo.

Dante dizia que: ‘o mestre e o aprendiz na jornada do aprendizado compartilham a mesma esperança’. É uma linda maneira de dizer que educador e educando se movem pelo ardente desejo humano de conhecer e são parceiros na viagem de construção do conhecimento.

No livro Lições de Mestre, George Steiner faz um apanhado das singularidades da relação mestre – discípulo. E nessa análise, deixa-nos antever sua própria visão de que o mestre prepara o discípulo para continuar sozinho  seu percurso da busca do conhecer.

Ele defende que: ‘o mestre tem nas mãos algo muito íntimo de seus alunos: a matéria frágil e inflamável de suas possibilidades… Ensinar com grandiosidade é despertar dúvidas, treinar para divergir, é preparar o discípulo para partir’

Mas, talvez seja impossível refletir sobre quem é mestre sem voltar à Filosofia grega e reencontrar Platão.

O autor de A República é tido como um perfeito modelo de educador.

Sua influência formativa sobre os discípulos é notável. Aristóteles, o mais brilhante deles,  mesmo firmando posição filosófica divergente quanto às fontes do conhecimento, acaba reproduzindo o empenho formativo de Platão na relação com seus próprios educandos.

Um ponto em comum, tanto para Platão na Academia, como para Aristóteles no Liceu, é a valorização que ambos atribuíam  à presença do educador e à sua capacidade de causar arrebatamento nos educandos pela palavra e pelo exemplo.

Platão ensinava que ‘toda lição bem aprendida em sala de aula, por mais abstrato ou pragmático que seja o conteúdo, tem um efeito imediato na preparação para a liberdade intelectual do educando’.

Segundo ele, ‘a presença do educador é mais decisiva para fixar aprendizagens do que qualquer livro’.

Seria interessante imaginar o que o filósofo de ombros e ideias largas diria do que é ser mestre nos tempos de hoje, um tempo em que o ensino virtual avança e a informação é cada vez mais algorítmica. 

Em síntese, passa o tempo, muda o mundo, mas mestre será sempre quem tem consciência do alcance que sua atuação terá sobre os outros e as consequências individuais e sociais que sua influência pode trazer.

Fontes de saber e exemplos

Recomendações quixotescas para o ano novo

quixote

Marchar rumo aos sonhos

É quase irresistível. Ao final de um ano, firmamos desejos para o ano que começará.

Emagrecer, ter mais dinheiro, fazer e manter amizades, encontrar e conservar um amor, entre tantos outros desejos presentes na lista de cada um.

Mas, como iniciar aquela dieta e perseverar até se livrar do excesso de peso?

Como alterar hábitos de consumo para equilibrar o orçamento e ter mais recursos para realizar sonhos?

De que forma se relacionar de modo mais caloroso e feliz para fazer e manter amigos?

Como viver uma experiência romântica duradoura?

Essas perguntas encerram os desafios mais comuns, entre os inúmeros que podem nos separar de desejos tão acalantados.

E foi pensando nas exigências de transformação pessoal para alavancar sonhos, que imaginei o seguinte: e se tivéssemos um conselheiro a nos guiar? E se pudéssemos receber dicas de alguém?

Mas quem seria esse conselheiro?

Precisaríamos de uma figura exemplar. Teria de ser alguém capaz de se lançar sem medo nos próprios projetos. Alguém destemido, capaz de avançar ante obstáculos e perseverar, mesmo diante de quem considere seus sonhos meras e intrigantes fantasias.

Pensando nesses critérios, a escolha recaiu em Dom Quixote. O cavalheiro criado por Miguel de Cervantes, um homem apaixonado por aventuras da cavalaria e pelo amor e, mais importante, defensor intransigente de seus próprios princípios e valores.

Basta ler Dom Quixote para descobrir que em cada uma de suas aventuras se encerra uma porção de sábios conselhos que podemos adotar para melhorar decisões e ações.

Poderíamos elencar muitos desses conselhos, mas para os fins práticos, aqui propostos, focalizaremos apenas três sábias exortações.

O primeiro desses conselhos refere-se à forma como utilizamos o tempo. Quixote diz o seguinte: ‘O tempo é ligeiro e não há barranco que o segure, portanto, não adies o que deves fazer, pois no tardar é que costuma estar o perigo.’

Nessa primeira exortação, o personagem de Cervantes mostra a necessidade de planejarmos nossas ações para não desperdiçarmos tempo e usá-lo a nosso favor.

No segundo conselho: ‘Cuida, pois cada um é filho de sua obra’ , Quixote nos convida a dedicar esforço, dedicação e capricho no feitio das nossas ações, do começo ao fim, até a conquista almejada.

Esse segundo conselho evidencia a importância de elegermos atividades relevantes aos nossos fins e perseverarmos na sua realização. Quantas vezes estamos muito ocupados, mas o que fazemos não nos leva a lugar algum e quantas vezes, simplesmente, desistimos.

É imprescindível escolher um objetivo e diariamente realizar algo, mesmo uma pequena ação que nos aproxime dele.

O terceiro conselho aborda o lado ético do agir, quando visamos nossos interesses e ganhos próprios. ‘Aja com honra, pois o que mal se ganha, perde-se ele e o dono’  é  uma advertência do Quixote para não esquecermos de cuidar de nossos interesses preservando a dignidade.

São três curtos ensinamentos, mas que abordam dimensões gigantes da ação humana:  o tempo, o trabalho e a honra.

E não são as nossas ações e o modo como as efetuamos que realizam desejos e assim nos realizam?

Lembre-se disso já no primeiro dia do novo ano.

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Imaginar e agir