Tecer a humana condição

Examinando a história, veremos que a sobrevivência humana deve parcela considerável do seu êxito à solidariedade expressa nas atitudes de compaixão.

Compaixão é a emoção causada em nós diante da dificuldade ou sofrimento alheio. E distingue-se de outras emoções, por seu caráter ativo, uma vez que só podemos identificá-la nos gestos de solidariedade dirigidos à promoção do outro ou à mitigação do seu sofrimento. (mais…)

Portrait of Mikhail Konchalovsky, the artist’s son, sitting in an armchair 1921
Há livros que desdenhamos

O que esperar de um livro?

Pelo seu inegável valor utilitário, a resposta é simples. Esperamos: aquisição de informações úteis; aprimoramento técnico; qualificação humana; formação profissional; deleite estético; diversão e enriquecimento emocional.

Realmente é inestimável a contribuição dos livros para a humanidade. Thomas Jefferson os amava e os considerava um tipo especial de capital. Formou valiosa biblioteca enquanto construía sua robusta carreira política. É dele a frase: ‘Os  livros são uma espécie confiável de capital, imune à influência dos banqueiros.’. Confirmando esse apreço inestimável, formou acervo particular tão valioso que originou, simplesmente, a biblioteca do congresso americano. (mais…)

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Criar a atmosfera do amor

Os consultórios psicológicos testemunham o grito às vezes mudo de pessoas que se queixam da solidão, do desamparo, da intolerância ou sofrem com a indiferença.

Pessoas que precisam lidar com desconfortos emocionais de diferentes origens. Mas, se pudéssemos englobar as causas identificadas para tais males, veríamos que a frustração e a tristeza, instaladas pela falta de validação emocional e reciprocidade nos relacionamentos, ganhariam destaque. 

E quando os terapeutas conhecem a realidade desses pacientes, percebem que são ambientes com atmosfera afetiva opaca, definida pela incomunicabilidade, pelo distanciamento emocional e, não raro, minada por hostilidade mútua ou unilateral. (mais…)

O Colosso de Goya
O conhecimento é um colosso que ao tempo em que nos atrai, também nos amedronta.

Conhecer é o desejo mais  pulsante do homem.

Aristóteles, o sábio grego, ensinava que ‘O homem deseja ardentemente conhecer’. Para ele, conhecer é vocação humana. Entretanto, podemos afirmar mais. Devemos reconhecer que o concurso do conhecimento é imprescindível para que o homem possa atuar sobre a realidade e adequá-la aos requisitos da sobrevivência. (mais…)

As estrelas nos dizem do inalcançável?

A crença na relação do destino humano com os astros talvez tenha nascido no momento em que, o primeiro homem, preocupado com a própria sorte, mirou o céu imaginando que lá estaria escrito o futuro.

Desde então, muitos povos conservaram  o hábito de consultar os astros. Os romanos, por exemplo, apegavam-se aos sinais estelares como oráculos infalíveis sobre vitórias nas batalhas e fartura na colheita.

E a consulta aos astros para perscrutar a sorte futura não pode ser vista como prática de ‘primitivos’ ou ‘incautos’. Goethe, maior escritor de língua alemã, por exemplo, inicia assim sua autobiografia: ‘Vim ao mundo, ao bater meio-dia… A constelação era feliz: o Sol encontrava-se no signo de Virgem e em seu ponto culminante para esse dia; Júpiter e Vênus contemplavam-no favoravelmente’.

Até hoje, perdura entre muitos o hábito da consulta ao horóscopo para ver se a posição dos astros é favorável aos desejos acalantados ou reserva alguma fatalidade.

As razões dessa constante crença de que sorte, desejos e estrelas estejam de algum modo ligados são atribuídas a muitos motivos. Um deles é o fascínio do homem pelo mistério.

E o abismo que nos separa do que reserva o futuro não guarda tantos mistérios quanto o oceano de corpos celestes que paira sobre nós?

Outra razão pode ser atribuída ao fato de termos desejos; termos fome de coisas e experiências que talvez nunca seja saciada, pois o desejo é contraditório em si. Ele nasce da pulsão que nos lança para algo, mas traz o germe da frustração.

E é essa dupla natureza do desejo que nos lança no medo do futuro. O Tempo almejado pode ser o tempo do preenchimento das carências, mas também, o tempo da revelação de vazios que jamais serão preenchidos.

Daí, vamos revirando as dobras do tempo para saber o que reserva a virada do presente. Olhamos as estrelas, procuramos oráculos com antecipações que nos livrem dos laços do fracasso e da decepção.

A própria origem etimológica da palavra desejo diz muito da associação entre o futuro, a sorte e as estrelas. Sorte vem de desiderare ligados às expressões sidus, sideris que significam astro e estrela respectivamente.

Pensando em tudo isso, parece inevitável, continuarmos inquirindo as estrelas sobre o futuro.

E não há nada errado com essa prática.

Podemos mantê-la com o olhar lúcido de quem sabe que as respostas que brotam de uma só fonte são sempre restritas. Podemos continuar adotando a estrela guia na jornada que vem adiante; não como prática supersticiosa, mas como exercício de inspiração e impulso na direção do que nos atrai.

Vincent Van gogh O Mar em Saint-Marie
Saber navegar é não perder de vista as estrelas.

SteinlenEl-Beso
O compasso do namoro

No mês dedicado aos namorados, quando o imaginário avermelha-se de paixão, são mais perceptíveis os mecanismos psicológicos presentes no fenômeno do enamoramento.

Sob o domínio das pulsões, os amantes ou os desejosos por enamorar-se pelo menos nesse período, são tomados pela vontade de voar a quatro asas e, assim, expressam afetos exacerbados pela imaginação e pelas sensações.

A expressão namorar tem raízes em palavras com significados (atrair, cativar e cortejar) sugestivos da essência afetivo-relacional dos atos que fazem o namoro. E o que seria o namoro do ponto de vista da psicologia do afeto? Um ritual que ratifica o desejo de pessoas que se querem juntas. Pessoas que buscam o encantamento do desejo de ser parte do desejo do outro.

No enamoramento, a percepção é tocada por uma aura romântica que imprime aos ambientes uma atmosfera em que lugares e objetos se metamorfoseiam em fetiches. Tudo tem sentido afetivo: a mesa do restaurante, o quarto de hotel, os lençóis, o papel de bombom, o ingresso do cinema.

Os objetos viram símbolos da vontade de enlaçar-se. O castiçal silencioso é cúmplice; as velas irradiam luz que homenageia o amor; flores viram confissões de admiração; os presentes e mimos são promessas de que o futuro será revestido de felicidade fiel; vozes comuns falam desatinos que soam como carícias de veludo em ouvidos dóceis e o olhar é abismo de onde se lança a esperança de ser mais que apenas um.

É certo que nem todos se rendem ao enlevo romântico. Os céticos quanto à capacidade de genuíno envolvimento ficam apáticos à celebração. Há, entretanto, os que dizem que só  age assim quem ainda não foi arrebatado pelas pulsões próprias das conexões amorosas.

A despeito das experiências divergentes, ninguém há de negar o forte apelo emocional que o amor romântico exerce sobre nós. E o namoro dando concretude aos jogos da afetividade romântica não pode ser desconsiderado como fenômeno de forte valência emocional.

O fato é que somos seres relacionais e sensuais, daí se origina a busca humana de criar laços, ser alvo de terno apreço e sensual deleite. Fatores que dão papel significativo às emoções em jogo na experiência sensível do namoro.

No ritual do namoro, a primeira impressão tem forte peso na formação do conceito dos amantes, por isto, a fase de atração é crítica. Muitos casais atravessam crises por estarem apoiados em recordações agradáveis (com forte caráter promissório) que guardam da fase inicial do relacionamento.

Como em todo fenômeno relacional e rico de subjetividade, não há fórmulas para garantir atração imediata ou firmar uma situação feliz de namoro. Contudo, as pessoas gostam de cortejar, quando percebem que estão em companhia de quem as fazem se sentir bem. Assim, quem exibe ânimo, espontaneidade e empatia, costuma ter abordagem relacional agradável e, portanto, tende a atrair companhias.

Na fase de manutenção do namoro, costumam ser mais bem sucedidos os namorados com boa noção de que amar é um verbo transitivo, ou seja, amar carece de objeto. Então, é preciso lembrar que a gente ama ‘outro’ diferente de nós e não um espelho que refletirá fielmente nossa identidade.

Um aspecto fundamental para consolidar a relação amorosa é quando os parceiros enxergam o amor como uma força. Amar não nos torna vulneráveis. Ao contrário, pela expressão de afetos, exprimimos força emocional. O que nos fragiliza são formas de dependência que podem estar presentes no jeito de partilhar a relação amorosa.

Namorar, enfim, é conectar-se com a aptidão generativa do amor e daí, firmar-se como alguém capaz de dar e receber afeto, por meio de trocas amorosas que fortalecem pelo encontro com o outro.

O selo do namoro

 

O que ensina o carinho materno?

É inegável que as mães são a fonte primária das lições significativas que forjam o modo pessoal de ser e estar no mundo.

Chama atenção, entretanto, que ao fazermos o balanço do que representam as mães, restringimos o reconhecimento aos cuidados recebidos quando ainda éramos tenros bebês ou então, fazemos um elogio genérico ligado ao sentimento de gratidão filial.

Entretanto, mesmo sendo o reconhecimento válido, podemos fazer mais, ampliando o olhar sobre a ação materna para extrairmos lições de eficiência, ação previdente e tino estratégico, ali contidas.

Senão vejamos.

Pensemos na rotina das mães e vejamos a quantidade de tarefas que precisam ser realizadas com constância afetiva, vigilância intensa e desembaraço prático para fazer face às exigências filiais.

Primeiro, a mãe ao se deitar, após um dia exaustivo, disponibiliza sua disposição emocional aos eventos e solicitações noturnas que os filhos trarão. Depois, antes de fechar os olhos, ela planeja mentalmente, tudo o que fará no dia seguinte e mentaliza a forma mais prática de lidar com as tarefas (toda tarefa de mãe é por natureza complexa) de forma a poupar esforço e economizar tempo para possíveis imprevistos.

Quando prepara alimentos; organiza roupas e utensílios e ensina tarefas, o faz, pensando em imprimir segurança e valor afetivo e trazer benefícios ao cuidado dispensado.

Ao acordar, na maioria das vezes, pressionada por um choro ou solicitação filial, ela ainda antecipa o dia mental e emocionalmente para  retirar ou inserir providências que  lhe permitam maior dedicação e desvelo.

Então, ninguém duvide de que, tudo o que uma mãe faz está calcado em ações e decisões de estratégia e planejamento avançados e com alto risco.

Não pensemos, contudo, que das ações maternas emanam apenas lições de ordem prática. Mães são mananciais de aprendizagens afetivas e sensíveis. Afinal, quem há de negar o valor inigualável das lições advindas do envolvimento caloroso de uma mãe com o filho? Da singular capacidade materna de, nos momentos de angústia filial, dar conselhos que serenam a alma e apontam caminhos? Da amabilidade que derrama o olhar materno na hora do erro, da dor e do desespero?

Finalmente, aprendemos com as mães que a simples presença cálida de alguém pode renovar esperanças num coração sofrido.

O que carregamos das mães?