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Há livros que desdenhamos

O que esperar de um livro?

Pelo seu inegável valor utilitário, a resposta é simples. Esperamos: aquisição de informações úteis; aprimoramento técnico; qualificação humana; formação profissional; deleite estético; diversão e enriquecimento emocional.

Realmente, é inestimável a contribuição dos livros para a humanidade. Thomas Jefferson os amava e os considerava um tipo especial de capital. Formou valiosa biblioteca enquanto construía sua robusta carreira política. É dele a frase: ‘Os  livros são uma espécie confiável de capital, imune à influência dos banqueiros.’. Confirmando esse apreço inestimável, formou acervo particular tão valioso que originou, simplesmente, a biblioteca do congresso americano.

E de fato, é impensável imaginar o capital intelectual produzido pela humanidade sem o definitivo poder de fixar conhecimentos proporcionado pela invenção do livro, notadamente, após o advento da imprensa.

Aqui, entretanto, o objeto de reflexão é um tipo especial de livro: o inesperado.

E o que é um livro inesperado? É o livro que não conhecíamos ou sequer imaginávamos que seria leitura proveitosa, mas de repente caindo em nossas mãos  se revela poderoso,  pelo efeito exercido sobre nós.

Possivelmente, tal livro nunca figuraria de caso pensado na sua lista de livros obrigatórios. Nem seria visto como provável título na pauta de leitura. Ou seria merecedor de pouso na cabeceira ao lado dos títulos que você não vê a hora de ler.

Mas, de repente, por acaso (será que o acaso existe?) ou providência, o livro está diante de você e, por algum motivo, é merecedor de olhar mais cuidadoso, atenção minuciosa, exame curioso. Então, a atração é inevitável e ele se revela um acontecimento na sua experiência de leitura.

E quem se considera um leitor não pode esquecer. Sim, existem livros que nem desconfiamos do seu valor mas, pelos mais variados motivos, são mananciais pelo poder de penetrar na memória com tal força cognitiva, vibração estética ou apelo emocional que provocam epifanias, arrebatam insights existenciais ou levam ao êxtase e espanto.

São livros que provocam calafrios, risadas íntimas, compreensões súbitas para elevadas interrogações, arrebatamento estético ou esvaziamento de crenças que eram dogmas.

Quando o ‘acaso’ nos salva e temos oportunidade de descobri-los, sentimos um misto de alegria por tê-los lido e um estremecimento ao pensar que talvez nunca o tivéssemos feito se nos fechássemos a experimentá-los.

Por tudo isso, é bom não desdenhar de nenhum livro pelos preconceitos que demarcamos sobre que leituras valem a pena.

mas, quando lidos, provocam epifanias.

 

 

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Criar a atmosfera do amor

Os consultórios psicológicos testemunham o grito às vezes mudo de pessoas que se queixam da solidão, do desamparo, da intolerância ou sofrem com a indiferença.

Pessoas que precisam lidar com desconfortos emocionais de diferentes origens. Mas, se pudéssemos englobar as causas identificadas para tais males, veríamos que a frustração e a tristeza, instaladas pela falta de validação emocional e reciprocidade nos relacionamentos, ganhariam destaque. 

E quando os terapeutas conhecem a realidade desses pacientes, percebem que são ambientes com atmosfera afetiva opaca, definida pela incomunicabilidade, pelo distanciamento emocional e, não raro, minada por hostilidade mútua ou unilateral.

E essa realidade não é restrita aos consultórios. As redes sociais, por exemplo, exibem fotos sorridentes e poses triunfais que muitas vezes mascaram carências de quem mostra a versão idealizada de si, esperando comentários ou likes validadores do seu ego.

E por que é tão valioso ser emocionalmente validado?

A validação afetiva é o termômetro que indica quanto somos estimados, quanto valemos em apreço e consideração. Moedas que mantêm o câmbio social e têm impacto primordial na autoestima.

E se há um elemento fundante da validação afetiva é o carinho. Visto como um ato comum de troca de afeto, esse elemento da vida emocional é subavaliado como fator de peso na cura de pessoas e relações. 

O ato carinhoso abrange expressões de afago, desvelo e apreço pelo outro. Tem forte valência psicológica: é fonte de validação humana; catalisador de trocas afetivas;  tem caráter mobilizador da simpatia recíproca; é apoio na cura emocional; gera confiança e disposição de entrega em quem o dá e o recebe. 

Ser acarinhado é desejo primário do ser humano. A própria etimologia latina da palavra, significando carência e desejo, explicita a razão pela qual, o carinho tem peso na constituição psicológica.

Por tudo isso, chama a atenção que, após milênios de história, e sendo fonte primária de afetividade, o carinho ainda seja visto apenas como toque casual, afago fortuito ou como ato restrito às carícias nas relações íntimas.

O acarinhar humano é gesto amplo. Utiliza inumeráveis formas e veículos para ir  amorosamente na direção do outro.

É certo que o carinho presencial ao alcance da mão é a sua forma mais visível. E é inegável o valor afetivo do apoio físico à mão trêmula, do suporte ao corpo frágil, do alimento que chega à boca faminta ou dos incontáveis gestos que pacificam a dor e minimizam o sofrimento.

Mas a iniciativa carinhosa tem outros caminhos. Pode se manifestar na escuta genuína; no olhar terno; no apoio na hora do luto; na busca do diálogo; na ajuda propícia; no silêncio acolhedor; no ceder para equilibrar o uso do poder; no compartilhar espaço; na hospitalidade desprendida; na presença calorosa; na despedida cuidadosa; no interesse genuíno; no respeito incondicional; no alegrar-se com a alegria do outro; na gentileza no convívio rotineiro; na compreensão empática.

Enfim, o carinho alcança todas as transações humanas. É revigorante emocional que cria e fortalece laços. É o veículo que dá trânsito ao amor, ao respeito e nos reafirma como agentes de saúde da humanidade.

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Um mar de solidão?

O Colosso de Goya
O conhecimento é um colosso que ao tempo em que nos atrai, também nos amedronta.

Conhecer é o desejo mais  pulsante do homem.

Aristóteles, o sábio grego, ensinava que ‘O homem deseja ardentemente conhecer’. Para ele, conhecer é vocação humana. Entretanto, podemos afirmar mais. Devemos reconhecer que o concurso do conhecimento é imprescindível para que o homem possa atuar sobre a realidade e adequá-la aos requisitos da sobrevivência.

E esse caráter indispensável do conhecimento para o homem proporciona indizível satisfação aos seus detentores e os torna admirados nas diversas áreas de atuação.

Quando adicionamos conhecimentos ao que sabemos, seja pela pesquisa, pela compreensão súbita, pela reflexão criteriosa ou por outro método de apreensão nos sentimos mais completos. E esse sentimento de maior completude, por sua vez, proporciona imensa satisfação e senso de poder pessoal.

A satisfação sentida no ato de conhecer foi imortalizada no júbilo de Arquimedes, matemático nascido em Siracusa, que correu nu pela cidade, ao realizar descobertas sobre os fenômenos dos fluidos em geral. Eureka foi o brado de Arquimedes no momento do insight e virou fórmula que exprime o prazer de conhecer.

Há, contudo, uma situação paradoxal em relação à busca do conhecimento. Explico. Mesmo diante de todas as vantagens trazidas pelo conhecimento, buscá-lo nem sempre é simples para muitas pessoas.

Aprender, lançar-se à busca do conhecer, muitas vezes, traz ansiedade e angústia que podem levar à aversão do aprendizado. Talvez a razão para tal paradoxo seja o fato de um novo conhecimento ou compreensão nova exigirem, não raro, mudança de visão ou assimilação de ideias e realidades que exigem revisão de todo um sistema de crenças.

Há mesmo um velho ditado que diz: ‘Quanto mais se sabe maior a inquietação’. E, de fato, quem há de negar que quando ignoramos algo, afastamos de nós, as angústias, dúvidas e indecisões que o domínio da nova informação talvez nos traga?

Assim, vivemos constantemente em meio ao paradoxo envolto no ato de conhecer, pois ao tempo em que o conhecimento nos atrai também nos assusta mergulhar no caráter de grandeza que o envolve.

Um antídoto para a inércia própria desse estado é pensar que a busca do conhecimento é a própria busca da autorrealização, da completude possível. Nessa tarefa de superação do imobilismo, a inspiração nos grandes mestres do pensamento pode ser decisiva.

Bacon, Hobbes, Pascal, Kant, Freud e Marx, por exemplo, podem ser inspiração, pois foram divulgadores do valor do conhecimento para a grandeza humana, pela superação das limitações impostas à ação não esclarecida. 

Permanecendo apenas no mundo dos mortais, entretanto, é útil lembrar que buscar o conhecimento já é em si conhecer.

O sonho da razão

As estrelas nos dizem do inalcançável?

A crença na relação do destino humano com os astros talvez tenha nascido no momento em que, o primeiro homem, preocupado com a própria sorte, mirou o céu imaginando que lá estaria escrito o futuro.

Desde então, muitos povos conservaram  o hábito de consultar os astros. Os romanos, por exemplo, apegavam-se aos sinais estelares como oráculos infalíveis sobre vitórias nas batalhas e fartura na colheita.

E a consulta aos astros para perscrutar a sorte futura não pode ser vista como prática de ‘primitivos’ ou ‘incautos’. Goethe, maior escritor de língua alemã, por exemplo, inicia assim sua autobiografia: ‘Vim ao mundo, ao bater meio-dia… A constelação era feliz: o Sol encontrava-se no signo de Virgem e em seu ponto culminante para esse dia; Júpiter e Vênus contemplavam-no favoravelmente’.

Até hoje, perdura entre muitos o hábito da consulta ao horóscopo para ver se a posição dos astros é favorável aos desejos acalantados ou reserva alguma fatalidade.

As razões dessa constante crença de que sorte, desejos e estrelas estejam de algum modo ligados são atribuídas a muitos motivos. Um deles é o fascínio do homem pelo mistério.

E o abismo que nos separa do que reserva o futuro não guarda tantos mistérios quanto o oceano de corpos celestes que paira sobre nós?

Outra razão pode ser atribuída ao fato de termos desejos; termos fome de coisas e experiências que talvez nunca seja saciada, pois o desejo é contraditório em si. Ele nasce da pulsão que nos lança para algo, mas traz o germe da frustração.

E é essa dupla natureza do desejo que nos lança no medo do futuro. O Tempo almejado pode ser o tempo do preenchimento das carências, mas também, o tempo da revelação de vazios que jamais serão preenchidos.

Daí, vamos revirando as dobras do tempo para saber o que reserva a virada do presente. Olhamos as estrelas, procuramos oráculos com antecipações que nos livrem dos laços do fracasso e da decepção.

A própria origem etimológica da palavra desejo diz muito da associação entre o futuro, a sorte e as estrelas. Sorte vem de desiderare ligados às expressões sidus, sideris que significam astro e estrela respectivamente.

Pensando em tudo isso, parece inevitável, continuarmos inquirindo as estrelas sobre o futuro.

E não há nada errado com essa prática.

Podemos mantê-la com o olhar lúcido de quem sabe que as respostas que brotam de uma só fonte são sempre restritas. Podemos continuar adotando a estrela guia na jornada que vem adiante; não como prática supersticiosa, mas como exercício de inspiração e impulso na direção do que nos atrai.

Vincent Van gogh O Mar em Saint-Marie
Saber navegar é não perder de vista as estrelas.

SteinlenEl-Beso
O compasso do namoro

No mês dedicado aos namorados, quando o imaginário avermelha-se de paixão, são mais perceptíveis os mecanismos psicológicos presentes no fenômeno do enamoramento.

Sob o domínio das pulsões, os amantes ou os desejosos por enamorar-se pelo menos nesse período, são tomados pela vontade de voar a quatro asas e, assim, expressam afetos exacerbados pela imaginação e pelas sensações.

A expressão namorar tem raízes em palavras com significados (atrair, cativar e cortejar) sugestivos da essência afetivo-relacional dos atos que fazem o namoro. E o que seria o namoro do ponto de vista da psicologia do afeto? Um ritual que ratifica o desejo de pessoas que se querem juntas. Pessoas que buscam o encantamento do desejo de ser parte do desejo do outro.

No enamoramento, a percepção é tocada por uma aura romântica que imprime aos ambientes uma atmosfera em que lugares e objetos se metamorfoseiam em fetiches. Tudo tem sentido afetivo: a mesa do restaurante, o quarto de hotel, os lençóis, o papel de bombom, o ingresso do cinema.

Os objetos viram símbolos da vontade de enlaçar-se. O castiçal silencioso é cúmplice; as velas irradiam luz que homenageia o amor; flores viram confissões de admiração; os presentes e mimos são promessas de que o futuro será revestido de felicidade fiel; vozes comuns falam desatinos que soam como carícias de veludo em ouvidos dóceis e o olhar é abismo de onde se lança a esperança de ser mais que apenas um.

É certo que nem todos se rendem ao enlevo romântico. Os céticos quanto à capacidade de genuíno envolvimento ficam apáticos à celebração. Há, entretanto, os que dizem que só  age assim quem ainda não foi arrebatado pelas pulsões próprias das conexões amorosas.

A despeito das experiências divergentes, ninguém há de negar o forte apelo emocional que o amor romântico exerce sobre nós. E o namoro dando concretude aos jogos da afetividade romântica não pode ser desconsiderado como fenômeno de forte valência emocional.

O fato é que somos seres relacionais e sensuais, daí se origina a busca humana de criar laços, ser alvo de terno apreço e sensual deleite. Fatores que dão papel significativo às emoções em jogo na experiência sensível do namoro.

No ritual do namoro, a primeira impressão tem forte peso na formação do conceito dos amantes, por isto, a fase de atração é crítica. Muitos casais atravessam crises por estarem apoiados em recordações agradáveis (com forte caráter promissório) que guardam da fase inicial do relacionamento.

Como em todo fenômeno relacional e rico de subjetividade, não há fórmulas para garantir atração imediata ou firmar uma situação feliz de namoro. Contudo, as pessoas gostam de cortejar, quando percebem que estão em companhia de quem as fazem se sentir bem. Assim, quem exibe ânimo, espontaneidade e empatia, costuma ter abordagem relacional agradável e, portanto, tende a atrair companhias.

Na fase de manutenção do namoro, costumam ser mais bem sucedidos os namorados com boa noção de que amar é um verbo transitivo, ou seja, amar carece de objeto. Então, é preciso lembrar que a gente ama ‘outro’ diferente de nós e não um espelho que refletirá fielmente nossa identidade.

Um aspecto fundamental para consolidar a relação amorosa é quando os parceiros enxergam o amor como uma força. Amar não nos torna vulneráveis. Ao contrário, pela expressão de afetos, exprimimos força emocional. O que nos fragiliza são formas de dependência que podem estar presentes no jeito de partilhar a relação amorosa.

Namorar, enfim, é conectar-se com a aptidão generativa do amor e daí, firmar-se como alguém capaz de dar e receber afeto, por meio de trocas amorosas que fortalecem pelo encontro com o outro.

O selo do namoro

 

O que ensina o carinho materno?

É inegável que as mães são a fonte primária das lições significativas que forjam o modo pessoal de ser e estar no mundo.

Chama atenção, entretanto, que ao fazermos o balanço do que representam as mães, restringimos o reconhecimento aos cuidados recebidos quando ainda éramos tenros bebês ou então, fazemos um elogio genérico ligado ao sentimento de gratidão filial.

Entretanto, mesmo sendo o reconhecimento válido, podemos fazer mais, ampliando o olhar sobre a ação materna para extrairmos lições de eficiência, ação previdente e tino estratégico, ali contidas.

Senão vejamos.

Pensemos na rotina das mães e vejamos a quantidade de tarefas que precisam ser realizadas com constância afetiva, vigilância intensa e desembaraço prático para fazer face às exigências filiais.

Primeiro, a mãe ao se deitar, após um dia exaustivo, disponibiliza sua disposição emocional aos eventos e solicitações noturnas que os filhos trarão. Depois, antes de fechar os olhos, ela planeja mentalmente, tudo o que fará no dia seguinte e mentaliza a forma mais prática de lidar com as tarefas (toda tarefa de mãe é por natureza complexa) de forma a poupar esforço e economizar tempo para possíveis imprevistos.

Quando prepara alimentos; organiza roupas e utensílios e ensina tarefas, o faz, pensando em imprimir segurança e valor afetivo e trazer benefícios ao cuidado dispensado.

Ao acordar, na maioria das vezes, pressionada por um choro ou solicitação filial, ela ainda antecipa o dia mental e emocionalmente para  retirar ou inserir providências que  lhe permitam maior dedicação e desvelo.

Então, ninguém duvide de que, tudo o que uma mãe faz está calcado em ações e decisões de estratégia e planejamento avançados e com alto risco.

Não pensemos, contudo, que das ações maternas emanam apenas lições de ordem prática. Mães são mananciais de aprendizagens afetivas e sensíveis. Afinal, quem há de negar o valor inigualável das lições advindas do envolvimento caloroso de uma mãe com o filho? Da singular capacidade materna de, nos momentos de angústia filial, dar conselhos que serenam a alma e apontam caminhos? Da amabilidade que derrama o olhar materno na hora do erro, da dor e do desespero?

Finalmente, aprendemos com as mães que a simples presença cálida de alguém pode renovar esperanças num coração sofrido.

O que carregamos das mães?

 

 

 

De certos livros, a leitura nunca cessa

Com quantos livros se faz um escritor? Ou, quantos livros alguém precisa ler para abraçar a escrita com proficiência?

Certa vez, li um artigo que se propunha a responder tal questão. O texto deixou-me pensativa.

O autor iniciava com uma declaração que dizia mais ou menos assim: ‘Digo a quem pretende começar a escrever agora, que não importa quantos livros tenha lido, já está com um déficit de leitura de pelo menos seis mil títulos’.

Confesso. O aspirante a escritor que habita em mim ficou assustado. Bateu-me um sentimento de raiva. Perguntava-me se o autor não teria a secreta intenção de levar à desistência, todos os que almejavam o ofício da escrita.

Na continuidade da leitura, porém, refeita da emoção inicial, percebi que o moço expressava profunda consciência dos desafios da escrita e, apenas queria reforçar a exigência de extensa e contínua agenda de leitura e cuidados na formação do escritor.

Passados mais de dez anos, desde que deparei aquele texto, admito que, de vez em quando, reavivo na memória aquelas recomendações. Afinal, quem busca esmero sabe que toda prática requer emendas e recortes que a aproxime da perfeição possível.

Manter-se vigilante é indispensável para não cair em fórmulas superadas ou enferrujar o estilo que precisa ser polido constantemente. Vigilância para manter hábitos edificantes da escrita eficiente.

Quem escreve, por exemplo, precisa ter bom domínio do idioma pátrio. A língua é o continente de onde retiramos os recursos expressivos, daí que o primeiro cuidado a observar seja a manutenção de íntima amizade com dicionários, gramáticas e livros didáticos de Linguagem, Literatura e Crítica Literária.

A propósito, há autores que dominaram tão magistralmente a língua que foram aclamados com a paternidade de seus idiomas. A exemplo, Camões, Shakespeare, Goethe e Dostoiévski são chamados pais das línguas portuguesa, inglesa, alemã e russa, respectivamente.

Quem escreve também precisa acumular olhares, experiências, conhecimentos e para tal necessita abrir janelas da realidade para esquadrinhar mundos, enxergá-los com nitidez, visando à construção de uma biblioteca interna de conteúdos  que serão expressos pelas lentes de sua visão particular.

É da biblioteca interna de vivências e visões que são retirados os conteúdos ou sedimentos da escrita. Ivan Turgueniev não descreveria a paisagem russa com tamanha acuidade se não fosse um observador cuidadoso do que viveu na infância aristocrática naquele país. Tolstói não faria retratos tão sensíveis de almas atormentadas se não usasse o olhar misericordioso como filtro criativo. Machado de Assis pintaria retratos menos precisos das características psicológicas das personagens, não fora um observador agudo e reflexivo do que ocorria na sociedade.

Por último e não menos importante, vem o modo de leitura profunda. Um jeito de ler que pretende extrair do texto sua intenção, argamassa e estrutura. Prática que exige a leitura de autores diversificados que nos ponham ao alcance da construção textual com a palavra exata e do parágrafo que tece sinteticamente a trama expressiva da escrita.

Para essa finalidade, as possibilidades de escolha recaem sobre autores e estilos inumeráveis: nacionais e estrangeiros; clássicos e contemporâneos: técnicos e ficcionais; prosa e poesia; populares e eruditos; consagrados e neófitos.

É a esse leque de escolhas que o autor daquele texto de que falei no início se referia. A riqueza de que podemos lançar mão para escrever melhor.

Finalmente, depois de algum tempo, penso que quando Jorge Luís Borges dizia que para ele o paraíso era uma espécie de biblioteca, falava mais de si mesmo como escritor e menos como leitor, mesmo tendo sido o amante da leitura.

E acho que tudo bem, pois o escritor talvez seja a melhor metamorfose do leitor.

Com quantas leituras se faz um escritor?