O que ensina o carinho materno?

É inegável que as mães são a fonte primária das lições significativas que forjam o modo pessoal de ser e estar no mundo.

Chama atenção, entretanto, que ao fazermos o balanço do que representam as mães, restringimos o reconhecimento aos cuidados recebidos quando ainda éramos tenros bebês ou então, fazemos um elogio genérico ligado ao sentimento de gratidão filial.

Entretanto, mesmo sendo o reconhecimento válido, podemos aprender mais lições se detalharmos o valor materno, mostrando que por trás do zelo e abnegação de cada tarefa, podem ser extraídas lições de eficiência, ação previdente e tino estratégico.

Senão vejamos.

Pensemos na rotina das mães e vejamos a quantidade de tarefas que precisam ser realizadas com constância afetiva, vigilância intensa e desembaraço prático para fazer face às exigências filiais.

Primeiro, a mãe ao se deitar, após um dia exaustivo, disponibiliza sua disposição emocional aos eventos e solicitações noturnas que os filhos trarão. Depois, antes de fechar os olhos, ela planeja mentalmente, tudo o que fará no dia seguinte e mentaliza a forma mais prática de lidar com as tarefas (toda tarefa de mãe é por natureza complexa) de forma a poupar esforço e economizar tempo para possíveis imprevistos.

Quando prepara alimentos; organiza roupas e utensílios e ensina tarefas, o faz, pensando em imprimir segurança e valor afetivo e trazer benefícios ao cuidado dispensado.

Ao acordar, na maioria das vezes, pressionada por um choro ou solicitação filial, ela ainda antecipa o dia mental e emocionalmente para  retirar ou inserir providências que  lhe permitam maior dedicação e desvelo.

Então, ninguém duvide de que, tudo o que uma mãe faz está calcado em ações e decisões de estratégia e planejamento avançados e com alto risco.

Não pensemos, contudo, que das ações maternas emanam apenas lições de ordem prática. Mães são mananciais de aprendizagens afetivas e sensíveis. Afinal, quem há de negar o valor inigualável das lições advindas do envolvimento caloroso de uma mãe com o filho? Da singular capacidade materna de, nos momentos de angústia filial, dar conselhos que serenam a alma e apontam caminhos? Da amabilidade que derrama o olhar materno na hora do erro, da dor e do desespero?

Finalmente, aprendemos com as mães que a simples presença cálida de alguém pode renovar esperanças num coração sofrido.

O que carregamos das mães?

 

 

 

De certos livros, a leitura nunca cessa

Com quantos livros se faz um escritor? Ou, quantos livros alguém precisa ler para abraçar a escrita com proficiência?

Certa vez, li um artigo que se propunha a responder tal questão. O texto deixou-me pensativa.

O autor iniciava com uma declaração que dizia mais ou menos assim: ‘Digo a quem pretende começar a escrever agora, que não importa quantos livros tenha lido, já está com um déficit de leitura de pelo menos seis mil títulos’.

Confesso. O aspirante a escritor que habita em mim ficou assustado. Bateu-me um sentimento de raiva. Perguntava-me se o autor não teria a secreta intenção de levar à desistência, todos os que almejavam o ofício da escrita.

Na continuidade da leitura, porém, refeita da emoção inicial, percebi que o moço expressava profunda consciência dos desafios da escrita e, apenas queria reforçar a exigência de extensa e contínua agenda de leitura e cuidados na formação do escritor.

Passados mais de dez anos, desde que deparei aquele texto, admito que, de vez em quando, reavivo na memória aquelas recomendações. Afinal, quem busca esmero sabe que toda prática requer emendas e recortes que a aproxime da perfeição possível.

Manter-se vigilante é indispensável para não cair em fórmulas superadas ou enferrujar o estilo que precisa ser polido constantemente. Vigilância para manter hábitos edificantes da escrita eficiente.

Quem escreve, por exemplo, precisa ter bom domínio do idioma pátrio. A língua é o continente de onde retiramos os recursos expressivos, daí que o primeiro cuidado a observar seja a manutenção de íntima amizade com dicionários, gramáticas e livros didáticos de Linguagem, Literatura e Crítica Literária.

A propósito, há autores que dominaram tão magistralmente a língua que foram aclamados com a paternidade de seus idiomas. A exemplo, Camões, Shakespeare, Goethe e Dostoiévski são chamados pais das línguas portuguesa, inglesa, alemã e russa, respectivamente.

Quem escreve também precisa acumular olhares, experiências, conhecimentos e para tal necessita abrir janelas da realidade para esquadrinhar mundos, enxergá-los com nitidez, visando à construção de uma biblioteca interna de conteúdos  que serão expressos pelas lentes de sua visão particular.

É da biblioteca interna de vivências e visões que são retirados os conteúdos ou sedimentos da escrita. Ivan Turgueniev não descreveria a paisagem russa com tamanha acuidade se não fosse um observador cuidadoso do que viveu na infância aristocrática naquele país. Tolstói não faria retratos tão sensíveis de almas atormentadas se não usasse o olhar misericordioso como filtro criativo. Machado de Assis pintaria retratos menos precisos das características psicológicas das personagens, não fora um observador agudo e reflexivo do que ocorria na sociedade.

Por último e não menos importante, vem o modo de leitura profunda. Um jeito de ler que pretende extrair do texto sua intenção, argamassa e estrutura. Prática que exige a leitura de autores diversificados que nos ponham ao alcance da construção textual com a palavra exata e do parágrafo que tece sinteticamente a trama expressiva da escrita.

Para essa finalidade, as possibilidades de escolha recaem sobre autores e estilos inumeráveis: nacionais e estrangeiros; clássicos e contemporâneos: técnicos e ficcionais; prosa e poesia; populares e eruditos; consagrados e neófitos.

É a esse leque de escolhas que o autor daquele texto de que falei no início se referia. A riqueza de que podemos lançar mão para escrever melhor.

Finalmente, depois de algum tempo, penso que quando Jorge Luís Borges dizia que para ele o paraíso era uma espécie de biblioteca, falava mais de si mesmo como escritor e menos como leitor, mesmo tendo sido o amante da leitura.

E acho que tudo bem, pois o escritor talvez seja a melhor metamorfose do leitor.

Com quantas leituras se faz um escritor?

 

 

Há um sorriso recôndito em cada mulher

Há um quê de riso em cada mulher.

No seu mais íntimo recôndito, há uma energia alegre represada.  E, mesmo diante do abismo do sofrimento, há nela um suprimento de esperança triunfal prestes a eclodir.

É intrigante a persistência feminina, aliada à capacidade de manter os olhos acesos e a vontade amolada, para lançar-se com ânimo e vontade de acertar em tudo o que faz.

É como se as mulheres fossem seres feitos em camadas. E mesmo sob o peso do cansaço ou desilusão da camada mais externa, houvesse uma reserva de paciência heroica, de força interior e disponibilidade ao comprometimento. (mais…)

O Pequeno Príncipe - Obra dos Gêmeos
Onde foi que largamos o desejo de crescer?

Outro dia, fiz mais uma de minhas insistentes releituras de ‘O Pequeno Príncipe’, livro de Antoine de Saint-Exupéry, e tive a impressão de sempre.

É que os leitores costumam ver essa obra como sendo destinada ao público infantil e acabam subestimando o potencial reflexivo que ela encerra.

O Pequeno Príncipe é um livro, cuja leitura pode suscitar diferentes reflexões e, entre elas, destaca-se o questionamento sobre como, sob o peso de rótulos do que seja ser um adulto, as pessoas tornam-se rígidas e infelizes. (mais…)

Jim_Warren-ma_Warren_Painted_worlds_The_intellect
As ideias não nascem do vazio

‘Eu realmente preciso ler?’

Já ouvi muito essa pergunta. E, pasmem, até de alunos de cursos de pós-graduação.

Certa vez, um rapaz que acabara de concluir a graduação, confessou jamais haver lido um único livro. Perguntado sobre como cumprira a lista de leituras exigidas no vestibular, respondeu-me que havia lido resumos emprestados de uma colega.

O exemplo é desolador quanto às possibilidades de construção de formações profissionais sólidas e confiáveis, mas o fato é que há estudantes que não consideram a leitura, mesmo remotamente, uma atividade necessária. (mais…)

Fixidez não é autenticidade

Ser autêntico. Agir conforme os próprios credos, preferências e valores.

Eis a busca universal de cada indivíduo.

Não é à toa que Saramago dizia sobre ser autêntico, que a verdadeira felicidade consiste em caminharmos rumo a nós mesmos.

E quem, de fato, não tem extraordinária satisfação ao perceber que suas obras e condutas reproduzem tudo o que acredita ser autenticamente? (mais…)

Sonhar com o futuro é tarefa de sempre
Sonhar com o futuro é tarefa de sempre

O que você quer ser quando crescer?

Que menino ou menina jamais ouviu tal pergunta?

E a pergunta provoca as mais variadas respostas.

As crianças menores querem ser astronautas para ‘brincar na lua’ ou se tornarem pipoqueiros para ‘comer todas as pipocas’. As mais velhas, por sua vez, têm desejos mais pautados no real. Elas querem ser médicos para curarem o mundo e ‘ninguém mais sentir dor’ e há quem deseje se tornar veterinários para ‘cuidar dos bichinhos’.

Entre os jovens, as projeções são mais genéricas e começam a ser realistas. Eles querem trabalhar para ajudar os pais, ter o próprio dinheiro ou ficar ricos. (mais…)