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Sentimento sobre a passagem do tempo 16/02/2012

Posted by Liduina Benigno in Ensaio.
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Sol poente ou preparação para muitas auroras...

O aniversário é a marca inequívoca da passagem do Rei Cronos e seu cetro imperioso. É o anúncio do tempo que escorreu e  do tempo que chega. E é nessa junção do tempo vivido com o momento presente que  se esconde a chave do futuro.

Ambiguidade. É. Vivemos uma ambiguidade sentimental em relação ao tempo. De um lado, experimentamos o sentimento de nostalgia. Um desejo de refazer pela lembrança, de forma perfeita,  tudo o que poderia ter sido e que não foi. Domínio da ilusão de que no pretérito, os encontros se conjugariam melhor e os desejos seriam sempre objetos diretos da vontade. Do outro lado, a esperança. O esforço de dar crédito à promessa atraente de que no futuro, bailaremos a dança da vida ‘en pas de deux’ com a  felicidade. E nessa ambiguidade, muitas vezes, investimos muito em sentimentos de nostalgia ou de esperança vã, desperdiçando força  essencial à  arquitetura do futuro.

Ad aeternum. Há um tempo absoluto. Um tempo que não finda. É a eternidade. Mas, apesar de finitos, cada um  de nós carrega  o dom de  fazer seu próprio tempo eterno. Para nós, a eternidade  vive  na concha  do instante vivido. Para experimentá-la, há que se evitar a corrosão do momento. O desperdício.  Para tanto, é descobrir o que nos move; o que nos comove, pois é eterno o momento bem vivido.

É, não somos eternos, basta que alguns calendários se sucedam, para percebermos que o tempo é voraz.  Mas somos seres de eternidade, podemos tocá-la pela transcendência. Ou seja, podemos ir além da realidade  imediata que nos cola à concretude da existência como experiência crua e sem sentido. E transcender a provisoriedade que nos marca é, também, lutar para não deixar nenhum instante vazio. Sem sentido.

Sentido e equilíbrio. Quando enxergamos sentido na utilização ou usufruto do  tempo, conseguimos serenar e olhar o escorrer das areias da ampulheta com a visão dos sábios. E, assim, fica mais fácil escapar do pessimismo que imobiliza e do otimismo que exagera ilusões. 

O cinza do pessimismo parece prevalecer na palheta onde escolhemos as tintas que dão  cor à vida. Discorrendo sobre  esse sentimento que, muitas vezes, entranha a alma, o escritor alemão Ernst Teodor Hoffmann lastima que “a humanidade seja tão propensa  a construir toldos que a impedem de enxergar o céu’. Talvez ele quisesse dizer-nos da importância de  ver o mundo com lentes apuradas e mãos vazias de tristezas prematuras, para  viver cada minuto em plenitude.

Tempo rei. Costumamos mitificar o tempo. Há uma música de Gilberto Gil que roga poderes que talvez não sejam próprios do tempo, mas de nós mesmos. Os versos clamam:

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver.

È, fomos ensinados que o tempo é rei. Mas cada um é majestade dos sentimentos que nutre sobre  a passar do  tempo. Cada um pode  escolher a largueza ou estreiteza do sentido da dimensão temporal na própria existência.

Cristovão Tezza, no livro O Filho Eterno, fala de um tempo em que ‘há uma espécie de tranquila eternidade que escorre em tudo o que pensamos e fazemos’. E é com o sentimento de tempo cheio, próprio dos momentos bem vividos, que este ensaio quer ‘se tornar eterno’ na apreciação do leitor.

Construir a vivência do tempo como exercício de eternidade, de transcedência...

Este ensaio é dedicado aos nascidos em 16.02.

Comentários»

1. Elieuza - 16/02/2012

Leve, curto mas intenso, tom de nostalgia e ao mesmo tempo de esperança, imagens lindas (sempre gosto muito dessas imagens que voce escolhe para ilustrar suas mensagens). Valeu, Lidu! Parabéns!

2. lucia vasconcelos - 16/02/2012

Liduina,

Pois é… ” È, fomos ensinados que o tempo é rei. Mas cada um é majestade do próprio viver e escolhe a largueza ou estreiteza da dimensão temporal da sua existência”.

Alguém disse que “o tempo é um senhor implacável” pois ele esculpe em nosso rosto, as suas marcas… A questão da vida não é envelhecer, mas como envelhecer, portanto vamos viver o nosso tempo com sabedoria!

Valeu pela mensagem!

3. Jovina - 17/02/2012

Lindo, Lidu. Obrigada por mais esta pérola.
bj

4. Melry Rose - 27/02/2012

Mulher de Deus, se hoje meus dias são bonitos, simples e me inspiram a coragem dia-a-dia, devo tbm a pessoas como vc, que escrevem com amor, e, se tem amor, é por um mundo melhor.
Obrigada

5. Carlito Silvério Ludwig - 29/02/2012

Prezada Diduina!

Parabéns pelo texto sábio e primoroso!

Me encantam a forma clean com que escreve, a perfeição da forma e do conteúdo!

Continue nos premiando com essas preciosidades!

forte abraço,

Carlito

6. Alexandre Lima - 27/03/2012

“Cada um é majestade dos sentimentos que nutre sobre a passar do tempo….”
Precisa dizer mais?

7. Miguel Adra - 09/04/2012

Uma vez um discípulo de Galileo perguntou-lhe quanto anos ele tinha. Ele respondeu que devia ter uns doze ou treze anos. O aluno retrucou. Aquela barba branca denunciava um certo tempo vivido. Ao que o mestre respondeu: – o que eu vivi não tenho mais. Só tenho o que ainda vou viver.
E como é pouco o tempo que temos não devemos torná-lo pequeno…

8. bruno benigno - 24/03/2013

O tempo é cultural, uma criação da sociedade para marcar a nossa passagem por essa vida, e o que fica marcado no tempo são as coisas boas e ruins. Assim, cabe a cada um de nós tornarmos os momentos ternos em momentos eternos.
Assim, o desconforto e a nostalgia que a passagem do tempo causa é devido a idéia de que nosso tempo passou e não se pode aproveitar mais, o que pode ocorrer diante das mudanças da vida, envelhecimento e etc.
Mas, penso que podemos aprender com o tempo, a oportunidade de recomeçar, renascer como o sol, e nos permitir fazer sempre algo novo, pois como diria a canção de Renato Russo, “temos nosso próprio tempo e somos tão jovens”.
A Oração ao tempo de Caetano Veloso fala que o tempo é o tambor de todos os ritmos, e nesse sentido, cada um tem ritmo, sua sintonia, e não devemos nos angustiar com um modelo de vida planejada de forma ortodoxa e uniforme.
Gostaria de dizer que coincidentemente fiz aniversários esses dias. Completei 30 anos, e me vi no texto, pois embora cheio de coisas para fazer me vi numa reflexão sobre a vida, a passagem que ela representa e percebo que o tempo não deve ser visto como um rei ou senhor, mas como um amigo discreto e silencioso que sempre nos acompanha com sinais e exemplos da experiência, cabe a nós ouvi-lo ou não.
No meu caso, embora pouco afeto ao esoterismo, finalmente entendi o significado da letra que diz “aos 29 com retorno de saturno decidi começar a viver”. (Renato Russo)


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